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O gesto que salva

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Talvez você não tenha se dado conta, mas aconteceu uma inovação que mudou sua vida. Friccionando as mãos com um gel hidroalcoólico, você se protege das doenças.

Esta é a história de um produto revolucionário que nunca foi patenteado, um presente que o professor Didier Pittet e sua equipe dos Hospitais Universitários de Genebra ofereceram à humanidade.

Hoje, tanto aquele que pratica a medicina em plena selva quanto os laboratórios farmacêuticos podem fabricar essa solução que garante mais segurança na assistência à saúde, permitindo salvar milhões de vida.

Acompanhar a aventura médica de Didier Pittet é descobrir que outra humanidade é possível, aquela que nos leva de uma economia da predação a uma economia da paz.

‘‘A OMS teve sorte quando Didier Pittet respondeu ao seu chamado. Numerosas são as lições que podemos tirar da história magnificamente contada neste livro.’’ Dra. Margaret Chan, diretora-geral da OMS

Blogueiro e ensaísta, Thierry Crouzet se interessa pela convergência entre tecnologia, política, e literatura. Ex-jornalista, publicou, entre outros: Le Peuple des connecteurs (O povo dos conectadores), uma reflexão premonitória sobre a sociedade das redes; J’ai débranché (Eu me desliguei), a historia de um burn-out numérico; La Quatrième théorie (A quarta teoria), um tecno-triller de ficção política.


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Thierry Crouzet
O gesto que salva (extrato)
Tradução do francês Regine Ferrandis
O site web do livro
ISBN : 978-2-9193-5832-8 (versão 1.0) (cc-by-nc-nd) L'Âge d'homme, Thierry Crouzet e Régine Ferrandis, 2014.
Faça um gesto
O autor cede seus direitos ao Fundo Clean Hands Save Lives, iniciado por Didier Pittet e acolhido pela Fundação Philanthropia –CleanHandsSaveLives.org. Ao comprar um exempla deste livro, você estará oferecendo a um médico, a uma enfermeira, a um agente de saúde ou a um socorrista dos países desfavorecidos um frasco de solução para a fricção hidroalcoólica das [1] mãos e estará salvando vidas. A editora L’Âge d’Homme apoia essa iniciativa.
Menções legais
Oque salva gesto , versão 1.0 ou posterior, é publicado sob a licença deCreative Commons BY-NC-ND versão 4.0 ou posteriores. A autoria da obra deve continuar a ser atribuída aThierry Crouzettcrouzet.come a Régine Ferrandis pela tradução para o português do Brasil, sem uso comercial e sem modificações. O texto pode ser copiado e distribuído gratuitamente. Quem o obteve gratuitamente e quiser agradecer aThierry Crouzetà equipe editorial, ao mesmo e tempo em que financia aCleanHandsSaveLives.org,pode comprá-lo nas livrarias. Os direitos da fotografia da capa foram cedidos por Jean Baptiste Huynh –jeanbaptistehuynh.com exclusivamente para esta edição.
Prefácio
No século XIX, Semmelweis, Nightingale e Lister, pioneiros da higiene hospitalar, revolucionaram a segurança na assistência à saúde. Esses três visionários jamais poderiam imaginar que no século XXI ainda ocorreriam mortes por infecções associadas aos cuidados médicos. A ideia de que a falta de higiene continuaria a provocar infecções os teria chocado profundamente. No entanto, no mundo todo, todos os dias, pessoas morrem ou adoecem nos hospitais por causa das bactérias transmitidas pelas mãos dos profissionais de saúde. Clean Care is Safer Care – Um cuidado limpo é um cuidado mais seguro – foi o primeiro desafio global para a segurança dos pacientes, lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) após a assembleia geral de 2002 e a adoção da resolução 55.18. A necessidade de melhorar a higienização das mãos era um dos elementos-chave do desafio. “Mãos limpas” tornou-se o objetivo mais visível, uma ideia que conseguiu sensibilizar pacientes e familiares, médicos e diretores de hospitais, ministros da Saúde e jornalistas. Especialistas e cientistas reuniram-se e, com base em fatos demonstrados em vários estudos, estabeleceram as recomendações necessárias à boa prática da higienização das mãos. O desafio da OMS foi, em seguida, adotado em todas as regiões do mundo, com entusiasmo e comprometimento. Essa aventura também trouxe uma inovação: a introdução da solução hidroalcoólica para fricção das mãos, bem mais eficaz do que o sabão e a água. De certo modo, a inovação permitiu superar a falta de lavatórios e, nos hospitais dos países mais pobres, de acesso à água corrente. O sucesso de um programa global implica uma visão prospectiva. Este livro reabilita os valores e as virtudes da higienização que, há muito tempo, Florence Nightingale já defendia com fervor. Comprova que uma mobilização mundial é não apenas possível, mas capaz de engendrar um progresso concreto: salvar vidas e ao mesmo tempo aperfeiçoar a qualidade da assistência à saúde. Mostra também até que ponto um grande líder é capaz de inspirar, mobilizar energias e permitir um avanço significativo e perene. Este livro conta a história de um desses líderes, Didier Pittet, que, em ação comum com a OMS, concretizou seu sonho de salvar vidas graças à higienização das mãos. Mostra como Didier colocou a serviço dos pacientes e dos familiares sua competência, sua experiência, seu rigor científico e sua generosidade, cultivados e desenvolvidos nos Hospitais Universitários de Genebra. Poucos o conhecem ou sequer ouviram seu nome, mas muitos lhe devem sua saúde e sua vida. A OMS teve sorte quando Didier Pittet respondeu ao seu chamado. Estamos gratos por seu engajamento exemplar e pelas relações que ajudou a estabelecer com os sistemas de saúde e as universidades para tornar mais segura a assistência à saúde. Numerosas são as lições que podemos tirar da história magnificamente contada neste livro que merece inúmeros leitores.
Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde
Liam Donaldson, embaixador para a segurança dos pacientes, Organização Mundial da Saúde
Um leito de hospital é um táxi estacionado com o taxímetro rodando.
Groucho Marx
Como um café tivesse anunciado que "quem vinho bebe, mata a febre”, a ideia, já natural n público, de que o álcool evitava doenças infecciosas reforçou-se na opinião geral.
Albert Camus,A peste, 1947
Prólogo
Medida simples, forte impacto
1
Em meados de março 2012, recebo um telefonema inesperado de Genebra: “Encontrei um médico extraordinário”, exalta-se, entusiasmada, minha amiga Geneviève. Sua voz, habitualmente rouca, soa estridente, tomada pela emoção. “Incrível! Você tem que escrever sobre a vida dele. A rainha da Inglaterra lhe deu o título deCommander, mas ninguém o conhece, nem mesmo aqui na Suíça. Ele está na lista dos indicados para o Nobel da Paz. Esse professor de medicina salva milhões de pessoas por ano.” Um mês depois, lá estou eu, sentado à frente de Didier Pittet, um homem na casa dos 50, porte atlético, com ares de Indiana Jones, os olhos dourados ainda impregnados de sol. Ele acaba de chegar do Afeganistão, onde passou dez dias visitando os hospitais do país na qualidade de delegado daOMS[2]. Didier vai me apresentar seus trabalhos, mas em seus pensamentos ainda se encontra sob a luminosidade cáustica da Ásia Central. Então, com uma voz ora grave, ora alegre, ele me conta sua viagem. De jeans, sapatos de caminhada e mochila nas costas, ele arrasta uma enorme mala de rodinhas. Está percorrendo um estreito labirinto de concreto, acompanhado pelo seu amigo, o professor Kurt Wilhem Stahl, médico e bioquímico aposentado que investe toda a sua energia para tratar as feridas daleishmaniose[3], doença muito comum no Afeganistão. Com o sol quase a pino, envoltos por um calor abrasador, Didier e Kurt deixam o Portão 1 da base militar da OTAN no aeroporto de Mazâr-e Charîf, não muito distante da fronteira com o Uzbequistão. Avançam entre duas muralhas cinzentas de mais de quatros metros de altura, arame farpado no topo. Acima, flutua um balão abarrotado de radares. Aviões e helicópteros passam pela fresta visível do céu. De tempos em tempos, uma grade de metal interrompe o concreto e deixa entrever, a três quilômetros de distância, o Portão 2. A mochila e a mala pesam cada vez mais. Mais ainda pesam os olhares dos soldados no alto dos mirantes. Queixar-se está fora de questão. O Afeganistão está em guerra há trinta anos. Didier pensa nos filhos, na família. Mais uma vez os abandonara, aproveitando as férias para percorrer o mundo por sua própria iniciativa. “Então você não vai passar a Páscoa com a gente”, desaprovou Séverine, sua mulher. Ele argumentou que os afegãos precisavam de ajuda. Apesar de suas ausências repetidas já lhe terem custado um primeiro casamento, não sente culpa. Na véspera, quando o transporte de tropas da Luftwaffe fez escala para pernoitar na base militar de Termez, no Uzbequistão, Didier deu de cara com um cartaz da OMS, uma espécie de tira de história em quadrinhos. A imagem fala por si. Duas mãos se esfregam, se cruzam, se cobram. Osdesignersda OTAN trocaram seu logotipo oficial por este, uma maneira de afirmar que tinham se apropriado da mensagem. “Para salvar vidas, lavem as mãos.”
Dessa forma, a ideia difunde-se pouco a pouco no mundo todo. Didier demonstrou cientificamente essa verdade quase ancestral. Agora, é preciso explicar, educar, convencer. A cada dia, no mínimo meio milhão de pessoas são infectadas nos hospitais, das quais de 20 mil a 50 mil falecem[4]. “Trata-se de uma pandemia silenciosa”, resume Didier. Com um gesto tão simples como o de lavar as mãos, esse número pode ser dividido por dois. Em outras palavras, a higienização das mãos permite reduzir a mortalidade pela metade, ou mesmo para um quarto nas regiões em desenvolvimento.
O Afeganistão é o centésimo trigésimo país a aderir à iniciativa da OMS[5] para a higienização das mãos. Didier e Kurt aproximam-se do Portão 2, guardado por militares macedônios e croatas em uniforme de combate. Didier é levado para uma cabine, Kurt para outra. São revistados. As
sacolas são esvaziadas, assim como a mala, abarrotada de cartazes, folhetos e, principalmente, de frascos de solução hidroalcoólica, o gel milagroso concebido por Didier e sua equipe dos HUG (os Hospitais Universitários de Genebra). Esse produto, que descobrimos em 2009 quando da epidemia de gripeH1N1[6], é vendido hoje em todos os lugares. Está nas bolsas, nas cozinhas, nas escolas, nos banheiros, nas mochilas dos viajantes. Algumas gotas, 20 segundos de fricção e adeus vírus e bactérias! Mais rápido e mais eficiente que água e sabão. Trinta minutos depois, Didier e Kurt encontram-se novamente no labirinto abafado, em direção ao Portão 3, controlado pelos afegãos. — Você acha que vão nos revistar de novo? — Não se preocupe – disse Kurt para tranquilizá-lo. — O álcool não vai ser um problema? — Se nossos amigos afegãos estiverem lá, vai dar tudo certo. Didier prefere não pensar em outra eventualidade. Volta-se para o momento da chegada, de manhã. Assim que desembarcou do avião de transporte de tropas, os tímpanos ainda zunindo, foi convidado a visitar o hospital militar, equipado com as mais avançadas tecnologias. Conversou com o pessoal da administração, com as enfermeiras, com os médicos. Interrogou pacientes. Descobriu a radiografia de umahidatidose hepática[7]. Pediram-lhe seu parecer. Ele prometeu uma conferência antes de regressar. Didier gosta de hospitais. Quando era mais jovem, adorava examinar os doentes durante as consultas. Assim como o escultor com o barro, ele literalmente tomava o paciente em suas mãos. Com seus dedos, podia sentir a vida pulsando. Agora, experimenta essa mesma sensação nos hospitais. Visitou tantos estabelecimentos de saúde, estudou tantos sistemas de saúde diferentes que acabou adquirindo um sexto sentido. Os hospitais viraram seus pacientes. Mas entre Didier e o hospital de Mazâr-e Charîf erguem-se, plantados diante de suas guaritas, dois afegãos, cabeças envoltas em um turbante negro, barbas cerradas, dentes encavalados, metralhadora em punho. Esse é o últimocheck point. Adiante, no limite da base militar, amontoam-se caminhões, jipes e toda uma coleção de geringonças sobre rodas. Imperturbáveis sob o sol, os motoristas aguardam na poeira do deserto. Kurt apresenta sua ordem de missão. Outros soldados aparecem. Em um gesto reflexo, Didier mostra a cruz branca sobre fundo vermelho do seu passaporte suíço, símbolo invertido da Cruz Vermelha, estendido como um talismã. — Veja, Faridullah e Ibrahim estão aqui! – alegra-se Kurt ao ver um jipe chegar para apanhá-los.
2
Didier é loquaz. Para encurtar as suas explicações técnicas, usa palavras como “troço, negócio, coisa, etcétera”. É com paixão que elogia o entusiasmo de Kurt. “Fantástico, maravilhoso, extraordinário, genial!” É evidente que ele ama as pessoas. Exalta a coragem de Ismail, o dermatologista, e a do jovem cirurgião Ibrahim, que, por ser principiante, nem recebe salário. Penso em Steve Jobs, cuja biografia acabei de ler. Estou diante de um personagem tão excepcional quanto ele. Didier Pittet não é apenas um cientista da maior importância, reconhecido mundialmente, mas também um comunicador fora do comum. Geneviève disse-me uma vez: “Na Suíça, quando realizamos um filme, otimizamos 100% do orçamento na produção e 0% na promoção. Resultado: ninguém vê o filme”. Didier, ele sim, entendeu que não basta provar a eficácia técnica da higienização das mãos para torná-la um hábito universal e perene. É necessário vender a ideia e permitir que cada um se aproprie dela. Didier me parece ser ao mesmo tempo visionário e político, perfeccionista e pragmático, intransigente e carismático, criativo e líder. Um coquetel de características psicológicasa prior inconciliáveis, que, reunidas, geram personagens extraordinários, certamente extenuantes para quem os cerca. Assim como Jobs, Didier sofre de ortorexia, essa obsessão por comer corretamente, mas também por viver corretamente, levantar-se corretamente, pensar corretamente. Ele é muito “orto” alguma coisa… As semelhanças com o criador da Apple, porém, param por aí. Quando, com sua equipe dos HUG, Didier conseguiu desenvolver a solução hidroalcoólica e o protocolo de uso associado, ele poderia ter patenteado o invento, criado uma empresa próspera, e ter ficado multimilionário. Mas, ao contrário, escolheu partilhar sua descoberta e oferecê-la à humanidade. Desse modo, ele aponta a direção que poderia tomar a economia do século XXI, baseada no dom e na partilha e não na capitalização, uma economia da paz e não da predação.