Enoturismo em Portugal: as Rotas de Vinho

De
Publié par

Resumo
Criadas em 1993 e apoiadas pelo programa Dyonisios da União Europeia, as rotas do vinho têm sido a face mais visível da prática do enoturismo em Portugal. Na falta de regulamentação específi-ca, estas rotas temáticas tem dependido da iniciativas dos próprios aderentes, através da formação de Associações de Aderentes, de entidades reguladoras vitivinícolas, como as Comissões de Viticultura Regionais, ou ainda de organismos ligados ao turismo, como as Regiões de Turismo. O artigo tem por objectivo analisar os fundamentos para o enoturismo em Portugal e a sua estruturação em torno das rotas do vinho. Analisa-se a socioeconomia da vinha e do vinho, procede-se ao levantamento das rotas exis-tentes e Identificam-se as potencialidades e limitações desta prática turística em Portugal.
Abstract
Since 1993, as supported by the Dyonisios program of the European Union, the wine routes have been the most visible face of the wine tourism practice in Portugal. Since these thematic routes have no specific rules, they usually depend on the initiative of the promoters, namely through the crea-tion of adherent/promoters associations or other institutions, like the Regional Viticulture Commissions, and Tourism Regions. This article aims at analysing the basis for the development of wine tourism in Portugal and its structure around wine routes. The socioeconomics traits of both the vineyards and wine, are analysed. The existing routes in Portugal are presented and their strengths and limitations are identi-fied.
Publié le : mardi 1 janvier 2008
Lecture(s) : 101
Source : PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural 1695-7121 2008 Volumen 6 Número 2
Nombre de pages : 11
Voir plus Voir moins
Cette publication est accessible gratuitement



Vol. 6 Nº 2 págs. 269-279. 2008
Special Issue – Número Especial

www.pasosonline.org


Enoturismo em Portugal: as Rotas de Vinho

iOrlando Simões
Instituto Politécnico de Coimbra (Portugal)


Resumo: Criadas em 1993 e apoiadas pelo programa Dyonisios da União Europeia, as rotas do vinho
têm sido a face mais visível da prática do enoturismo em Portugal. Na falta de regulamentação específi-
ca, estas rotas temáticas tem dependido da iniciativas dos próprios aderentes, através da formação de
Associações de Aderentes, de entidades reguladoras vitivinícolas, como as Comissões de Viticultura
Regionais, ou ainda de organismos ligados ao turismo, como as Regiões de Turismo. O artigo tem por
objectivo analisar os fundamentos para o enoturismo em Portugal e a sua estruturação em torno das rotas
do vinho. Analisa-se a socioeconomia da vinha e do vinho, procede-se ao levantamento das rotas exis-
tentes e Identificam-se as potencialidades e limitações desta prática turística em Portugal.

Palavras-chave: Vinho; Vinha; Enoturismo; Rotas do vino; Socioeconomia


Abstract: Since 1993, as supported by the Dyonisios program of the European Union, the wine routes
have been the most visible face of the wine tourism practice in Portugal. Since these thematic routes
have no specific rules, they usually depend on the initiative of the promoters, namely through the crea-
tion of adherent/promoters associations or other institutions, like the Regional Viticulture Commissions,
and Tourism Regions. This article aims at analysing the basis for the development of wine tourism in
Portugal and its structure around wine routes. The socioeconomics traits of both the vineyards and wine,
are analysed. The existing routes in Portugal are presented and their strengths and limitations are identi-
fied.

Keywords: Wine; Vineyards; Wine tourism; Wine routes; Socioeconomics




i Orlando Simões é Eng. Agrónomo, Mestre em Economia e Doutor em Ciências Agrárias pela Universi-
dade Técnica de Lisboa. É Professor na Escola Superior Agrária de Coimbra. CERNAS - Centro de Estu-
dos de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade. Escola Superior Agrária, Instituto Politécnico de
Coimbra, Portugal. E-mail: orlando@esac.pt
© PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. ISSN 1695-7121 270 Enoturismo em Portugal ...

Introdução com outras actividades complementares,
nomeadamente no sector do turismo. O
A vitivinicultura é um dos sectores mais enoturismo é visto aqui como o conjunto de
dinâmicos da agricultura portuguesa, sendo actividades associadas à visita a empresas
também um dos que melhor se adaptou à vitivinícolas, visita a museus e outros esta-
concorrência comunitária, em resultado da belecimentos ligados ao sector, participação
adesão de Portugal às Comunidades Euro- em eventos ou centros de interesses viti-
peias. No contexto da União Europeia, Por- vinícola, tendo como objectivo principal e
tugal é o quinto maior produtor de vinho, mais frequente o conhecimento e a prova
com valores médios próximos dos da Ale- dos vinhos das regiões visitadas. Trata-se
manha e a uma distância considerável dos de uma conceitualização pelo lado da pro-
maiores produtores e exportadores mun- cura, que pressupões o contacto directo do
diais, Itália, França e Espanha. No consu- turista com as actividades vitivinícolas,
mo, porém, o nosso país pertence ao grupo com os produtos resultantes dessas activi-
dos maiores consumidores, com valores dades e com todo o património paisagístico
muito próximos dos da França e Itália. e arquitectónico relacionados com a cultura
No comércio internacional, os vinhos da vinha e a produção de vinho.
portugueses ocupam também um papel de Pelo lado da oferta, o enoturismo apre-
destaque, quer em termos europeus quer senta-se organizado e estruturado sobretu-
mundiais. Portugal está situado num grupo do em torno de rotas do vinho. Estas são,
de países com quotas de mercado que va- assim, um produto turístico constituído por
riam entre os 3% e 5%, formado pelos Esta- percursos sinalizados e publicitados, orga-
dos Unidos, Austrália, Chile, Alemanha e nizados em rede, envolvendo explorações
Portugal. Todavia, o grau de internaciona- agrícolas e outros estabelecimento abertos
lização da nossa vinicultura é assinalável, ao público, através dos quais os territórios
sendo a relação exportação/produção uma agrícolas e as suas produções podem ser
das mais elevadas do mundo, juntamente divulgados e comercializados, estruturan-
com o Chile. do-se sob a forma de oferta turística.
Ao nível interno, tem-se mantido uma Neste quadro, o presente artigo preten-
clara preferência dos consumidores portu- de mostrar as características básicas do
gueses pelos vinhos nacionais, ao mesmo sector vitivinícola português susceptíveis de
tempo que tem aumentado a procura de serem aproveitadas para a prática do tu-
produtos de melhor qualidade percebida e rismo enológico, bem como relevar a im-
com maior valor acrescentado incorporado portância das rotas do vinho como forma de
(Simões, 1998: 377-393). Este facto tem estruturar a oferta. O trabalho desenvolve-
contribuído para um conjunto de alterações se ao longo de quatro pontos, sendo que nos
estruturais que se têm verificado ao nível dois primeiros é analisada a sócioeconomia
da produção, bem como o aparecimento de da vinha e a sua relação com o turismo
actividades complementares como o enotu- enológico, enquanto nos dois seguintes são
rismo. Depois da integração comunitária, analisadas mais em detalhe as práticas
Portugal enveredou por uma política de turísticas ligadas à vinha e ao vinho, em
qualidade na produção de vinho, reorgani- particular no que se refere ao turismo em
zando institucionalmente o sector, criando espaço rural (TER) e, em particular, às
novas denominações de origem e apoiando rotas do vinho.
massivamente os investimentos na produç-
ão de vinhos de qualidade. Por exemplo, à A sócioeconomia da vinha em Portugal e o
data da adesão comunitária, existiam em turismo enológico
Portugal 11 denominações de origem, 8
desde o início do século XX e 3 desde o iní- Desde muito cedo inserido nos circui-
cio dos anos 80, existindo hoje 33 denomi- tos comerciais, o vinho sempre desempe-
nações (sobre o assunto, ver Simões, 1994). nhou um papel fundamental na relação
Em resultado desta vitalidade interna e das explorações agrícolas com o mercado.
externa do sector vitivinícola cresceu O autoconsumo, outrora muito importan-
também a articulação da vinha e do vinho te na economia agrícola familiar, deixou
PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo

Orlando Simões 271

de ter importância nas últimas décadas, fenómeno relativamente recente, e está já
passando a ser comercializada a maior ligado ao processo de reconversão da vinha
parte da produção de vinho. nesta região.
Considerando as categorias conceptuais Nos últimos anos, a agricultura familiar
definidas em Baptista (1993 e 1993a), po- tem aumentado de importância relativa.
demos conjecturar acerca da importância Com a diminuição da mão-de-obra disponí-
relativa dos principais grupos de agriculto- vel, as possibilidades das novas tecnologias
res que estiveram na base dos movimentos e, sobretudo, com a mecanização, as explo-
inovadores da viticultura portuguesa nas rações patronais de menor dimensão torna-
últimas décadas. De facto, foram precisa- ram-se empresas familiares, enquanto que,
mente estes grupos mais inovadores que, as que já o eram, passaram a depender
por isso mesmo, estiveram na base do de- ainda menos dos assalariados. Mas as si-
senvolvimento do enoturismo em Portugal. tuações são tão diversas que é usual falar-
Na grande propriedade associada às se em agriculturas familiares. Baptista
mais importantes regiões vitícolas nacio- (1993a: 33-53) distingue três funções prin-
nais, sejam os grandes patrimónios fundiá- cipais desempenhadas por estas agricultu-
rios do Norte, sejam as casas agrícolas do ras: funções de produção, função trabalho e
Ribatejo e Oeste, a vinha ocupou sempre função social. A agricultura desempenha
um lugar de destaque na produção agrícola, funções de produção quando o rendimento
sobretudo na sua relação com o mercado familiar provém exclusiva, ou principal-
(Figura 1). Num e noutro caso, prevaleceu mente, da exploração agrícola; tem função
uma longa tradição na cultura da vinha e trabalho quando a maior parte do rendi-
fabricação do vinho. São geralmente pa- mento familiar provém do trabalho que os
trimónios resultantes de antigas casas sen- membros do agregado exercem fora da ex-
horiais, que ajudaram a manter, através ploração; tem função social quando a manu-
dos séculos, a dicotomia entre vinhos no- tenção das explorações, onde a família tra-
bres e vinhos comuns. balha em exclusividade, se deve ao apoio
social por parte do Estado, sobretudo
Figura 1: Principais ligações estruturais da fileira vitivinícola.

Hoje em dia, essa imagem nobiliária é através de pensões de reforma.
aproveitada no marketing dos respectivos A definição e evolução dos grupos sociais
vinhos, em designações comerciais, rotula- referidos têm estado muito relacionada com
gem, etc. Ao contrário, a ligação da grande a dinâmica da viticultura portuguesa. Co-
propriedade aos vinhos alentejanos é um mo actividade geradora de bens há muito

PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo


272 Enoturismo em Portugal ...

inseridos nos grandes fluxos comerciais, ela de qualidade de gama baixa existentes no
tem tido um papel preponderante na relaç- país.
ão das explorações agrícolas com o merca- Relativamente às agriculturas familia-
do, sejam elas do tipo familiar ou capitalis- res, apenas as unidades com a função pro-
ta. Em muitas explorações, sobretudo nas dução estão em condições de proceder a
principais regiões vitícolas e fora das gran- investimentos na vinha ou em actividades
des bacias leiteiras, o vinho constitui o complementares. Estes “agricultores profis-
principal produto, por vezes o único, comer- sionais” estão muito dependentes da per-
cializado pelas unidades produtivas. formance alcançada pelas adegas coopera-
Nos últimos vinte anos verificaram-se tivas, onde normalmente fazem a entrega
alguns movimentos interessantes nos gru- das uvas, com excepção da região dos Vin-
pos sociais identificados. Para além do re- hos Verdes, onde o maior peso da transfor-
forço das empresas do tipo capitalista já mação cabe à indústria privada.
existentes, sobretudo no Douro e no Ribate- Quanto às restantes agriculturas, com
jo e Oeste, verificou-se a penetração na funções trabalho e social, encontram-se
área da produção de muitas empresas liga- praticamente arredadas do processo de
das à indústria vinícola, tomando posição reconversão vitícola. Muitas vezes possui-
nas principais denominações de origem do dores de parcelas com áreas não elegíveis
país. Esta penetração verificou-se através para os apoios comunitários (mínimo de 0,5
da transferência de propriedade, trans- ha de vinha contínua no caso da reestrutu-
ferência de novos direitos de plantação e ração individual), estes agricultores limi-
pela legalização de plantações anteriormen- tam-se a manter a vinha existente, enquan-
te efectuadas. Pelo mesmo processo, e so- to a sua saúde ou a vitalidade das vinhas o
bretudo nas denominações de origem mais permite.
afamadas, fizeram entrada no sector, mui- Em síntese, os agentes económicos que
tos novos produtores oriundos de outras mais contribuíram para a melhoria e diver-
actividades económicas. Atraídos pela ren- sificação da vitivinicultura nas duas últi-
dibilidade da cultura quando vocacionada mas décadas foram os armazenistas e os
para a produção de qualidade e integrada vitivinicultores-engarrafadores. Os primei-
em actividades a jusante, e ainda pelo ros através da penetração a montante das
prestígio social associado à tradição cultu- firmas ligadas à indústria do vinho; os se-
ral ligada à vinha e ao vinho, muitos qua- gundos pelo aparecimento de novos produ-
dros e empresários de diversas actividades tores e pela reconversão dos patrimónios
económicas investiram nos últimos anos na fundiários e casas agrícolas. E foram preci-
agricultura, adquirindo quintas e estabele- samente estes actores que estiveram na
cendo novas plantações de vinha, muitas base da diversificação das actividades liga-
vezes integrando estruturas de transfor- das à vinha e ao vinho, nomeadamente na
mação, constituindo-se como vitiviniculto- criação de actividades ligadas ao turismo.
res-engarrafadores. Estes novos empresá-
rios vieram competir, em termos de produto As ligações culturais da vinha e do vinho
final, com uma parte significativa dos anti-
gos patrimónios fundiários das regiões de- A dimensão económica não esgota a im-
marcadas tradicionais (nos Vinhos Verdes, portância da vinha e do vinho. Como activi-
Douro e Dão) e com algumas das casas dade exigente em mão-de-obra e tradicio-
agrícolas das novas regiões demarcadas no nalmente ligada a solos de fraca aptidão
Ribatejo e Oeste, constituindo-se, no seu agrícola, ela contribuiu para a humanizaç-
conjunto, como uma das principais forças ão de vastas regiões. Por idênticas razões,
inovadoras dos últimos anos. As empresas foi possível manter a ligação à terra de ge-
capitalistas que não enveredaram pelo en- rações sucessivas, seja através dos que nela
garrafamentos dos seus vinhos, maioritá- directamente trabalham, seja através dos
rias no Ribatejo e Oeste devido à menor que dela apenas retiram rendimentos mas
aptidão qualitativa, privilegiam hoje a li- de cuja relação raramente prescindem. Por
gação à indústria, sendo os principais for- outro lado, a modulação da paisagem, im-
necedores, juntamente com as adegas co- perativo produtivo de outros tempos, é hoje
operativas, dos vinhos de mesa e dos vinhos susceptível de múltiplas possibilidades de
PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo

Orlando Simões 273

aproveitamento, em ligação com as activi- em torno das tabernas e das adegas parti-
dades humanas aí desenvolvidas. culares perderam-se há muito. Todavia,
Se a terra, o clima e a técnica diferen- ainda há os que não dispensam a feitura do
ciam os vinhos, o mercado diferencia o con- vinho para consumo da casa e, na sua falta,
sumo. O vinho sempre foi um instrumento resta sempre o recurso à adega cooperativa
poderoso de diferenciação social. Outrora, onde os sócios têm conta corrente. As festas
como hoje, a diferentes condições sociais de de vindimas são outra oportunidade de
produção estiveram sempre associados dife- ligação dos locais aos forâneos. Dependendo
rentes padrões de consumo. Por outro lado, da sua dimensão, aliam-se frequentemente
a característica de bebida natural capaz de nestas festas manifestações de carácter
transformar o estado normal de consciên- profissional, onde são divulgadas as novi-
cia, acrescida da apropriação simbólica que dades tecnológicas, com outras manifesta-
dela fez o ritual cristão, coloca o vinho nu- mente lúdicas e de convívio.
ma dimensão imaterial, única entre as O aproveitamento da ligação do vinho à
mercadorias produzidas. E é com base nes- gastronomia e a outras formas do patrimó-
ta dimensão que se tem desenvolvido ao nio cultural regional é feito sobretudo
longo do tempo a ligação do vinho à arte e à através do turismo, ou seja, por via de ma-
cultura dos povos da bacia mediterrânea. nifestações voltadas sobretudo para os
De facto, a vinha e o vinho estão presentes forâneos. De facto, de tanto as verem, aos
em praticamente todos os tipos de manifes- locais já pouco dizem as lagaretas escava-
tações culturais destes povos. Basta ler o das na rocha dispersas às dezenas pelo
índice de um dos muitos livros de informaç- norte do país (Loureiro, 1994). O mesmo
ão geral sobre o tema (por exemplo, Ama- sucede com a arquitectura do vinho, como
ral, 1995), para darmos conta da sua ligaç- adegas, destilarias, armazéns, caves, etc.
ão às lendas e à mitologia, à história e às (Nogueira, 1994); a iconografia da vinha e
religiões, à gastronomia e à cultura popu- do vinho dispersa por mosaicos romanos,
lar, às diferentes manifestações de arte, na estelas e lápides funerárias, na iluminura
música, literatura, arquitectura, pintura, medieval, na arquitectura manuelina, nas
escultura, cerâmica, artes decorativas, etc. igrejas, nos mosteiros, etc; as peças guar-
Pelo papel que desempenha nas sociabi- dadas em museus e colecções sobre a temá-
lidades locais, como parte integrante da tica do vinho que vão aparecendo pelo país,
gastronomia regional e como elemento do como em Alcobaça, Cartaxo, Vairão, Torres
património cultural das principais regiões Novas, etc. (Nabais, 1994); as alfaias, ânfo-
produtoras, a vinha e o vinho encontram-se ras e outros utensílios provenientes de es-
numa posição privilegiada para responder cavações locais e que vão enriquecer o pa-
aos novos desafios que se colocam ao mun- trimónio arqueológico dos museus citadi-
do rural. nos.
A cultura da vinha continua a marcar o
ritmo da vida rural das regiões vinhateiras. O enoturismo e o turismo em espaço rural
As vindimas, em particular, constituem
ainda a oportunidade de retorno regular Pelo exposto no ponto anterior, começa a
dos que há muito deixaram os campos e se desenhar-se uma ligação muito privilegiada
instalaram nas cidades. E não são só os da vitivinicultura a um vasto conjunto de
"senhores" das quintas do Minho ou do outras actividades, com impacte directo no
Douro que cumprem o rito anual de regres- desenvolvimento local e regional. Os incen-
so às origens. São também os trabalhadores tivos a esta ligação, pecuniários ou não, são
da indústria e dos serviços que reservam diversos.
parte das suas férias para partilhar com Do lado da oferta, as recentes orientaç-
familiares e amigos a azáfama da vindima, ões da PAC vão no sentido de privilegiarem
em regime de entreajuda. Em troca, carre- a multifuncionalidade da agricultura, dan-
gam os automóveis com garrafões de vinho do relevo ao aproveitamento dos valores
e alguns petiscos que ajudam a manter a locais, à conservação da natureza e do am-
ligação à terra. biente rural. De facto, embora o vinho seja
Do lado do consumo, as sociabilidades um dos sectores menos apoiados em termos

PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo


274 Enoturismo em Portugal ...

de suporte de preços no contexto da PAC, rural almejado pelas já citadas novas pro-
existem actividades complementares que curas urbanas.
são incentivadas, algumas directamente A estes dois níveis de contribuição co-
com ele relacionadas (como, por exemplo, a rrespondem diferentes formas de retribuiç-
protecção integrada, inserida nas medidas ão aos actores sociais envolvidos. No pri-
agroambientais), outras com uma ligação meiro caso, o pagamento é feito directa-
menos directa, como por exemplo o turismo mente aos produtores, seja pela aquisição
em espaço rural (TER). de produtos ou serviços, seja pelo efeito
Do lado da procura, os incentivos inse- multiplicador da publicitação dos mesmos.
rem-se no âmbito do desenvolvimento de Já nas contribuições indirectas, embora a
“novas procuras” urbanas, isto é, dos pro- sua quantificação seja difícil, alguns indi-
cessos de mudança e reorientação de práti- cadores apontam para uma retribuição
cas e comportamentos no domínio do con- fraca. De facto, alguns estudos efectuados
sumo, emergentes ao nível de sectores cada sobre o TER (Carqueja, 1998; Ribeiro, 1998)
vez mais alargados da população citadina apontam não só para uma fraca articulação
(Ribeiro, 2000: 31). Esta autora traça um do turismo com as actividades agrícolas,
fio condutor que une estas novas procuras, como também para uma desigual repartição
caracterizando-as pelo retorno e recuperaç- dos rendimentos gerados, com claro benefí-
ão do que se perdeu, ou se suspeita ter-se cio dos agentes económicos exteriores às
perdido ou estar em vias de se perder, nas regiões visitadas.
cidades e nos modos de vida urbanos: trata- Do lado da procura, são precisamente as
se, entre outros, da natureza e da pureza paisagens agrícolas ou naturais, o elemento
das suas formas, das relações sociais e dos fulcral que induz e justifica a visita. Parece,
ritmos de vida humanizados, do sentido de então, haver um paradoxo que urge resol-
pertença e das raízes, da genuinidade, da ver. Se, como parece claro, existe uma “ar-
autenticidade e da originalidade, das tra- ticulação-dependência directa e/ou indire-
dições, dos usos e costumes, etc. (Ibidem: cta do turismo rural de outras actividades e
34). São estas as realidades procuradas muito particularmente da actividade agrá-
pelos cidadãos cansados do stress e da de- ria, enquanto produtora e responsável pela
gradação da qualidade de vida das áreas qualidade de muitos dos seus recursos bási-
urbanas. cos, das paisagens em primeiro lugar" (Ri-
Dadas as interfaces que mantém com beiro, 1998: 34), então é necessário procu-
actividades a montante e a jusante e os rar formas eficazes de beneficiar os agentes
efeitos multiplicadores na criação de rique- locais responsáveis pela manutenção desses
za e oportunidades de trabalho, o turismo valores. Aliás, a questão de se saber quais
tem sido apresentado como a melhor alter- os principais beneficiários de programas de
nativa de valorização dos espaços rurais, desenvolvimento implementados em regi-
num contexto de diversificação económica. ões desfavorecidas tem sido uma das preo-
A contribuição da vitivinicultura para o cupações de muitos investigadores sociais
TER, pode conceber-se a dois níveis. De um (veja-se, por exemplo, Portela (1999) e
modo directo, quando os produtos, as acti- Cristóvão (1999), para o caso do Douro).
vidades, ou os saberes profissionais relacio-
nados com a vinha e o vinho, se tornam, em As rotas do vinho em Portugal
si mesmos, produtos turísticos. Uma das
formas mais eficazes de dar corpo a esta De entre as várias formas de articulação
relação foi a recente criação das rotas do da vitivinicultura com a criação e o desen-
vinho de que falaremos adiante. De um volvimento de outras actividades, destaca-
modo indirecto, a vinha contribui para a mos aqui o aproveitamento turístico das
construção da paisagem rural, o que é deci- paisagens vitícolas e dos processos tecnoló-
sivo nas regiões mais especializadas, de que gicos de fabrico, no âmbito das rotas do
é exemplo paradigmático o Douro, actual- vinho. Em Portugal, o projecto das rotas do
mente classificado como património mun- vinho nasceu em 1993, com a participação
dial pela UNESCO. Por outro lado, as so- do nosso país no programa Dyonisios pro-
ciabilidades geradas em torno da vinha e do movido pela União Europeia. O Despacho
vinho fazem também parte do tal mundo Normativo nº 669/94, que incentivava fi-
PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo

Orlando Simões 275

nanceiramente tais iniciativas, preparou as rotas aumentaram significativamente o
bases regulamentares, os critérios de qua- número de aderentes, com especial desta-
lidade e selecção para a implementação das que para a Rota do Vinho do Alentejo.
rotas em Portugal. O Quadro 1 dá conta da Porém, as rotas de mais reduzida dimens-
execução deste projecto no país. ão, nomeadamente as três últimas assina-
Dinamizadas sobretudo pelas Comissões
ladas no Quadro 1, não ultrapassaram ain-
Vitivinícolas Regionais (CVR) e pelas Regi-
da as dificuldades iniciais de implementaç-
ões de Turismo, a maioria das rotas de
ão no terreno.
vinho entraram em funcionamento entre
A Figura 2 dá conta dos principais pro-
1996 e 1998, com o objectivo de estimular o
dutos turísticos oferecidos pelos aderentes
potencial turístico de cada uma das regiões
às rotas de vinho em funcionamento em
em causa. Cada rota integra um conjunto
Portugal, sendo que a sua esmagadora
de locais, empresas e organismos com inte-
maioria só está disponível mediante mar-
resse turístico, os quais se encontram devi-
cação prévia. São aqui representadas ape-
damente sinalizados e estruturados em
nas as quatro rotas mais significativas. As
rede.
rotas do Ribatejo, Alentejo e Bairrada têm
O tipo de aderentes é diversificado: ade-
um perfil idêntico à rota do Dão, enquanto
gas cooperativas e suas uniões, associações
as rotas do Oeste, Cister, Bucelas e Beira
de viticultores, vitivinicultores-engarrafa-
Interior se assemelham mais à rota da Cos-
dores, armazenistas, enotecas, museus,
ta Azul.
casas de TER e outros centros de interesse
Não existem diferenças claras entre as
vitivinícola. De entre estes, os casos de
diversas rotas quanto ao tipo de ofertas
adesão mais frequente dizem respeito a
disponibilizadas. Com a excepção da rota do
explorações agrícolas de grande dimensão,
Vinho do Porto, que privilegia mais a prova
integradas ou não em grandes grupos
e a venda de vinhos em detrimento das
económicos, que apresentam designações
visitas às vinhas e adegas, o que tem muito
diversas conforme as regiões e o tipo de
a ver com o tipo de vinho em causa, todas
habitação nelas inseridas: quintas, casais,
as outras rotas apresentam um perfil de
casas agrícolas, paços, solares, etc. Nestes
oferta muito semelhante. Praticamente
locais, cada visitante pode desenvolver um
todas os aderentes oferecem prova e venda
conjunto variado de actividades, as quais
de vinhos e visita às adegas, salvo quando
poderão ir da simples visita às vinhas ou
não os têm. Segue-se depois a visita às vin-
adegas, passando pela prova e compra de
has e, com grau manifestamente inferior, o
produtos até, em casos raros, à participação
TER e a visita a museus ou colecções temá-
em trabalhos vitícolas vários, como a vin-
ticas.
dima, pisa em lagar, etc.
Apesar dos poucos anos volvidos desde a
Outros aderentes com peso significativo
entrada em funcionamento das rotas do
são as adegas cooperativas e suas uniões,
vinho, tem sido crescente o interesse de-
que representavam 14% do total dos ade-
monstrado quer pelo sector vitivinícola
rentes em 2002, com especial destaque nas
quer pelo turismo, o que levou mesmo, em
rotas do Dão, Alentejo e do Vinho do Porto.
2001, à realização do I Congresso das Rotas
Seguem-se depois os armazenistas, com um
do Vinho de Portugal, por iniciativa da As-
peso mais significativo na rota da Bairrada,
sociação Nacional das Denominações de
onde as conhecidas Caves são presença
Origem Vitivinícolas. As principais con-
obrigatória. Em todos estes casos, os candi-
clusões desse evento apontam para a neces-
datos a aderentes são para o efeito devida-
sidade de ultrapassar algumas debilidades
mente vistoriados e certificados, sendo-lhe
desta actividade, nomeadamente no que
reconhecido o mérito de fazerem parte da
respeita a aspectos legislativos e instru-
respectiva rota.
mentos de apoio financeiro.
Nos últimos cinco anos, quase todas as

PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo


276 Enoturismo em Portugal ...






Quadro 1: As rotas do vinho em Portugal
Rotas de Vinho (1) Sede Organismo coordenador Nº de Aderentes Aderentes Aderentes
percursos iniciais em 2002 em 2007
Rota do Vinho do Peso da Associação de aderentes 3 54 69 49(2)
Porto Régua
Rota dos Vinhos Porto Centro de Informação e 3 (3) 30 52 67
Verdes Promoção dos V.V.
Rota do Vinho do Viseu CVR do Dão 3 17 33 47
Dão
Rota da Vinha e do Santarém Associação da Rota V. 4 - 29 42
Vinho do Ribatejo V. do Ribatejo
Rota do Vinho do Évora Gabinete da R. V. A. 3 24 27 60
Alentejo
Rota do Vinho da Anadia CVRda Bairrada 3 23 23 28
Bairrada
Rota da Vinha e do Óbidos Região de Turismo do 2 15 13 19
Vinho do Oeste Oeste
Rota do Vinho da Palmela Região de Turismo de 5 - 8 15
Costa Azul Setúbal (4)
Rota das Vinhas de Moimenta CVR de Távora e Varo- 2 6 7 11
Cister da Beira sa/Região Turismo Dou-
ro-Sul
Rota dos Vinhos de Bucelas CVR de Bucelas, Carca- 3 - 5 4
Bucelas, Carcavelos velos e Colares (5)
e Colares
Rota do Vinho da Guarda CVR da Beira Interior 3 - 5 -
Beira Interior
(1) Este quadro foi construído com base no sítio www.e-mercatura.net, consultado em 12.03.2002. A infor-
mação foi posteriormente actualizada, em Nov. 2007, por consulta aos sítios das respectivas rotas. Várias rotas
entretanto planeadas, como as do Algarve, Açores, Madeira e Região de Turismo dos Templários, não foram
constituídas formalmente, embora esta última seja publicitada com 5 aderentes na respectiva Região de Tu-
rismo.
(2) Dos aderentes iniciais desta rota, liderada pelo IVDP, apenas 49 fazem parte da actual Associação de Ade-
rentes.
(3) O número de circuitos foi aumentado para 8.
(4) Em 2003 a gestão da rota passou para a responsabilidade da Associação da Rota do Vinho da Península de
Setúbal / Costa Azul.
(5) Actualmente esta Rota é gerida pela Câmara Municipal de Loures. São publicitados 4 produtores, 6 restau-
rantes e 5 estabelecimentos de artesanato.



PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo

Orlando Simões 277

80
70
60
50
40
30
20
10
0
Porto V.Verde Dão C. Azul
Aderentes Visita a vinhas Visita a cave ou adega
Prova de vinhos Venda de vinhos TER
Museu ou colecção temática
Figura 2: Principais produtos turísticos oferecidos não depende de uma aprovação oficial e
pelas rotas do vinho em 2002 (nº total de aderen- respectivo controlo. Verifica-se assim uma
tes e nº de aderentes que oferecem cada um dos grande liberdade na criação e constituição
serviços considerados) das rotas, nomeadamente no que diz res-
peito às entidades promotoras, numero e
De facto, a falta de uma regulamentação tipos de aderentes, quantidade e tipo de
comum que estabeleça os princípios, a or- serviços prestados, etc. Em suma, em Por-
ganização e o conteúdo básico de todas as tugal uma rota constitui-se unicamente por
rotas, tem conduzido a uma certa descoor- vontade dos aderentes através da subscriç-
denação e diferenciação de conteúdos entre ão de um protocolo, remetendo-se para os
elas. Por outro lado, a dinâmica das rotas estatutos internos as regras fundamentais
continua muito dependente do envolvimen- do seu funcionamento (Costa e Dolgner,
to das instituições que as criaram e ainda 2003).
animam, de modo muito particular as Co- A necessidade do enquadramento legal
missões de Vitivinicultura Regionais das rotas do vinho pode ser vista segundo
(CVR). Ora, se existem CVR com importan- duas perspectivas. Sobre o ponto de vista
tes meios financeiros e técnicos, capazes de estritamente legal e normativo, não parece
dar apoio efectivo às respectivas rotas, ou- ser muito conveniente uma legislação muito
tras há que se mostram incapazes de cum- condicionadora da actual liberdade de ini-
prir tal tarefa. De facto, sendo as taxas ciativa por parte dos promotores das rotas.
sobre os vinhos certificados a sua principal De facto, é a liberdade de associação que
fonte de receitas, as CVR com baixo volume permite uma melhor adequação das rotas
de certificação, nomeadamente as regiões às situações concretas e às realidades das
demarcadas mais jovens, apresentam mui- diversas regiões vitícolas. Porém, é a falta
tas carências em meios humanos, técnicos e de uma superstrutura organizativa a nível
financeiros. O processo de reestruturação nacional, passível de ligações a nível euro-
em curso, que levará certamente a uma peu ou mundial que parece ser a questão
diminuição do número de CVR e concomi- mais pertinente para a dinamização das
tantemente ao aumento da dimensão de actuais rotas do vinho. Funções de coorde-
cada uma, tenderá a resolver este proble- nação geral, disciplina sobre desempenhos
ma. na actividade, promoção do funcionamento
Em resultado da falta de regulamentaç- em rede, concentração da oferta, eventual
ão específica, a constituição de uma rota central de reservas ou simplesmente como

PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo


278 Enoturismo em Portugal ...

canal de promoção, são algumas das neces- rural. Como referem Carvalho et al.
sidades que poderiam ser colmatadas por (1995:18), nas paisagens ditas naturais ou
uma estrutura deste tipo. com elevado grau de “naturalidade”, a opç-
ão de não-desenvolvimento, ou seja, a não
Discussão final criação de infra-estruturas, é certamente a
opção preferida. Porém, nas paisagens
O contributo da vitivinicultura para o construídas e dependentes de actividades
processo de desenvolvimento local e regio- humanas, nas quais se inclui a paisagem
nal depende em muito da sua vitalidade vitícola, o impacte é diverso conforme a
como actividade económica e também da intensidade do desenvolvimento económico.
sua participação na criação e desenvolvi- Assim, estas regiões perdem pelo não-
mento de actividades complementares. A desenvolvimento, o qual induz ao abandono
primeira destas questões é fundamental. da terra e à degradação da paisagem; bene-
De facto, como refere Ribeiro (2000: 41), ficiam com um grau moderado de criação de
“não é com agriculturas virtuais e/ou folcló- infra-estruturas e desenvolvimento econó-
ricas que se asseguram a produção e a con- mico, que beneficie as populações e incenti-
servação dos bens ambientais, nem, por ve a manutenção de certas práticas cultu-
maioria de razão, dos que neles se basei- rais; voltam a perder com elevado grau de
am”. Desta forma, torna-se imperioso con- intensificação, que podem revelar-se nega-
tinuar a aposta no desenvolvimento da viti- tivos para a preservação da paisagem ou de
vinicultura no quadro concorrencial da outros valores naturais ou sociais.
União Europeia. É neste contexto que o enoturismo as-
A segunda questão levantada, isto é, a sume um papel primordial. Ele apresenta-
participação da vitivinicultura no desenvol- se como charneira entre a viticultura como
vimento de outras actividades, insere-se no actividade económica e o aproveitamento de
âmbito do desenvolvimento de novas procu- elementos culturais, patrimoniais e paisa-
ras urbanas. Se bem que no discurso políti- gisticos. De facto, o enotorismo permite não
co das instâncias nacionais e comunitárias só um benefício directo às empresas visita-
seja claro a intenção de dar novas com- das, através dos produtos e serviços vendi-
petências à agricultura, resta ainda saber dos, mas constitui também um elemento
quem paga e como se paga aos agricultores importante na construção do que a seguir
pela manutenção das paisagens e dos valo- designaremos por “ideologia do vinho”.
res tradicionais atribuídos ao mundo rural. O consumo e a valorização do vinho
Apesar destas funções terem sido recon- compreendem um momento objectivo, o
hecidas no âmbito da reforma da PAC de vinho como alimento, e um momento sub-
1992, os instrumentos de política entretan- jectivo, ligado à sua simbologia. Este mo-
to criados apresentam, pelo menos, dois mento subjectivo tem permitido produções
tipos de limitações: por um lado represen- ideológicas endógenas e exógenas à esfera
tam, no seu conjunto, montantes ínfimos no vitícola (Bartoli e Boulet, 1989: 755). As
conjunto do orçamento da PAC; por outro produções ideológicas endógenas referem-se
lado, foram criados na perspectiva de serem a um vasto conjunto de discursos sobre o
o amortecimento dos efeitos das transfor- vinho e sobre as práticas sociais da sua
mações ocorridas na organização comum produção e consumo. Apoiadas em vasta
dos mercados, nomeadamente como forma literatura, muitas organizações específicas,
de atenuar os efeitos sociais das quebras de como as “confrarias” ligadas ao vinho, cul-
rendimento. Por uma e outra via, são ainda tivam a arte de apreciar e beber vinho. As
muito limitados os recursos disponíveis produções ideologias exógenas, ou seja,
para uma retribuição eficaz das novas exteriores à esfera vitícola, referem-se à
funções que são reconhecidas ao mundo ligação do vinho à simbologia cristã, à me-
rural. dicina, à cultura e à arte em geral.
O desenvolvimento económico induzido Ao nível colectivo, as regiões vitícolas fa-
pela manutenção das paisagens rurais zem frequentemente apelo a este tipo de
apresenta limites consideráveis, não po- ligações, como forma de produção de uma
dendo ser apresentado como a panaceia ideologia específica ligada às respectivas
para a resolução dos problemas do mundo regiões. Estas ligações são factores de com-
PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 6(2). 2008 ISSN 1695-7121
Número Especial. Turismo Gastronómico y Enoturismo

Soyez le premier à déposer un commentaire !

17/1000 caractères maximum.