A princeza na berlinda - Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza

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Publié le : mercredi 8 décembre 2010
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Title: A princeza na berlinda  Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza Author: Urbano de Castro Release Date: February 4, 2008 [EBook #20103] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA ***
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RATTAZZI A VOL D'OISEAU
URBANO DE CASTRO CHA-RI-VA-RI
A PRINCEZA
NA BERLINDA
RATTAZZI A VOL D'OISEAU
COM A BIOGRAPHIA DE SUAALTEZA
( SEGUNDA  EDIÇÃO )
LISBOA TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA 7, Rua da Paz, 7 1880
A PRINCEZA NA BERLINDA
Não será talvez máo começar por fazer uma declaração:―nunca passei pelos beiços os guardanapos da princeza... Parece-me conveniente dizer isto. A minha terra , que era pequena no tempo de Garret, não me consta que tenha crescido, depois da sua morte... Tem até diminuido um pouco... talvez!
Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a litteratura não corria pressurosa ao Bragança , cumulando-a de elogios banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher, amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres dias... uma semana, outra... a litteratura não apparecia!―Pois ha de apparecer! exclamou ella―E convidou-a para jantar. E a litteratura appareceu. Os livros da princeza, que até então ninguem conhecia em Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da sua fama, começaram por essa epoca a ter uma tal ou qual extracção. Não é difficil advinhar quem os comprava―eram os convivas dos seus jantares―Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o foie gras de Rattazzi, e não dizer ao menos, no fim, que era admiravel o seu livro Si j'etais reine ; beber o champagne da princeza, e não lhe segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como Nice la Belle . E a proposito dos livros citavam-se os trechos das paginas abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que é inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que de resto não era muito difficil, a manobra fraudulenta , como diz o sr. Duc nos livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa... Callou-se porém muito bem callada e continuou a dar-lhes jantares hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se fez litterato, só para jantar com a princeza. Cá fóra, no Martinho e na Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que é deveras pena não terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas d'ellas não são em nada inferiores a muitas que lêmos no seu livro... E aqui está como madame Rattazzi conseguiu durante um mez ser uma notabilidade em Lisboa. Sua altesa, porém, em vez de contentar-se com esta gloria, embora de 2.ª ordem, lembrou-se um dia de querer uma gloria de 1.ª sorte, e escreveu uma comedia
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que, depois de muito applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de rasão chama um calvario, visto que lá teve... a cruz da pateada... Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,―e porque não a terá?―sim, porque não terá sua alteza a mania dos cumulos, se a tem, é impossivel que pelo seu preclaro espirito não tivesse passado este―o cumulo da selvageria:― Patear uma princeza... Ah! decididamente sua alteza não estava em sorte... Pas de chance ! No hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de luvas... Pas de chance !
Foi então, naturalmente, que o seu espirito se orientou na direcção a dar ao Portugal à vol d'oiseau . ―Ah! os senhores julgam que não é mais do que comerem-me os meus jantares, do que patearem-me as minhas peças, esperem ahi que já os ensino! Até aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou passar a tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando estão á minha mesa, que são meus commensaes?―pois enganam-se, são paginas para o meu livro! Não sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores é que me obsequeiam. Escusam de dizer «muito obrigado!» eu é que tenho que dizer-lhes « merci »! E escreveu Le Portugal à vol d'oiseau .
Lisboa já sabe pouco mais ou menos o que o livro é. Os jornaes tem dado excellentes amostras d'aquella famosa peça... Porque não havemos nós de dar tambem algumas? Estes dois perfis da nossa nobreza, por exemplo... Venha primeiro o conde de *** «â€•O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista encantador, entre parenthesis, não é menos notavel. De muito antiga e nobre familia, é verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Orça pelos cincoenta, mas não obstante apparenta um grande ar de mocidade. Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva vivacidade. Esta vivacidade será natural ou o resultado d'um estudo paciente para parecer ainda mais novo? Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do conde de *** são mais negros do que o ebano. Mas isto não é nada comparado ao craneo do encantador conde; o proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros, semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espaço possivel para assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos põe no cucuruto uma especie de pequeno crescente―não, eu nunca ousaria dizer chinó fallando de tão perfeito cavalheiro―que se confunde graciosamente com os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e summo de alcaçuz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim o seu creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, traça no meio d'esta pasta de raisiné breton , uma risca d'uma delicadeza,
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d'uma puresa, d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a cataplasma está secca, o conde póde apparecer no meio dos seus concidadãos. Todos conhecem o mysterio d'aquella cabeça e ha delirios de alegria quando o excellente homem é obrigado, em pleno sol ou em pleno baile, a andar de chapeu na mão, porque o calor tendo acção dissolvente sobre aquella untura, resulta d'ahi começar ella a mover-se, a palpitar, a derreter-se, acabando por escorrer pelo pescoço e pelo nariz do seu proprietario. Não obstante o conde de *** é um grande conquistador, um namorador que não perde occasião de deitar a sua olhadella, sendo porém capaz de praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua vida. Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em avançada edade, no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo funebre teve de percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho. O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabeça descoberta, o corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo a sua untura quotidiana―facil presa―sem temer a troça dos graciosos que, no dia seguinte, alludindo á liquefação do cosmetico, diziam por toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.» Igual a isto só aquella celebre caricatura do Antonio Maria ... « Dá-lhe cuspo... »
Agora o marquez de V. ***
―«Como exemplo não, quero citar senão um dos meus amigos o marquez de V. ***. Vale bem a pena. É uma personalidade, uma celebridade, uma curiosidade de primeira ordem. Em vão lhe procurariam rival na galeria do duque de Saint-Simon, e ainda menos na collecção tão rica de Moliére. Em certas festas de gala ou de representação exterior, o marquez de V. *** julga-se obrigado a seguir as carruagens da côrte na sua equipagem, e é esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade unica do mundo. Imagine-se um coche do seculo passado, envidraçado de modo a ver-se todo o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas de Leviathan , tudo isto pintado de verde, cheio de dourados em alto e baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. *** só, de cabeça descoberta, com o grande uniforme d'uma ordem qualquer, com os olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da libré do seu cocheiro, não voltando a cabeça nunca, nem para a direita nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e não um homem. A carruagem é atrelada a quatro cavallos, montados por dois postilhões e guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em pé. Todo este pessoal vem empoado e veste uma libré verde claro que deslumbra a vista e faz piscar os olhos. Não se póde imaginar nada mais original. Quando a cerimonia
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terminou e a parte official do programma está cumprida, o marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e praças de Lisboa para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas cozidas. Aqui deixam-o em paz― é costume . Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso, arriscaria talvez a minha corôa. É de justiça acrescentar que o marquez de V. é um homem instruido. Que seria, Deus meu, se o não fosse!» Realmente está parecido... O Antonio Maria não o faz melhor...
Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos dá a honra de fallar dos nossos enterros. Dêmos a palavra á princeza: «É realmente coisa curiosa que acompanhando o pae os filhos ao cemiterio, estes não acompanhem os paes: não é costume. Deixa-se este cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porquê? Não m'o poderam explicar: acho porém esquisito.» Está no seu direito. Foi porém mal informada. Os paes tambem não acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho não tem de quê. O facto de em França os parentes mais proximos acompanharem os cadaveres dos seus defunctos não prova nada, senão que até na morte é verdadeiro o dictado:― Cada terra com seu uso... O que é deveras esquisito, é querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes. Para quem se propõe escrever livros de viagem, não póde haver ponto de vista mais ridiculo nem mais acanhado. Continua a auctora:―«Quando uma pessoa morre, a familia não envia cartas de participação. Faz um annuncio nos jornaes, e está tudo prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este cliché : Não se fazem convites especiaes attendendo ao estado de consternação indizivel em que a familia está ... Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de consternação indizivel: entretanto, visto que esta consternação lhe permitte fazer annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno esforço, lhe permittiria tambem enviar cartas de participação impressas a casa de cada um, como se faz nos outros paizes. Resulta com effeito d'este costume que, se não se lerem os jornaes, ou antes os annuncios dos jornaes, póde muito bem acontecer deixar uma pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor amigo.» Foi ainda mal informada sua alteza. É verdade que muitas vezes o annuncio funebre termina por aquelle molho, mas não é menos verdade que rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de participação. Sua alteza não recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de nos ensinar como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza. Quanto a não ter recebido carta alguma de participação desculpe:―hei de mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco. Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de participação. Então que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros serão tudo quanto quizer... mas não são entrudadas... A respeito dos chavões com que é costume fechar annuncios
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funebres faltou-lhe ainda um. É este:― não se fazem convites especiaes por expressa determinação do finado . Foi pena escapar. Que bella pagina humoristica não escrevia a princeza com thema tão divertido!
Mas nem só os enterros tem a honra de espantar sua alteza... O livro está cheio de exemplos do mesmo genero. Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza não chega a contar metade dos seus espantos... Qual metade!―nem a decima, nem a centesima, nem a milesima parte... Porque a verdade é esta:―sua alteza apenas transpoz a fronteira começou a sentir as dôres... do espanto... Exactamente, agora é que eu acertei... começou a sentir as dôres do espanto, e o seu livro, que até hoje ninguem sabia bem o que é, passa agora muito logicamente a ser o feliz parto que a alliviou das citadas dôres, logo que ella se viu em terreno conhecido, que é como quem diria:―logo que a natureza permittiu que o robusto menino visse a clara luz do dia... Espanto! Espanto! sempre espanto! Os portuguezes não dizem «até manhã» dizem «até ámanhã se Deus quizer»â€•espanto: não acompanham seus paes ao cemiterio,―espanto: as varinas carregam-se de oiro,―espanto: vae muita gente aos bastidores de S. Carlos,―espanto: dizemos um copo d'agua e não un verre d'eau ,―espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude differentes de Paris,―espanto: as nossas pulgas mordem,―espanto: o nariz do sr. Minhava é e no r m e , â € • e s p a nt o : pomme de terre , chama-se batatas,―espanto: uma precieuse ridicule é uma tola... espanto! Espanto, espanto, sempre espanto! Porque não escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza? Porque não nos deu, por exemplo, uma pagina n'este genero:―«Uma vez, tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que estava rezando, em voz sufficientemente alta, para que se podesse perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu espanto, ao ouvir estas palavras:― Padre, nosso, que estaes nos céus santificado...  Accreditarão agora que isto quer dizer em portuguez:― Notre père qui étes aux cieux, que votre nom soit, santifié... Como diabo, perdoe-se-me a heresia, quererão os meus bons amigos portuguezes que Nosso Senhor os entenda?» E não seria este por certo o menos notavel dos seus espantos.
Antes de passarmos adiante contemos um disparate que não deixa de ter graça. A paginas, não sei quantas, escrevendo a princeza que nós não fazemos uso de fogões para aquecer as casas, diz pouco mais ou menos o seguinte:―De resto, se fizessem uso d'elles, não se haviam de vêr em pequenos embaraços para arranjar o combustivel, a não ser que deitassem a mobilia ao fogo. A lenha é absolutamente desconhecida em Portugal, e custa cada kilo... tres mil réis!» ―Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha por aquelle preço, devo dizer-lhe duas coisas:―a
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primeira, é que o seu livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... é que foi roubada!
O que é verdade porém é que Lisboa deve um grande serviço á princesa. Nem mais nem menos do que a rusga feita ás casas de jogo nos principios d'este mez. Se duvidam, leiam.
Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma vaga desconfiança, de que a roleta, esse terrivel philloxera das algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de assentar os seus arraiaes―aqui―na patria de Camões, nas bochechas do sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago, incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira. Procurara-a,―oh! se a procurara!―como o nauta procura o norte, como a ave procura o ninho, como a féra o seu covil―mas, apesar de a procurar com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo... nada, nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma! O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca assás cantado 37―e muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca assás cantados, encarregados secretamente de a descobrirem, pozeram em pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a disfarçar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou! Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros, tudo assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma raiva... Mas a scelerada não apparecia! ―E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne com que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o legendario:― E pur si muove! Era para perder a cabeça.
Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O governo civil compra-o, começa a lêl-o e ao chegar a paginas 149, já não diz: «E comtudo ella existe!» no tom de Gallileu, mas, qual outro Archimedés, toilette aparte, solta do fundo do seio um jubiloso Eureka! Ah! é que effectivamente o caso não era para menos. A pagina 149, fallando das batotas, diz a princeza: Ha uma na rua do Alecrim. Uma, rua das Gavias. Uma, praça de Camões. Duas, rua da Emenda. Uma, rua de S. Francisco. Uma, travessa de Santa Justa.
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Tres ou quatro á Ribeira Velha. ―Obrigado meu Deus! exclamou então o governo civil imitando d'esta vez a sr. a Emilia das Neves, obrigado meu Deus!
E aqui está como a policia conseguiu saber onde eram as batotas. Ah! princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem... chefe d'esquadra. E note-se mais, é ella, é ella quem ensina no seu livro como se faz uma rusga. Duvidam? Leiam. «â€•Em Paris a policia tem um serviço especial para este genero de industria prohibida. Os agentes d'este serviço espiam os batoteiros, estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem lá dentro como um raio e prendem todos, levando o dinheiro que está em cima das mesas.» A policia seguiu as instrucções da princeza tanto á risca, que até escolheu uma bella noite, une belle nuit , para fazer a sua rusga! Diz ainda sua alteza:―A mobilia é confiscada... e a policia confiscou a mobilia. Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario!
Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores.
― Camillo Castello Branco , que parece o condemnado aos trabalhos publicos da litteratura portugueza, escreve, escreve, escreve, escreve sempre: superiormente, é questão controversa; enormemente, com certesa. A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel á de uma legião de formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos, com uma preseverança e uma sequencia que intrigam a imaginação. É uma especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico. Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento, um fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. É invariàvel como a chuva e o bom tempo. De fórma, que o primeiro romance que se lê do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cór, volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. É uma galeria de personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de cera. Os seus principaes romances são: Onde está a felicidade , Doze casamentos felizes , O que fazem mulheres , Historia d'um homem rico ; são feitos com este arcabouço em que as vigas, as asnas e os alicerces são invariavelmente os mesmos.»
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«â€• Bulhão Pato . É um peninsular, um sybarita, um camaleão. Como muitos rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta sociedade de Lisboa é um titulo de apresentação. O sr. Bulhão Pato é incontestavelmente um homem d'uma conversação encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que não é poeta quem quer. Assim, creou-se por si só, e por si só, ainda, se julga um grande poeta. O seu poema, a Paquita , é uma imitação dupla do estylo aggressivo de Byron e da finura de Musset, um urso fazendo rendas de Alençon. Escreveu muitos volumes de versos, satiras, novellas, etc., onde se não encontra o reflexo do espirito notavel que tem a fallar. O que escreve não traduz o que diz ( Sa plume ne traduit pas sa langue ). Para acabar este retrato é necessario acrescentar que é impertinente, irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a lamentar-se sem rima nem rasão.» N'uma nota continúa no mesmo tom amavel chamando-lhe o poeta da melena ( poète aux longs cheveux ).
«â€• Ernest Biestero , o grande magro litterario de quem Castilho dizia:â€•É um fructo de inverno, por mais que o expremam não deita nada! O que elle traduziu, apanhou, pilhou, é incalculavel: seriam necessarios volumes só para fazer a sua rapida enumeração. Os seus dramas originaes, Caridade na sombra , Moscovellos , Natureza de alma (?) são uma galeria de manequins sem vida e até sem cordeis. Deve accrescentar-se―segundo a chronica―que os seus dramas são retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os não embelleza! Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da Revista Contemporanea de Portugal e Brazil , que durou cinco annos, onde se acham associadas todas as individualidades do elogio mutuo
«â€• Mendes Leal  (José da Silva) nasceu em Lisboa em 1820. Sem talento e até sem disposições dramaticas escreveu muitos dramas e romances historicos. É o litterato portuguez que fez mais plagiatos, e isto com a maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence á escola do ultra-romantismo, e os Dois renegados , que passam por ser a fina flôr da sua corôa litteraria, são um drama insipido, cheio de punhaes, venenos e ciladas. O seu romance Calabar  é completamente tirado do Bateur d'Estrade , de Paul Duplessis; as suas poesias formam um volume no qual só uma poesia é digna de menção, a Morte de Carlos Alberto . Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa, ministro, e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as mediocridades são muita vez empregadas.»
Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da rinceza? Ahi vae uma amostra.
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Odio velho não cança , o notavel romance de Rebello da Silva, é:― Odio, velho, vraô cauca . O prato de arroz dôce , de Teixeira de Vasconcellos, chama-se:†O Porto de oroz dou . As tempestades sonoras , de Theophilo Braga, são:― As tempos tades sanoras . Moços e velhos , que a princeza erradamente attribue a Ernesto Biester, apparece assim no livro:― Mocosvellos .
Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um capitulo do seu livro. E como a princeza é mulher coherente em todos os actos da sua vida, não quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a mexericos se presta. Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:―«Este theatro não tem praso determinado para as suas representações pela excellente rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os o Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:―«Este theatro não tem praso determinado para as suas representações pela excellente rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros, na situação de um credor importuno para com Mr. de Tayllerand. ―O senhor não me dirá quando me paga o que me deve? dizia o credor. ―Ora sempre é muito curioso, respondeu o principe.» Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa parte entendemos que são profundamente ridiculos todos estes promenores da vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver falsidade no mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, não será de mau gosto trazer questõesinhas de soalheiro para um livro de viagens? Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor Pedro , secundado por duas jovens e formosas mulheres Candida e Lora ? Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e formosas mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. Ha porém uma difficuldade, e desde já nos confessamos incompetentes para a resolver:―Qual será a Lora? Mysterio que só a princeza poderá decifrar.
Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali Lazaro, o pastor ... É possivel. Em todo o caso devemos declarar que essa peça subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi ainda sua alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca.
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No capitulo Theatros  trata muito natural e judiciosamente o assumpto pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e injustos os sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo pateader . Comprehende-se:―ella é que está sensibilisada ao escrever tudo isto, recordando-se do modo porque a plateia dos Recreios recebeu a sua insipida e soporifera comedia. Tenha paciencia . Diz no seu livro que esta phrase se applica a tudo no nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até ás princezas infelizes que são pateadas. Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões são durissimos em todos elles; no Braganza  parecem até cheios de cacos de garrafas... Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que os colchões... as pateadas... Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, rôa. De resto parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso... Chore―a lagrima é livre.
Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a palavra:―«â€•A vida dos bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. É mais burgueza que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são casadas ou vivem maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas excepções tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, não obstante ter pedido informações a toda a gente.»
Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:―Ora diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?―Que Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:―Ora diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?―Que lhe consta da Delfina?―Não se rosna coisa nenhuma d'aquella Joanna Carlota da rua dos Condes? Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de theatro, começou durante a representação, de não sei que peça em D. Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae vêr-se, sempre que apparecia em scena alguma actriz. Entrava por exemplo a sr. a Emilia das Neves, o provinciano voltava-se para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente: ―Esta...? E o sujeito: ―Não sei... Entrava a sr. a Virginia:
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