Ciência e Pesquisa: reflexões sobre a inserção do turismo e do ensino superior frente ao panorama científico

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Resumo
A ciência e seus métodos surgiram em razão que os seres humanos tendem desde a antiguida-de a buscar incondicionalmente a formulação de teorias que expliquem a realidade. Após diversas con-tribuições de pensadores e filósofos, hoje existem métodos científicos nas mais diversas áreas do con-hecimento, na busca da produção e evolução do saber e do pensamento crítico. Desta forma, este artigo visa fomentar a reflexão sobre a importância da ciência e dos métodos de pesquisa e suas relações com o conhecimento do turismo, analisando sobretudo de maneira holística e integrada. Neste contexto, surge e evolui o pensamento inter e multidisciplinar sobre o turismo com expectativas holísticas e problemáticas econômicas, ambientais, políticas, culturais, enfim, em sua relação com toda a sociedade.
Abstract
Science and its methods have been created due to the fact that since the days of old human beings tend to create theories in order to explain the real world. As a result of the work of many thinkers and philosophers there are scientific methods in the various areas of the knowledge nowadays, helping the production and evolution of knowledge and elaborated thinking. In this sense, this article aims to encourage reflection about the importance of science and research methods and their relation with tour-ism knowledge, especially when analyzed in a holistic and integrated way. In this context, tourism inter- and multi-disciplinary thinking take place and evolve with holistic expectations involving economic, environmental, political and cultural problematic relating with society as a whole
Publié le : mardi 1 janvier 2008
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Source : PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural 1695-7121 2008 Volumen 6 Número 1
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Vol. 6 Nº1 págs. 109-116. 2008

www.pasosonline.org


Ciência e Pesquisa: reflexões sobre a inserção do turismo e do ensino
superior frente ao panorama científico

i
Gustavo da Cruz
ii
André Portes Caldini Berberi
iii
Morgana Toaldo Guzela
(Brasil)


Resumo: A ciência e seus métodos surgiram em razão que os seres humanos tendem desde a
antiguidade a buscar incondicionalmente a formulação de teorias que expliquem a realidade. Após
diversas contribuições de pensadores e filósofos, hoje existem métodos científicos nas mais diversas
áreas do conhecimento, na busca da produção e evolução do saber e do pensamento crítico. Desta forma,
este artigo visa fomentar a reflexão sobre a importância da ciência e dos métodos de pesquisa e suas
relações com o conhecimento do turismo, analisando sobretudo de maneira holística e integrada. Neste
contexto, surge e evolui o pensamento inter e multidisciplinar sobre o turismo com expectativas
holísticas e problemáticas econômicas, ambientais, políticas, culturais, enfim, em sua relação com toda a
sociedade.
Palabras clave: Turismo; Ciência; Pesquisa; Ensino Superior; Desenvolvimento.

Abstract: Science and its methods have been created due to the fact that since the days of old human
beings tend to create theories in order to explain the real world. As a result of the work of many thinkers
and philosophers there are scientific methods in the various areas of the knowledge nowadays, helping
the production and evolution of knowledge and elaborated thinking. In this sense, this article aims to
encourage reflection about the importance of science and research methods and their relation with
tourism knowledge, especially when analyzed in a holistic and integrated way. In this context, tourism inter-
and multi-disciplinary thinking take place and evolve with holistic expectations involving economic,
environmental, political and cultural problematic relating with society as a whole

Keywords: Tourism; Science; Research; Superior Education; Development.




i Formado em Administração de Empresas com Especialização em Administração Hoteleira e Marketing Turístico,
Mestre e Doutor em Turismo e Sustentabilidade pela ULPGC - Espanha. Atualmente é professor visitante do
Mestrado em Cultura e Turismo da UESC. E-mail: gusdacruz@hotmail.com
ii Formado em Turismo com Especialização em MBA-Direção Estratégica, Mestre em Desenvolvimento Regional
pela FURB – Brasil. Atualmente é professor do curso de turismo e coordenador do GEU da Unicenp. E-mail:
aberberi@unicenp.edu.br
iii Formanda em Turismo e em Administração de Empresas pelo UnicenP. Atualmente é pesquisadora e membro do
grupo de pesquisa e cooperação internacional Brasil-Espanha. E-mail: morganaguzela@yahoo.com.br
© PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. ISSN 1695-7121 110 Ciência e Pesquisa: ...

Introdução principal deste artigo é de fomentar a re-
flexão sobre a importância da ciência e da
Entre as muitas abordagens conceituais pesquisa científica para a evolução do
cone práticas sobre o turismo existem diversos hecimento na área de turismo, o que
proequívocos e percepções superficiais princi- porciona uma maturidade maior da ciência,
palmente por visões totalitaristas e que e também contribui para a sociedade de
negam a sua relação com o mundo científi- uma maneira geral.
co. Visto como uma atividade prática e que Assim sendo, utilizou-se de análise
bipermeia quase toda a humanidade, sejam bliográfica e discussões a respeito da
impelos destinos turísticos ou pelos seres portância da pesquisa científica no ensino
humanos (turistas), ambos reais ou poten- superior em turismo, e sua inserção e
evociais, o fenômeno vai além de perspectivas lução no panorama brasileiro.
Primeiraque o fazem depender de ciências da admi- mente foi feita uma análise
históriconistração, ciências ambientais, sociais entre conceitual sobre a ciência e sua evolução.
outras. O turismo provoca uma relação Em um segundo momento foi abordada a
ampla e complexa dessas várias ciências pesquisa científica, confrontando o método
que conduziram, ao menos no Brasil, para cartesiano e o método científico utilizado
discussões reflexivas do mundo acadêmico atualmente. Em seguida, foram realizadas
em cursos superiores ao lado de outras áre- algumas reflexões à respeito do turismo e
as das ciências humanas e sociais aplica- suas relações com o ensino superior, a
pesdas. quisa científica, a produção do
conhecimenPercebe-se ainda que a sua relação ime- to e a ciência.
diatista com a prática, sem relevar os im-
pactos e o longo prazo, coloca o turismo em Ciência: conceitos e evolução histórica
uma superficialidade pobre de percepção e
infeliz de resultados para a sociedade em A palavra ciência é proveniente do
Lageral. São paradigmas criados por gestores tim e significa conhecimento, sendo possível
públicos e privados sem o conhecimento defini-la como sendo um “conjunto de
conabrangente e que muitas vezes tornam a hecimentos socialmente adquiridos ou
proatividade tanto benfeitora, em perspectivas duzidos, historicamente acumulados,
dotaquantitativas evasivas, quanto malfeitoras, dos de universalidade e objetividade que
já na abordagem qualitativa percebida na permitem sua transmissão, e estruturados
sociedade, no meio ambiente, na economia e com métodos, teorias e linguagens próprias,
na cultura dos destinos visitados. Percebe- que visam compreender e, orientar a
natuse nisso, a emergência para fortalecer reza e as atividades humanas” (Demo,
vínculos do turismo com o mundo da ciência 2005: 15).
a fim de creditar aos que o estudam, o seu De forma a entender a complexidade e a
conhecimento e a responsabilidade sobre o amplitude da ciência como conhecimento,
futuro da atividade, bem como externalida- bem como sua importância no cotidiano e
des geradas. na evolução humana, é fundamental
destaMuitos são os atores que se relacionam car as afirmações de Álvaro Vieira Pinto:
com a atividade sejam como sujeitos do “A pesquisa científica constitui um tema
processo, sejam como gestores da atividade. a cuja consideração o homem de ciência, em
Na concepção da gestão, há ainda os que à geral, e o pesquisador, em particular, não
ela estão relacionados pela prática profis- podem deixar de se dedicar. (...) A pesquisa
sional e outros pela produção de conheci- científica é um aspecto, na verdade o
momento, pesquisas e análises da atividade e mento culminante, de um processo de
exdo fenômeno. trema amplitude e complexidade pelo qual
O presente artigo contextualiza o turis- o homem realiza sua suprema possibilidade
mo dentro das discussões práticas e concei- existencial, aquela que dá conteúdo à sua
tuais e, assim, busca refletir sobre possibi- essência de animal que conquistou a
raciolidades de considerá-lo como uma ciência, nalidade: a possibilidade de dominar a
naatravés de uma abordagem mais responsá- tureza, transformá-la, adaptá-la às suas
vel e profunda deste. Desta forma o objetivo necessidades. Este processo chama-se
conPASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(1). 2008 ISSN 1695-7121

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hecimento” (Pinto, 1979: 03). Era Medieval (Koyré, 1991).
E, se a ciência, enaltecedora do con- São também nomes que marcaram a
hecimento e racionalidade humana deixa história da humanidade, Francis Bacon,
lacunas aos campos do saber, observa-se à Jean Jacques Rousseau, René Descartes,
importância da utilização de uma metodo- Karl Popper e outros que, à sua medida,
logia. Neste contexto, Margarita Barreto contribuíram para o desenvolvimento das
afirma que a “Ciência” pode ser considera- ciências como hoje são conhecidas. Muitos
da como: inclusive, tiveram a oportunidade de,
“uma abordagem racional e sistematiza- através de viagens, aguçar sua curiosidade
da dos fenômenos observáveis. É um con- e buscar respostas através de seus estudos
junto organizado de conhecimentos funda- e conhecimentos. Em meio à Matemática,
mentados que são obtidos através de méto- Física, Química, Astrologia, Filosofia,
muidos específicos. Difere de outras abordagens tas “Ciências” foram e são desenvolvidas e
dos fenômenos porque procura explicações aperfeiçoadas constantemente por novas
racionais. (...) Para que uma determinada descobertas e comprovações científicas. Isso
produção seja considerada científica deve possibilita que o conhecimento a que se tem
ter, entre outras condicionantes, coerência acesso seja cada vez maior e mais completo
(lógica), consistência (profundidade) e ori- (Koyré, 1991).
ginalidade. (...) Produzir ciência é produzir Observa-se, portanto, que as “Ciências”
novos saberes, novas teorias, e isto só é mais consagradas e aceitas como tal nos
possível através da pesquisa e do estudo” dias atuais, já passaram por um processo
(Barreto apud Gastal e Moesch, 2004: 83). evolutivo de desenvolvimento e
consolidaçAssim sendo, percebe-se que o método ão de teorias. Muitos dos méritos do
concientífico utiliza-se de exatidão, objetivida- hecimento e pensamento crítico que deram
de, e sistematização nas técnicas e proce- fundamento para essas “Ciências” podem
dimentos que vêm a conduzir, através de ser considerados provenientes da pesquisa
regras fixas, a elaboração de conceitos. Tais científica e seus métodos racionais, lógicos
conceitos, por sua vez, geram observações e e imparciais.
instigam a realização de experimentos para
que as hipóteses sejam validadas consisten-
temente. Pesquisa científica
A atividade científica, ao contrário do
que prega o “senso comum”, não tem como Até o início do século XIX, a ciência e a
objetivo básico descobrir verdades ou ser filosofia eram encaradas similares em seus
uma compreensão plena da realidade. A métodos de abordagem. Até então, não
faciência procura estudar a realidade, porém zia sentido aos que conduziam os processos
objetiva fornecer um conhecimento que, ao de formação do conhecimento separar as
menos provisoriamente, facilita a interação teorias científicas das filosóficas. O que hoje
do homem com o mundo, permitindo pre- é considerado ciências, antes, era chamado,
visões confiáveis sobre acontecimentos fu- de um modo geral, de "filosofia da
natureturos e indicando formas de controle para za". Esses estudos procuravam fornecer
que se possa intervir convenientemente uma explicação sobre o mundo que
permisobre esses. tisse apontar as leis que determinavam os
Ao decorrer dos anos, várias foram as eventos naturais, como o movimento dos
descobertas e teses defendidas pelos pensa- corpos celestes, as reações dos elementos
dores. A ciência e a filosofia foram desen- químicos e a origem dos seres vivos
(Mivolvendo-se com a contribuição de várias randa, 2007).
delas. Desde Tales de Mileto, na Grécia René Descartes, nessa época, já
demonsAntiga, passando pelos atenienses Sócrates trava um descontentamento em relação a
e Platão, a chegar ao considerado “Pai da isso através de sua insatisfação com o
ensiCiência”, o filósofo Aristóteles, marcado por no que lhe havia sido ministrado quando
suas características como grande empirista. menino, que, segundo ele, apenas a
MaNa continuidade do processo evolutivo en- temática demonstrava o que afirmava:
contram-se outros personagens onde se "Comprazia-me sobretudo com as
matemádestacou o italiano Tomás de Aquino, na ticas, por causa da certeza e da evidência
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de suas razões" (Descartes, 1996: 11). Per- pesquisadores comprovarem perfeitamente
cebe-se o raciocínio lógico e fragmentado a hipótese, então ela pode ser tomada como
nas percepções práticas e na comprovação uma teoria (Pinto, 1979).
dos fatos como ponto marcante em seus Esses métodos científicos são utilizados
pensamentos. para elaborar e comprovar todos os tipos de
Descartes viaja a procura de novas fon- teorias, cabendo apenas algumas alterações
tes de conhecimento e saber, longe dos liv- em aplicações das regras, conforme
necesros e dos professores de colégio, deparando- sidades ou características especiais. O uso
se com a experiência da vida e a reflexão do método científico agrega vantagens
espessoal. Como, até então, ciência e filosofia pecíficas ao saber por ele produzido, como a
não haviam sido separadas, “as matemáti- produção de um conhecimento prático e
cas” referindo às ciências exatas, eram uma aplicável, que pode ser usado na previsão
exceção, uma vez que ainda não se havia e/ou controle de fenômenos e ocorrências,
experimentado aplicar seu rigoroso método assim como proporciona o uso de expressões
a outros domínios, o que Descartes vem objetivas e detalhadas não só do saber que
tentar mudar e pesquisar. é produzido, mas também da forma como se
Sendo uma característica intrínseca ao chegou até ele, permitindo compartilhar e
ser humano, a curiosidade faz com que se transmitir esse conhecimento.
busque conhecer mais e melhor o meio em Além da confiabilidade do método
cientíque se vive e tudo o que possa a ele se rela- fico, ele proporciona a redução ou
minimicionar. Porém, para que isso se realize de zação dos vários tipos de viés que podem
forma cientificamente aceitável, são ne- surgir na observação e interpretação dos
cessários alguns fatores. Descartes já esbo- diversos fenômenos que se pretende
estuçava em 1637 no “Discurso sobre o Método”, dar; além do fornecimento de suporte
mealgumas premissas quanto à um método todológico e representacional ao
pensamenmuito próximo das ciências exatas que pu- to, permitindo o uso de ferramentas
sóciodesse ser aplicado às demais áreas de inte- culturais e tecnológicas que, por sua vez,
resse e estudo. Foi assim que surgiu o favorecem a transcendência das limitações
método cartesiano. Consistia em quatro individuais do pesquisador em suas
análiregras, a saber: evidência, análise, síntese e ses e sínteses.
desmembramento. Essas características
possibilitaram reconhecimento quando, em Análise do turismo e suas relações com o
séculos posteriores, viram no método a ma- ensino superior
nifestação do livre exame e do racionalismo
além de não tratar de política nem de reli- A realização de viagens, que poderia
gião para convencer (Descartes, 1996). aqui ser considerada como uma atividade
Pode-se afirmar que o método cartesiano de essência empirista, sempre foi comum à
assemelha-se muito com o atual método maioria dos povos do mundo. Tendo como
científico utilizado por pesquisadores e origem ou fator motivacional /
impulsionacientistas das mais diversas áreas do con- dor a própria necessidade humana de
deshecimento. A congruência dos dois métodos locamento, tanto do ponto de vista de
conocorre por apresentarem um conjunto de quistas como guerras e invasões, como
regras básicas para um pesquisador desen- também pelo puro interesse de
entretenivolver uma experiência controlada para o mento, lazer e da curiosidade pelo novo e
desenvolvimento da própria ciência, em inexplorado. Contudo,
busca de respostas e evolução crítica do “pode-se definir como marco para uma
pensamento. modelagem e representação turística mais
No método científico, a hipótese traz organizada, assim como o é para as ciências
inspirações ao processo que deve levar à como um todo, a fase Renascentista, com
elaboração de uma teoria. O pesquisador, seu incentivo à ciência e às artes, que
dena sua hipótese, tem dois objetivos: esclare- sencadearam uma revolução nos hábitos e
cer um fato e antecipar outros acontecimen- no comportamento do europeu mais
abastos que dele podem decorrer. Essa hipótese tado, que em função do seu status passou a
deverá então ser testada em experiências utilizar as viagens como uma forma de
excontroladas e, se os resultados obtidos pelos plorar novos lugares e demonstrar maior
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capacidade econômico-financeira, além de tituem uma verdadeira massa crítica capaz
um maior cabedal de conhecimentos em de pressionar as esferas governamentais
comparação às pessoas que não podiam para o estudo científico do turismo e a
nerealizar as mesmas proezas devido ao baixo cessidade da regulamentação profissional”
poder aquisitivo” (Souza, 2007: 33). (Santos Filhos, 2007).
Mas não seria à ciência feita pela práti- Na atualidade os cursos de turismo, por
ca do turismo, senão o próprio turismo co- todo o Brasil, encontram-se numa fase de
mo ciência que se concentram as discussões definições e tentativa de estabilização. A
mais polêmicas da atualidade e os interes- demanda diminuiu e isso é percebido
ses na presente argumentação. Com o deco- através da análise das salas de aula, de
rrer do tempo a atividade turística começou cursos que não conseguem alunos
suficiena se organizar e desenvolver profissional- tes para abrir turmas, dentre outras
obsermente. As pessoas elevaram seus padrões vações e discussões que têm permeado as
de exigência e também a demanda por pro- polêmicas dos cursos. Uma delas parece ser
dutos, serviços e informações de maneira um reflexo à busca pela sobrevivência de
mais massiva, sem deixar a qualidade e mercado quando cursos que antes duravam
confiabilidade de lado. Pelas necessidades quatro anos passam a ser realizados em
que começaram a se apresentar no merca- apenas três. Como se o conhecimento fosse
do, os profissionais de diversas áreas de um pacote adaptável as regras impostas
atuação como a Administração, Economia, pelo mercado e como se a ciência pudesse
Geografia, Ciências Sociais entre outras sofrer alterações abruptas sem relevar seus
começaram a perceber na atividade turísti- princípios e sua própria evolução.
ca a transformação de um fenômeno em A realidade que parece despontar, no
uma profissão e uma área de conhecimento entanto, está voltada à importância para a
muito vasta e promissora, apesar de recen- qualidade de ensino e estímulo à pesquisa,
temente abordada e pesquisada com afinco debate e promoção do conhecimento nas
científico. universidades que vem se destacando.
O turismo como estudo e profissão é Assim, percebe-se que o sistema de
enuma atividade que pode ser considerada sino nacional, conduzido pelo MEC
(Mirelativamente recente no Brasil. Foi na nistério da Educação e Cultura), permitiu
década de 1970 que o turismo foi inserido pressões de instituições de ensino que não
no Ensino Superior quando em 1971, na perceberam o turismo em seus princípios
antiga Faculdade do Morumbi (hoje Uni- científicos e em uma análise de longo prazo.
versidade Anhembi-Morumbi), em São Pau- Essas observaram uma oportunidade de
lo surge o primeiro curso de graduação em mercado que, posteriormente, retrocedeu
turismo. drasticamente com a diminuição expressiva
Nos anos que se seguiram, a demanda na procura por cursos de turismo. A evasão
pelos cursos de turismo oscilou conforme os de demanda para outras áreas pode ser
panoramas sociais, políticos e econômicos atribuída, em grande medida, ao modismo
do país. Após ter passado por um período de pelo estudo do turismo e pelos desencantos,
descoberta da área de atuação e conheci- quando se percebe não resumir, o estudo do
mento, houve uma estagnação pelo pano- turismo, aos que buscam viajar ou que
prorama de instabilidade vivido no país na curam apenas atuar no setor.
década de 1980. A grande expansão e visi- Tais características parecem lançar uma
bilidade dos cursos de turismo ocorreu em luz de oportunidades à relevância científica
meio à expansão econômica, investimentos da atividade. Em outros termos,
compreene incentivo da década de 90 (Matias, 2002). de-se que, se descartada a panacéia de
esObserva-se também que: tudar turismo por confusões ao puro prazer
“Hoje o curso de turismo, desponta no de viajar ou pela oportunidade de atuação
cenário educacional como uma das gra- técnica, o turismo poderá passar à uma
duações mais promissoras e disputadas nos forma consistente de produção científica e
vestibulares. Com uma mão de obra já for- instrumento para o desenvolvimento
susmada de 8.000 mil turismólogos em tentável de regiões.
aproximadamente 400 cursos (dados de Por outro lado, há de se considerar que a
maio de 2000) espalhados pelo Brasil, cons- o turismo não possui um método científico
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próprio, o que causa polêmicas por visões transportes, espetáculos, guias-interprétes
divergentes quanto à sua cientificidade. No que o núcleo deve habilitar, para atender às
entanto os estudos realizados na área de correntes (...). Turismo é o conjunto das
turismo utilizam-se do caráter inter, multi organizações privadas ou públicas que
sure transdisciplinar dessa área de conheci- gem, para fomentar a infra-estrutura e a
mento, graças à sua ampla abrangência, o expansão do núcleo, as campanhas de
proque possibilita a realização de pesquisas paganda (...). Também são os efeitos
negacientíficas com respaldo e confiabilidade tivos ou positivos que se produzem nas
podignas de uma ciência como a matemática. pulações receptoras” (Fuster apud Moesh,
Segundo análise da pesquisa realizada 2002: 11)
por Matias (2002), com o auxílio de outras Com isso, percebe-se a abrangência
desciências interligadas, as áreas que compre- te fenômeno, bem como, conseqüentemente
endem a atividade e o estudo do turismo a amplitude de conhecimentos a serem
pesaproximam-se cada vez mais do científico. quisados, avaliados e transformados em
Desta forma, fazer ciência no turismo, como ciência. O campo para se trabalhar com
em toda ciência “é um processo complexo, pesquisas e estudos direcionados é muito
demorado e de difícil execução, porém o seu vasto, uma vez que o fenômeno turístico
uso é justificado pelos benefícios que traz engloba quase todas as pessoas de uma
em termos de praticidade, transmissibili- sociedade, direta ou indiretamente. Nessa
dade, verificabilidade, solidez e alcance” abordagem holística é de fundamental
im(Miranda, 2007). portância investir em pesquisas que
posO fenômeno turístico é, contudo, interes- sam trazer frutos para a sociedade como
santemente complexo, o que proporciona um todo.
seu caráter inter, multi e transdisciplinar. Assim como as demais ciências que já
tiIsso fica claro na leitura de alguns frag- veram sua trajetória de maturação e aceite
mentos de Marutschka Moesh sobre o tu- perante a sociedade, o turismo tende a
pasrismo: sar por um processo evolutivo de
amadure“O turismo é uma combinação complexa cimento científico. No início as pesquisas
de inter-relacionamentos entre produção e sobre o turismo eram realizadas por outras
serviços, em cuja composição integram-se áreas do saber, como a geografia, a
econouma prática social com base cultural, com mia, administração entre outras, que
utiliherança histórica, a um meio ambiente zavam a atividade como umas das suas
diverso, cartografia natural, relações so- vertentes de estudo. Esse processo de
evociais de hospitalidade, troca de informações lução do conhecimento e do pensamento
interculturais. O somatório desta dinâmica crítico na área de turismo, porém, só teve
sociocultural gera um fenômeno, recheado início, no Brasil, com as pesquisas
científide objetividade/subjetividade, consumido cas que começaram a ser realizadas em
por milhões de pessoas, como síntese: o meados de 1975. Nessa época a produção de
produto turístico” (Moesh, 2002: 09). dissertações, teses e trabalhos de conclusão
Arriscaria-se a afirmação de que nos dos cursos iniciavam o desenvolvimento de
aproximamos da ciência moderna sem as pesquisas que tinham o turismo realmente
contumazes crises de percepção fragmenta- como tema central de estudo (Rejowski,
das em pensamentos cartesianos que foram 1996).
de extrema contribuição no passado, mas Pode-se afirmar então, que a produção
que não permitiram a evolução de percepç- científica brasileira no turismo é muito
ão humana em uma visão integrada. Uma recente, visto que ainda há poucas
instivisão que permite ver resultados como pro- tuições de ensino que têm se dedicado a
cessos e não como pontos a serem remedia- proporcionar uma iniciação científica de
dos isoladamente. Marutschka Moesh afir- qualidade, a partir da graduação. O
turisma ainda que: mo ainda é visto por muitos, apenas como
“Turismo é, de um lado, conjunto de tu- uma oportunidade econômica ou como
atiristas; do outro, os fenômenos e as relações vidade que traz respostas imediatistas a
que esta massa produz em conseqüência de problemas sociais das regiões que buscam
suas viagens. Turismo é todo o equipamen- explorá-lo, no sentido próprio da palavra.
to receptivo de hotéis, agências de viagem, Segundo Marutschka Moesch:
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“A produção do saber turístico de modo de o futuro turismólogo entender, nos
digeral, e de modo específico no Brasil, tem se versos âmbitos, e por meio de vários pontos
constituído num conjunto de iniciativas, de vista, o fenômeno turístico. Dessa forma,
prioritariamente do setor priva- ele pode conhecer a realidade da região
do/empresarial e menos da academia, sejam onde está inserido, propor soluções a
proelas universidades e/ou faculdades, públi- blemáticas detectadas, exercitar o senso
cas ou privadas. O saber turístico assim crítico, formulando seus próprios textos e
produzido é reduzido às informações e sis- debatendo-os com os já existentes.
temáticas sobre seu setor produtivo” (Mo- Esse exercício da pesquisa que deve (ou
esh, 2002: 13). deveria) ser iniciado ainda no começo do
Diante deste contexto, é de vital im- processo da graduação pode auxiliar não só
portância lançar um olhar crítico ao turis- o estudante a tirar maior proveito de seu
mo de forma a antecipar medidas irres- curso, mas aumentar seus conhecimentos
ponsáveis e tecnicistas em seu desenvolvi- do turismo como um todo tornando-se um
mento. Busca-se uma responsabilidade que profissional melhor preparado, uma vez que
parece ser intrínseca à ciência quando al- é por meio de estudos e pesquisas que a
gumas de suas características são a anteci- sociedade avança. Margarita Barreto faz
pação dos fatos e imparcialidade na obser- uma boa reflexão sobre isso quando conclui
vação destes. seu capítulo “Produção Científica na área
Considerando igualmente, que se trata do Turismo” no livro “Um outro turismo é
do setor da economia que tem representado possível”, fruto das análises e discussões
maior crescimento em nível mundial, e que realizadas no IV Congresso Internacional
possui expectativa e tendência de cresci- de Turismo Rede Mercocidades, em 2002,
mento comprovados, é imprescindível tra- em Porto Alegre, fazendo a relação desse
balhar esta questão sob o ponto de vista da ‘outro turismo’ com a produção científica:
reflexão e produção científicas. No entanto, “Falta produção científica capaz de
pronão é o que demonstram os eventos e as duzir novas teorias, para auxiliar na
apliobras que, por vezes, abordam o assunto de cação de melhores técnicas, mas,
fundamaneira superficial, com mais técnicas mentalmente, para criar novos paradigmas.
sobre os processos de como fazer, do que Para aspirarmos a um novo modelo de
tureflexões interdisciplinares e resultados rismo, precisamos de novos paradigmas,
comprovados por métodos científicos de referidos ao próprio turismo e à sociedade
análise. Tratando disso, Mirian Rejowski mais ampla” (Barreto apud Gastal e Moesh,
traz em sua obra, que: 2004: 87)
“A carência de pesquisas científicas e o Contudo, o turismo, por ser uma
ativireduzido número de pesquisadores, aliados dade comum a quase todos, passa por
disa uma falta de estímulos ao desenvolvimen- cussões desde o senso comum até o mais
to do conhecimento do fato e do fenômeno profundo senso crítico. E é à esse segundo
do turismo nesse País, tem levado a uma ponto de vista que se dirigem as reflexões e
improvisada ação do setor, com seus evi- análises, para que, a partir de uma
produçdentes reflexos e conseqüências de absoluta ão científica contundente, possam ser
apliausência de informações concretas que pos- cadas estratégias mais acertadas na gestão
sam sensibilizar o poder público, sobretudo do turismo, seja na formação de pessoas ou
aqueles responsáveis pelo desenvolvimento ainda no mercado do turismo.
do turismo. Adiciona-se a isto uma ina-
ceitável indiferença da Universidade aos Conclusão
trabalhos de Pesquisa” (Rejowski, 1996:
60). Observa-se que as pesquisas no turismo
A pesquisa é o processo pelo qual o estu- vão além das fronteiras econômicas e
atindante supera a reprodução e a cópia de gem as questões sociais, culturais,
ambienidéias. Ela é a ferramenta pela qual o senso tais e políticas. Desta forma, analisar
ascrítico é desenvolvido. Assim, o indivíduo pectos relacionados à qualidade de vida das
aprende a criar e pode se tornar um profis- pessoas, identificar medidas que possam
sional com capacidade multi e transdisci- melhorar o relacionamento, bem como os
plinar. A pesquisa é, contudo, uma forma impactos e influências causadas entre o
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turista e a comunidade local e descobrir as derá-lo como uma ciência, enfatizando uma
mais diversas realidades tornam-se de vital abordagem mais responsável e profunda do
importância para a atividade turística. estudo de um fenômeno que atinge a
É através de características como a humanidade em geral.
flexibilidade, a atualização constante, no-
vas áreas de conhecimento, novas necessi- Referências
dades e tendências que podemos chegar a
soluções criativas e inovadoras e para isso Demo, Pedro.
utilizarmo-nos da “Ciência Turística”. As- 2005 Metodologia da Investigação em
Edusim sendo, no Turismo, existem oportuni- cação. São Paulo: IBPEX.
dades e demanda suficiente para todos que Descartes, René.
buscam pesquisar, analisar, criar e atuali- 1996 Discurso sobre o Método. São Paulo:
zar essa área do conhecimento. Contudo, é Martins Fontes.
primordial elevar a qualidade dos estudos e Gastal, Susana e Moesh, Marutschka.
pesquisas na área. Assim, compreender-se- 2004 Um outro turismo é possível. São
Pauía o turismo além da perspectiva econômica lo: Contexto.
e de resultados imediatistas, quando se Koyré, Alexandre.
daria mais importância ao lado sócio- 1991 Estudos de história do pensamento
cultural e ambiental, transcendendo para científico. Rio de Janeiro: Forense
Uniuma esfera mais responsável em longo pra- versitária.
zo. Entende-se que estes seriam caminhos Matias, Marlene.
que levariam ao avanço nos conhecimentos 2002 Turismo: Formação e
Profissionalicientíficos do Turismo. zação. São Paulo: Manole.
Entre as várias abordagens sobre o Miranda, Simão.
fenômeno turístico, ainda se percebem 2007 Metodologia Científica: os caminhos
equívocos conceituais e em princípios filosó- do saber. Disponível
ficos da atividade. Resta à academia, prin- <http://www.simaodemiranda.com.br/fil
cipalmente pela formação superior, investir es/PesquisaeMetodo.doc> Acessado em:
em seu papel de reflexão, pesquisa e pro- 12 mar.
dução científica consistente. Entende-se Moesch, Marutschka.
que assim, o posicionamento levará ao res- 2002 A produção do Saber Turístico. São
peito à importância por encarar a atividade Paulo: Contexto.
com o devido respeito na sua complexidade. Pinto, Álvaro Vieira.
E, nas abordagens simplistas que negam as 1979 Ciência e existência: problemas
filosódiversas ciências que o relacionam, restaria ficos da pesquisa científica. Rio de
Jaa crítica e a orientação para retroceder e neiro: Paz e Terra.
evitar equívocos constantes em sua aborda- Rejowski, Mirian.
gem que, por princípios limitados de per- 1996 Turismo e Pesquisa Científica:
Pencepção, são muitas vezes denominadas samento Internacional x Situação
Brasiapenas como gestão da atividade. leira. São Paulo: Papirus.
Contudo através das análises realizadas Santos Filho, João.
foi possível atingir o objetivo a que se havia 2007 Turismo: Ciência ou Técnica?
Disproposto no inicio desse estudo, fomentando ponível em
<http://revistaturismo.cidaa reflexão sobre a importância da ciência e deinternet.com.br/artigos/ciencia>
Acesda pesquisa científica para a evolução do sado em: 13 mar.
conhecimento na área de turismo. Foi Souza, Werner.
possível analisar a inserção deste conheci- 2007 Breve História do Turismo. Disponível
mento no ensino superior e a evolução dos em
<http://www.lunaeamigos.com.br/cursos, demonstrando o início de uma mai- meioambiente> Acessado em: 12 mar.
or maturidade dessa ciência, e também
algumas das contribuições que seu estudo Recibido: 13 de junio de 2007
pode gerar para a sociedade de forma geral. Reenviado: 18 de noviembre de 2007
O artigo também abrangeu o turismo de- Aceptado: 20 de diciembre de 2007
ntro de suas vertentes práticas e concei- Sometido a evaluación por pares anónimos
tuais e, analisou possibilidades de consi-
PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(1). 2008 ISSN 1695-7121

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