Turismo, cultura e desenvolvimento entre sustentabilidades e (in)sustentabilidades

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Resumo
O turismo é um dos fatores de aceleração do desenvolvimento contemporâneo, e de intensifi-cação das relações sociais, típicas do modo de produção capitalista. Trata-se de atividade que necessita do uso e da apropriação de ambientes naturais e culturais, produzidos pelo trabalho, para transformá-lo em espaço de lazer e consumo. Faz parte da dinâmica atual da mundialização do capital, que cria territo-rialidades, como forma de responder às crises da acumulação global, envolvendo, além do mercado, o Estado e a Sociedade Civil. É ainda um serviço de suporte à recuperação do trabalho humano, ao pro-gressivo crescimento das relações do trabalho industrial, comercial e financeiro dos diversos mercados internacionais, além de, enquanto produto de exportação, constituir-se em uma das principais mercado-rias do comércio exterior. É um setor afeito a mitologias, ora é considerado panacéia capaz de resolver os problemas socioeconômicos dos países periféricos, ora é interpretado como indústria selvagem, capaz de destituir comunidades de suas marcas identitárias e de sentimentos de pertença. Há, pois, na atividade turística, elementos contraditórios. Este artigo reflete sobre os significados, contradições e desafios rela-tivos à sustentabilidade do turismo, em face dos significados do desenvolvimento adotados pelas políti-cas governamentais e sua desconexão com as políticas de cultura que podem contribuir, em valores e diretrizes, para a construção do turismo solidário, voltado para o fomento da diversidade cultural e quali-dade de vida das populações.
Abstract
The tourism is one of the factors of the contemporary development and of the intensification of the social relationship, typical of the capitalist production model. It is an activity that requires the use and the appropriation of natural and cultural environments, produced by work, to turn it into spaces of leisure and consumption. It is part of the current dynamic of the capital, which creates territorialities, like an answer to the crises of global accumulation, involving the market, the State and the Civilian Society. It is also a service that supports the recovering of the human work, to the progressive growth of the in-dustrial, commercial and financial work relationships of the several international markets, besides, as an export product, to be constituted in one of the main merchandise of the foreign trade. It is a sector accus-tomed to mythologies, sometimes is considered the solution capable to solve the socioeconomic prob-lems of the outlying countries and sometimes is seen as a savage industry, capable to destroy the identity of communities. This article reflects about the meanings, contradictions and challenges related to tourism sustainability, facing of the meanings of the development adopted by the government policies and its disconnection with the culture policies that may contribute, in value and guidelines, to the construction of the solidary tourism, turned to the foment of the cultural diversity and the living quality of the local populations.

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Publié le 01 janvier 2008
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Vol. 6 Nº 3 págs. 467-479. 2008

www.pasosonline.org


Turismo, cultura e desenvolvimento entre sustentabilidades e
(in)sustentabilidades

Luzia Neide Coriolano
ii
Claudia Leitão
Universidade Estadual do Ceará (Brasil)


Resumo: O turismo é um dos fatores de aceleração do desenvolvimento contemporâneo, e de
intensificação das relações sociais, típicas do modo de produção capitalista. Trata-se de atividade que necessita
do uso e da apropriação de ambientes naturais e culturais, produzidos pelo trabalho, para transformá-lo
em espaço de lazer e consumo. Faz parte da dinâmica atual da mundialização do capital, que cria
territorialidades, como forma de responder às crises da acumulação global, envolvendo, além do mercado, o
Estado e a Sociedade Civil. É ainda um serviço de suporte à recuperação do trabalho humano, ao
progressivo crescimento das relações do trabalho industrial, comercial e financeiro dos diversos mercados
internacionais, além de, enquanto produto de exportação, constituir-se em uma das principais
mercadorias do comércio exterior. É um setor afeito a mitologias, ora é considerado panacéia capaz de resolver
os problemas socioeconômicos dos países periféricos, ora é interpretado como indústria selvagem, capaz
de destituir comunidades de suas marcas identitárias e de sentimentos de pertença. Há, pois, na atividade
turística, elementos contraditórios. Este artigo reflete sobre os significados, contradições e desafios
relativos à sustentabilidade do turismo, em face dos significados do desenvolvimento adotados pelas
políticas governamentais e sua desconexão com as políticas de cultura que podem contribuir, em valores e
diretrizes, para a construção do turismo solidário, voltado para o fomento da diversidade cultural e
qualidade de vida das populações.

Palavras chave: Turismo; Cultura; Territorialidades; Local; Comunidades; Sustentabilidades.

Abstract: The tourism is one of the factors of the contemporary development and of the intensification
of the social relationship, typical of the capitalist production model. It is an activity that requires the use
and the appropriation of natural and cultural environments, produced by work, to turn it into spaces of
leisure and consumption. It is part of the current dynamic of the capital, which creates territorialities, like
an answer to the crises of global accumulation, involving the market, the State and the Civilian Society.
It is also a service that supports the recovering of the human work, to the progressive growth of the
industrial, commercial and financial work relationships of the several international markets, besides, as an
export product, to be constituted in one of the main merchandise of the foreign trade. It is a sector
accustomed to mythologies, sometimes is considered the solution capable to solve the socioeconomic
problems of the outlying countries and sometimes is seen as a savage industry, capable to destroy the identity
of communities. This article reflects about the meanings, contradictions and challenges related to tourism
sustainability, facing of the meanings of the development adopted by the government policies and its
disconnection with the culture policies that may contribute, in value and guidelines, to the construction
of the solidary tourism, turned to the foment of the cultural diversity and the living quality of the local
populations.

Keywords: Tourism; Culture; Territorialities; Local; Communities; Sustainabilities.



ii • Profa. Dra. Luzia Neide Coriolano; Profa. Dra. Claudia Leitão. Mestrado Acadêmico em Geografia e do
Mestrado Profissional em Gestão de Negócios Turísticos, da Universidade Estadual do Ceará. Email:
luzianeide@hotmail.com
© PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. ISSN 1695-7121 468 Turismo, cultura e desenvolvimento...


Responder a essas indagações implica a
Introdução
compreensão de novas dimensões da ativi-

dade turística no século XXI. Os estudos
O turismo é um campo de estudo afeito a
acerca do “pensamento complexo” de
Edtensões e antinomias. De um lado, é
consigard Morin, (2003) assim como sobre as derado um dos fatores de aceleração do
“estruturas antropológicas do imaginário” desenvolvimento moderno e, de outro, da
de Gilbert Durand, poderão servir de refe-intensificação das redes de relações sociais
rencial epistemológico para penetração no no planeta ((características do
campo do turismo mediante as perguntas novo século). As imagens do turismo
consoanteriormente elaboradas. Ao refletir sobre lidadas ao longo do século XX, produzirão
o percurso das ciências até o século XX, signos e símbolos impregnados de
significaMorin constata uma primeira grande dis-dos simultaneamente criativos e
destrutitinção entre a cultura geral e a cultura
vos. Ao mesmo tempo em que a atividade
técnica e científica. Enquanto a primeira é
turística simboliza o uso e a apropriação
ampla e abraça tanto informações quanto
(muitas vezes inadequada) de ambientes
idéias, a segunda compartimenta o
connaturais e culturais, transfigurando-os em
hecimento, tornando difícil sua
contextualiespaços de lazer e consumo, concentração
zação. Utilizando-se de metodologia
redude riqueza, especulação, segregação de
escionista para conhecer (simbolizada pelo
paços, degradação de ambientes, destruição
método lógico dedutivo que parte do todo
de expressões culturais, exploração de
trapara o conhecimento das partes que o
balhadores, também simboliza o
empreencompõem e da obsessão determinista pelas
dedorismo, a conquista, a descoberta, o
leis gerais em que se oculta o acaso, o novo,
sonho.
as exceções) o conhecimento científico
moA contradição é especialmente valiosa
derno empobreceu o mundo, retirou o objeto
quando refletimos sobre a
pesquisado do seu contexto, rejeitando
co(in)sustentabilidade do fenômeno turístico
nexões entre ele e seu ambiente.
nas sociedades contemporâneas. Tal
reflexAs Ciências Sociais percorreram o
mesão torna-se gradativamente mais oportuna
mo caminho, pois reduziram sua atuação ao
no contexto em que a atividade turística
calculável e formulável, abstraindo os
objevem ampliando significados e éticas, ou
tos de pesquisa dos contextos sociais,
históseja, vem se libertando da imagem
meraricos, políticos, culturais e ecológicos nos
mente econômica, passando a adquirir
noquais foram gerados. Por isso, a Economia,
vas dimensões e transversalidades. Embora
entre as Ciências Sociais, por ser
matemaainda de forma tímida e incipiente, é
possíticamente a mais avançada, é, na
perspecvel observar-se recente tendência de
diálotiva humana, a mais atrasada das Ciências.
go entre as políticas públicas para o
turisDe forma analógica, também estamos
atramo, especialmente com os campos
ambiensados, relativamente aos estudos da
discital e cultural. Tais observações propõem
plina do turismo, fatalmente “atropelados”
indagações para a nossa reflexão neste
arpelos movimentos desarmônicos do planeta,
tigo: é possível definir indicadores de
susfrustrados com o caráter aleatório do
muntentabilidade para o fenômeno turístico? A
do (Morin: 2003, 69-70).
atividade turística pode simbolizar nova
Por outro lado, a Sociologia do
Imaginácompreensão de indústria, capaz de
consrio de Durand convida a criar conexões
truir relações mais “ecológicas” entre os
entre as sociedades do espetáculo, socieda-empreendimentos turísticos e o patrimônio
des da proliferação das imagens, do cresci-cultural e natural em que estão inseridos?
mento das indústrias criativas e o fenôme-A reflexão sobre a atividade turística pode
no da transfiguração do turismo, ao longo fazer rever os modelos mentais modernos e
das últimas décadas. Pelas imagens do nos ampliar nosso repertório de imagens e
turismo, podemos observar tendências so-símbolos, capazes de fazer perceber, de
ciais, esboçar traços do “espírito do tempo”, forma transversal, o fenômeno do turismo
neste início de século, do retorno aos mitos,
como criação de socialidades, atividade
às artes, ao espetáculo, aos afetos, ao
noeconômica, assim como repertório de
imamadismo das sociedades. Ora, não é
exatagens das sociedades?
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mente com este repertório do homo sapiens ões trabalhistas, observamos, na atividade
que o turismo trabalha? Não carregaría- turística, acentuada exploração do mercado
mos, como afirma Jung, imagens universais de trabalho, pela elevada porcentagem de
do nosso inconsciente coletivo, que definem trabalhadores em meio período; grande
nossas reações e empatias nos lugares visi- porcentagem de trabalhadores temporários
tados? Enfim, uma viagem turística não é e ocasionais; intensa presença de mulheres
menos o consumo de produtos e serviços com contratos de meio período,
especialmas uma espécie de “trajeto antropológico” mente em hotelaria e restaurantes; escasso
em que revisitamos a nós mesmos pelas número de mulheres em cargos de maior
narrativas, símbolos e ícones construídos responsabilidade; presença de
trabalhadopelo “outro”? Se a modernidade tem como res estrangeiros ocupando cargos de
maiogrande símbolo a razão, a análise, a decom- res responsabilidades, nos países em
deposição dos fenômenos para explicá-los, as senvolvimento, em detrimento dos
profissociedades contemporâneas, pelo contrário, sionais locais; pouca qualificação dos
presvêm, pela imaginação, reinventar e reen- tadores de serviços na hotelaria e em
alicantar o mundo, ou melhor, buscando mentos e bebidas; menores níveis de
saláabraçá-lo (origem etimológica do verbo rios em relação a outros setores; maior
excompreender), tomá-lo por todos os lados, ploração do trabalhador na jornada de
trade forma a percebê-lo não somente pelas balho; poucos trabalhadores sindicalizados
ciências mas por outros caminhos: pelos e com algumas atividades com curto ciclo
afetos, pelos sentidos, pela memória, pelos de vida. No plano geográfico, observamos
mitos, pelas imagens. impactos relativos às transformações do
Os estudos e pesquisas do fenômeno território, assim como repercussões
sócioturístico seguiram a herança aristotélica da antropológicas para as comunidades e
somodernidade, ou seja, do pensamento bipo- ciedades. Nos países periféricos, o turismo
lar não complexo, habituado à mera análise produz “ilhas de prosperidade” em conflito
“causa x efeito” dos fatos sociais, sem bus- com espaços marginais, fazendo emergir
car-lhes maior conexão e aprofundamento contradições, as mais diversas,
especialcom outros campos do conhecimento. Se os mente de ordem social, cultural e
econôminovos tempos assentam-se sobre a multipli- ca.
cidade e superposição de discursos que indi- No Brasil, o turismo cresce e se
consolicam a fusão e a (con)fusão entre antigas da como atividade geradora de riqueza,
contradições( existência e intelecto, corpo e tornando-se importante produto de
exporespírito, arte e vida, conquistas cientificas e tação. No Nordeste brasileiro, no Ceará
renascimento de guerras etnocêntricas e (estado emergente para o turismo
nacioreligiosas), vale avaliar em que medida os nal), o turismo ocupa o quarto lugar entre
1estudos turísticos foram submetidos, ao lon- . No entanto, os produtos de exportação
go do século XX, às mesmas mazelas sofri- quanto mais se torna estratégia de
desendas pelas Ciências Sociais. Mediante méto- volvimento econômico, mais sua imagem é
dos, ora quantitativos, fruto de visões positi- reduzida à dimensão mercadológica. O
emvistas, ora empíricos, produto de visões fe- pobrecimento de significados para o setor
nomenológicas, parte significativa dos estu- pode ser percebido nos programas
goverdos turísticos também simbolizam a dico- namentais, nas práticas do chamado trade
tomia do pensamento moderno diante dos turístico, nos comportamentos dos
emdilemas entre explicação x compreensão do presários da cadeia produtiva.
As conseqüências do reducionismo são mundo.
desastrosas para a atividade turística, nas É evidente que não subestimamos, nas
perspectivas pública e privada. No espaço sociedades mundializadas, as velhas
conpúblico, é o turismo como mero “negócio” tradições suscitadas pelas tradicionais
rereduzindo políticas públicas em meras aç-lações capital-trabalho, tão presentes no
ões de marketing. No espaço privado, a século XX. Nesse contexto, o turismo, como
área de conhecimento acadêmico e ativida- cadeia produtiva do turismo é estruturada
de econômica, se desenvolve, contribuindo nas mesmas bases das economias dos
setopara a proliferação de desequilíbrios sócio- res primário e secundário. Dessa forma, os
espaciais de toda sorte. No plano das relaç- projetos públicos e privados para o setor
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turístico constroem-se pelos mesmos mode- recursos naturais, em razão da ação
equílos mentais e mesmas bases semânticas voca do homem sobre o ambiente, traz
refundadas na imagem do “turis- percussões e modificações nas formas
harmo/mercadoria”, o que também ocorre nos moniosas de construção do cotidiano de
discursos políticos, jurídicos e econômicos culturas tradicionais. A alteração das
aspirelativos às questões de sustentabilidade. rações dos diferentes grupos sociais e
coMarcados pela vagueza e ambigüidade, os munitários e seus modos peculiares de
vimesmos serão particularmente omissos, ver foi drasticamente substituída pela
immostrando-se incapazes de normatizar e posição de novos padrões comportamentais,
institucionalizar o campo turístico. ameaçando a diversidade cultural e a vida
O crescimento da economia do turismo no planeta.
impacta diversos setores da economia, es- Se os resorts simbolizam a acumulação e
pecialmente o imobiliário, simbolizado pela concentração de capital no setor turístico,
construção de mega empreendimentos hote- as pousadas ou os pequenos hotéis podem
leiros e equipamentos de lazer que, por sua simbolizar novas imagens de um turismo
vez provocam danos ambientais, além do menos concentrador e mais solidário,
meque contribuem, como já afirmamos, para nos pasteurizado e mais atento à
diversidaconcentrar riqueza, causando, conseqüen- de cultural. O turismo não somente mapeia
temente, disfunções e esgarçamentos do territórios mas cria territorialidades, pois
tecido social. Reações a esse quadro, no define destinos, propõe roteiros, dando
visientanto, começam a acontecer pelos movi- bilidade a espaços até então “invisíveis”.
mentos sociais, os mais diversos, que cla- Além de construir espaços simbólicos, a
mam por garantias jurídicas que definam atividade turística tece rede extensa de
critérios de responsabilidade social para pequenos negócios que, por sua vez, cria
esses empreendimentos. As forças sociais socialidades as mais diversas.
se estruturam em reação ao próprio modo Neste sentido, o turismo suporta e
resde produção capitalista, que vive, de crises significa o trabalho, propondo-lhe lógicas
periódicas, pois as mesmas condições que menos especulativas e invasivas e mais
proporcionam o crescimento do produto e abertas à diversidade e ao
compartilda riqueza, do trabalho e do lazer, desenca- hamento afetivo. Pela própria natureza, a
deiam momentos de autodestruição, no atividade turística, pode, ao mesmo tempo,
movimento permanente de sustentabilida- concentrar lucro, riqueza e renda, mas
des e insustentabilidades. A imagem do também criar oportunidades de ganhos aos
mercado passa a simbolizar, gradativamen- trabalhadores e às comunidades mais
pote, espaço de instabilidades, uma espécie de bres, visto que a tese incorpora a antítese; o
“tabuleiro de xadrez” cujos vencedores e contraponto, o ponto e a contraposição, a
perdedores são indefinidos, circunstanciais posição. A própria transfiguração da
ativie imprevisíveis. dade turística dá indícios de que o turismo,
As reações às ações, no campo turístico, como mera atividade capitalista voltada
originam estudos e pesquisas que elaboram unicamente para o lucro financeiro, perde
novos discursos, por meio de novas imagens força, fruto dos impasses entre os limites do
e de novas representações simbólicas a eles capital e a própria sobrevivência do homem
agregadas. As mais significativas, nas no ambiente natural e cultural.
últimas décadas, se referem às conexões Não obstante o surgimento de novas
entre turismo e ambiente. Esse relaciona- mentalidades voltadas para o campo
turísmento se traduz no crescimento da legis- tico, constatamos que, em pleno século XXI,
lação sobre o direito ambiental, assim como as reflexões acerca da (in)sustentabilidade
no surgimento de relatórios capazes de do turismo ainda estão impregnadas das
salvaguardar os impactos negativos do tu- imagens emprestadas pela ciência
econômirismo em face do meio, tão comuns nas ca e que, se os discursos ambientais passam
práticas do “turismo de massas”, marcado a estabelecer-lhe novos limites, o mesmo
pelo caráter predatório, relativo ao trato não ocorre, na mesma proporção, no campo
irresponsável, com a natureza e a cultura. cultural. As políticas públicas entre
turisO desequilíbrio planetário resultante da mo e cultura, na América Latina,
especialprogressiva degradação e destruição dos mente no Brasil, pouco dialogaram até
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aqui, não compreendendo que o patrimônio XX, surgem incertezas de ordens diversas.
natural é também patrimônio cultural. O Ora, enquanto conhecimento que almeja o
isolamento pode ser percebido pela pequena status de ciência, o turismo também
exemcontribuição da cultura nos indicadores de plifica os discursos monoteístas promovidos
(in)sustentabilidade para o setor turístico e pelo racionalismo moderno. Suas bases e
do grande distanciamento entre os projetos fundamentos alimentam-se, desde origens,
de intervenção sobre a paisagem, em geral, do campo moral do “dever-ser”, ou seja, são
realizados por ministérios e secretarias de discursos que objetivavam construir uma
infra-estrutura, apoiados por conselhos do sociedade com “s” maiúsculo,
assegurandoambiente, sem a participação dos conselhos lhe padrões normativos, regras de conduta,
de cultura. O discurso ambiental que vem códigos fixos de ser e estar no mundo.
Granse integrando ás discussões sobre sustenta- de parte desses discursos foi se
desmoralibilidade do turismo necessita, por conse- zando (referimo-nos ao sentido etimológico
guinte, da contribuição do discurso cultural, da expressão, ou seja, os discursos foram
ou seja, o próprio direito ambiental deve abandonando o campo da moral, por não
estabelecer relação dialógica com os “direi- serem capazes de prever, categorizar,
nortos culturais”, o que certamente contribuirá matizar ou sancionar a imensa diversidade
para indicadores de sustentabilidade mais dos comportamentos sociais). A
desmoralitransversais para o turismo. zação dos discursos sociais, políticos e
jurídiA tendência de aproximação e do diálogo cos é perceptível por todos nós a olho nu,
entre os campos da cultura e do turismo é, tornando-se espetáculos histriônicos a que
pois, fruto das sociedades ditas pós- assistimos diariamente pela televisão, lemos
modernas ou pós-industriais, as quais pro- pelos jornais ou acessamos pela internet. O
duzem novas representações sociais menos desencanto diante das grandes narrativas
marcadas pelas imagens mercadológicas e “explicadoras” do mundo é um sintoma sobre
mais voltadas aos valores culturais, às o qual devemos refletir. Nossa herança
iluidentidades, aos sentimentos de pertença, minista encontra-se em grande
encruzilao poder dos mitos e à carga de simbolismo hada; necessitamos construir nossos
modedos indivíduos e das comunidades conside- los mentais, rever dogmas e convicções e, por
radas destinos turísticos. A nova mentali- que não fazê-lo pela análise do fenômeno
dade compreende a atividade turística como turístico nas sociedades contemporâneas?
rica e diversa cadeia simbólica capaz de O mundo parece encontrar-se cada vez
reinventar territórios, criar novas sociabili- mais em todos, embora todos não se
encondades e estabelecer novas solidariedades. trem no mundo. Expressões como “capital
social”, “desenvolvimento sustentável”,
“dePor uma ampliação dos significados do tu- senvolvimento com cooperação”, “inclusão
rismo social”, “cidadania” estão presentes nos dis-
cursos públicos e privados e, de tanto
ouviA atividade do turismo vem sendo histo- los e de tanto utilizá-los, temos a sensação
ricamente associada aos modos de produção de que, ao invés de nos sentirmos
estimulado trabalho industrial, comercial e finan- dos ao debate, à imaginação e à criatividade,
ceiro, nos diversos mercados internacionais. temos mentes cada vez mais paralisadas. O
Dentro dos paradigmas modernos em que resultado e o perigo dos discursos
“globalifoi significado, o turismo transfigurou-se e zantes” é que, quanto mais progride a crise,
fragmentou-se. De lazer para as elites até menos capacidade temos de pensá-la, quanto
tornar-se atividade massificada, transfor- mais nos submetemos à “economia global” ,
mada em mercadoria barata, invenção da menos nos indagamos: afinal de contas, de
sociedade de consumo, o turismo transfigu- que globalização falamos? No século em que
rou-se, revelando, pelos significados e dile- o conhecimento, o ócio e o lazer tomam
sigmas, a complexidade das sociedades con- nificados cada vez mais importantes, no
temporâneas. cotidiano das sociedades, o turismo pode,
Como produto moderno, o turismo sofreu graças à riqueza da carga simbólica,
tornarda mesma “anemia semântica” do chamado se campo especialmente fecundo para a
homo-“individualismo possessivo*. Finda a forta- compreensão das transfigurações do
leza do “eu”, nas últimas décadas do século faber ao homo-ludens.
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Os significados do turismo ainda são es- grupos e estratos sociais. Desse modo, como
sencialmente modernos, pois são originá- habitantes de países em desenvolvimento,
rios do século XVII, com as principais teo- podemos perguntar: como reaver o capital
rias oriundas do período posterior à Segun- social de comunidades excluídas, de
exda Guerra Mundial, submetendo-se às re- colônias submetidas à domesticação de suas
presentações sociais suscitadas pelo ima- culturas, despossuídas de auto-estima e de
ginário moderno. Dessa forma, os discursos capacidade de mobilização? As perguntas
político, econômico e acadêmico chamam de referem-se não somente a continentes
desi“indústria” a atividade turística, com o ob- guais como a América Latina ou a África,
jetivo de dar-lhe status de vigor e im- mas dizem respeito a comunidades
perifériportância social. No discurso legitimador de cas em todo o planeta.
“indústria”, o turismo abandona-se, ou As políticas públicas, na América
Latimesmo, desqualifica-se suas imagens e na, especialmente no Brasil, ainda não
símbolos de natureza antropológica ou cul- construíram os necessários canais de
intertural. Assim, enfatiza-se a imagem do tu- secção entre os campos da cultura e do
turista como hóspede, consumidor ou cliente e rismo, resumindo-se a compreender o
tuo turismo como mera fonte de renda e divi- rismo cultural como patrimônio cultural
sas, subestimando-se a imagem do turista material (prédios e conjuntos tombados) e
como protagonista cultural, alguém que imaterial (festas e manifestações da cultura
estabelece trocas simbólicas com outros tradicional popular). No entanto, os
consuindivíduos. midores da atividade turística começam a
Com o desenvolvimento das ciências e desenvolver novas éticas, demonstrando,
das tecnologias, cresce o tempo livre, fruto graças às suas práticas, que os modelos
contraditório da ampliação do trabalho mentais que produzem políticas e
prograespecializado, assim como do desapareci- mas turísticos necessitam urgentemente de
mento de determinadas profissões. As reestruturação. Os próprios turistas
pastransformações do trabalho produzem ao sam a exigir, de forma gradativa, um maior
mesmo tempo, grande contingente de mul- espectro, no que se refere à fruição das
atitiespecialistas e um “exército” de desem- vidades. Ao mesmo tempo, vale enfatizar
pregados, provocam maiores deslocamentos que, nas cidades, o lazer urbano vem sendo
territoriais dos indivíduos, além do aumen- redimensionado.
to do tempo dedicado às férias, movimen- Assim, as classes de menor poder
aquisi2tos migratórios, a banalização das viagens, tivo v êm descobrindo o turismo social,
a democratização do acesso aos meios de permitindo que as populações das regiões
transporte, enfim, um cenário cada vez não direcionadas ao turismo global
descumais favorável à atividade turística. Se as bram novas formas de inclusão na cadeia
inovações de Thomas Cook, em 1841, inse- produtiva do turismo e nos roteiros de
visiriram o turismo no mundo dos negócios, tação. Mais uma vez, constatamos que a
atividade beneficiada, cada vez mais, pela dinâmica turística revela a complexidade
evolução dos transportes e do comércio de social, a tensão complementar entre centro
bens e serviços, esse movimento, levado ao e periferia, entre incluídos e excluídos.
Afiparoxismo, mostra a atividade turística nal de contas, nesses tempos nômades,
revítima das próprias contradições. Os pro- pletos de contradições e de redundâncias, o
cessos massificadores da atividade turística que nos faz realizar atividade turística?
produzem “não-lugares”, desterritorializam Como deslocar-se em um mundo, no qual,
quanto mais nos movimentamos, mais pa-indivíduos e comunidades, com efeitos
perrecemos estar no mesmo lugar? E, por versos à vida comunitária e social,
gradatiúltimo, estas indagações: os discursos vamente mais órfã de imaginários e
destituídas de sentimentos de pertença. modernos acerca de sustentabilidade
poVale, portanto, repensar os modelos de dem aplicar-se à atividade turística? As
desenvolvimento definidos ou praticados limitações de natureza ambiental/natural e
em países latino-americanos com grandes cultural ameaçam o caráter econômico da
desigualdades como o Brasil. A desigualda- atividade turística ou, pelo contrário,
pode suscita desconfiança, assim como é pro- dem representar seu renascimento e
resdutora da lógica de distanciamento entre significação?.
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Luzia Neide Coriolano y Claudia Leitão 473

Meio ambiente e desenvolvimento usos variados. Não é o espaço absoluto da
natureza infinita e passiva, mas o espaço
relativo produzido e reprodutor de relações O meio ambiente é significado e
estrutusociais, que também estão submetidas aos rado por diferentes discursos, produzidos
modos capitalistas de produção e de con-pelas ciências, pelo senso comum, ou ainda
sumo. pela normatização realizada pelos poderes
O meio ambiente constitui, por último, legislativos. Alguns discursos, de escopo
território, alvo de políticas transdisciplina-limitado, abrangem apenas as imagens, os
res e não somente ambientais. As questões símbolos ou as representações naturais,
ambientais ampliam-se para sociais, cultu-outros, mais abrangentes, referem-se ao
rais e territoriais, incluindo as interações meio ambiente como espaço social,
econôentre o homem, a comunidade e a natureza. mico, cultural e político, ou seja, como
espaMoraes (2002, p. 30) entende o ambiental ço de interação entre os homens e a
naturepara além de vetor reestruturador da lógica za e do homem com seus pares. O ambiente
cientifica (a razão ambientalista como é o próprio espaço do turismo, seja
naturepropõem alguns), ou seja, como mais um za, campo ou cidade. Milton Santos (1997) o
fator a ser considerado na modelagem do entendia como o conjunto de complexos
espaço terrestre. Entretanto a preocupação territoriais que constituem a base física do
ambiental se dessacraliza, circunscrevendo trabalho humano.
um campo teórico mais restrito que o alme-O meio ambiente é, pois, o conjunto, em
jado pelas proposições holísticas. A redução um dado momento, dos agentes físicos,
ambientalista e a presunção holística aca-químicos, biológicos, culturais e dos fatores
bam por gerar empobrecimento significati-socioeconômicos susceptíveis de efeito
direvo, na análise dos processos políticos e to ou indireto, imediato ou a termo, sobre os
econômicos do ambiente. seres vivos e as atividades humanas
(PouO modo de produzir e de consumir tem a trel e Wasserman,1977). A natureza, as
natureza como recurso, portanto reduziu-a praias, as cidades, os lugares visitados
petambém à imagem de “mercadoria”, degra-los turistas constituem o meio ambiente.
dando-a até a exaustão, fazendo emergir, Constituem ainda espaço complexo, pois
na pauta das discussões mundiais, as contêm o ar, o solo, a água, as plantas, os
questões relativas à (in)sustentabilidade. animais e o homem, com todas as condições
Para o imaginário moderno, a natureza econômicas e sociais que influenciam a vida
existe pra ser dominada pelo homem, para em geral. Desse ambiente, depende a vida,
servir às suas finalidades, mesmo que aca-em especial, a vida humana. Nele estão
be por comprometer a própria sobrevivên-todas as construções, máquinas, estruturas
cia. Desde os meados do século XX, verifica-e objetos feitos pelo homem ou objetos
gese o fortalecimento da consciência ambien-ográficos, assim como sólidos, líquidos,
gatal (incluindo o social e o político) de grupos ses, odores, cores, calor, sons, vibrações,
que se solidarizam com pessoas de todo o radiações e ações resultantes das
atividamundo, exigindo mudanças comportamen-des culturais e naturais. Portanto, é
constais, produção ecologicamente correta, res-tantemente impactado, exigindo cuidados,
ponsabilidade social das empresas e mode-ponderações e novas abordagens acerca de
los alternativos de turismo. significados e conexões.
Buscamos avaliar os empreendimentos Trata-se, enfim, de espaço geográfico
por fatores, com a consciência de que o pla-simultaneamente natural, social,
econômineta é a casa de todos, a “consciência pla-co, político e cultural, que contém todos os
netária” tão discutida por Leonardo Boff seres vivos em interação, um espaço político
(1999), que diz respeito às habilidades, e não neutro, pois se encontra eivado de
responsabilidades, atitudes e visão de ideologias, conceitos e preconceitos. Nele se
mundo e do cosmo, responsabilidade diante desenvolvem as atividades humanas,
anido planeta e senso de cidadania. Capra mais e vegetais, possibilitando condições
(2003) acredita que a chave para tal defi-para a dinâmica imbricada e complementar
nição operacional é a tomada de consciência entre o natural e o social. Constituem,
ende que não precisamos inventar comunida-fim, espaços submetidos a sucessivas
transdes humanas sustentáveis a partir do zero, formações, com formas de apropriação e
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474 Turismo, cultura e desenvolvimento...

mas que podemos modelá-las, seguindo os de contribuir para a cultura de paz entre os
ecossistemas da natureza que são comuni- povos, considerando a diversidade cultural,
dades sustentáveis de plantas, animais e patrimônio comum da humanidade.
Identimicro-organismos. Uma vez que a carac- dade, diversidade, criatividade,
solidarieterística principal da biosfera consiste na dade são as palavras chaves dos novos
habilidade para sustentar a vida, uma co- tempos, presentes nos discursos
internaciomunidade humana sustentável deve ser nais, nacionais e locais, em contextos
polítiplanejada de maneira que as formas de cos, educativos, econômicos, jurídicos ou
vida, negócios, economia, estruturas físicas sociais.
e tecnológicas não venham a interferir na Ao mesmo tempo, agências de
desenvolhabilidade inerente à Natureza ou à sus- vimento, como o Banco Interamericano de
tentação da vida. Mesmo que a natureza Desenvolvimento – BID passam a priorizar
não ofereça modelos para todos os compor- o financiamento de projetos, pela
capacidatamentos sociais, como acreditam cientistas de de mobilização do capital social e da
de visão crítica, todos são unânimes em dinâmica cultural, específicos das
populaçadmitir que a transição para um futuro ões, às quais os projetos se aplicam. Ao se
sustentável ou uma sociedade sustentável levar em conta a diversidade cultural,
abose configura como postura política pautada le-se a concepção hierárquica do
desenvolem visão de mundo e de valores éticos. vimento, dando-se voz a populações que até
As conceituações de meio-ambiente in- então não constituíam parte integrante
cluem e se aproximam cada vez mais dos deste “capital social”. Vale aqui conceituar
significados da cultura, pois nele estão con- capital social a partir da visão de Pierre
tidos ritos, mitos, as manifestações do Bourdieu, ou seja, “um atributo individual
cotidiano, a natureza, as cidades, o habitat, e coletivo de distinção e, com isso, de
domíos saberes e fazeres, enfim, tudo que o nio dos membros das categorias
privilegiahomem cria ou dá significado, tudo o que das”. O capital social, segundo o sociólogo
constitui sua memória, o que lhe é imposto francês, se apóia no capital econômico (na
e também o que ele espera. Desse modo, segurança material), no capital cultural (no
meio-ambiente e cultura estão de tal forma manejo do idioma) e no capital social (na
imbricados, que a atividade turística não constituição de relações). Esses capitais
poderá produzir indicadores de sustentabi- convertem-se, por sua vez, em capital
lidade sem a compreensão de que, ao criar simbólico, instrumento maior da garantia
espaços de diálogo com a natureza, neces- de sobrevivência dos discursos dominantes.
sariamente os criará com a cultura, pois o Em 1999, em Paris, o Fórum
“Desenvolturismo necessita do espaço geográfico, do vimento e Cultura”, organizado pelo BID,
ambiente entendido dessa forma mais am- traz novos significados a essas expressões.
pla. Turistas buscam paisagens, cultura, A cultura passa a ser percebida como
mapatrimônio histórico, tudo que faz parte dos triz dinâmica das formas de ser, estar,
relaambientes, dos lugares e territórios e de cionar-se e perceber o mundo. Deste modo,
que essa atividade se apropria. É um tipo desenvolvimento significa pouco, se o
redude consumo do espaço (natureza), portanto zirmos seus significados a meras
represenfazer turismo significa viver a própria na- tações de benefícios infra-estruturais
oferetureza. Mesmo protegendo-a, é sempre uma cidos às comunidades (saneamento,
estraatividade de risco que implica (in) susten- das, urbanizações etc.), mas de forma
crestabilidade ou permanente controle das polí- cente ele está associado às reações e
interticas territoriais ou ambientais. venções das pessoas atingidas por estes
benefícios. Desenvolvimento, portanto, não
Cultura e desenvolvimento significa unicamente geração de riqueza ou
aumento do Produto Interno Bruto (PIB)
dos países, embora o crescimento e a distri-A conferência Geral da UNESCO, logo
buição menos desigual da riqueza material após o dramático atentado de 11 de
setemsejam decisivos para a qualidade de vida bro de 2001 formata a “Declaração
Univerdos indivíduos. Como se vê, desenvolvimen-sal sobre a Diversidade Cultural”. O
docuto não se confunde com “desenvolvimentis-mento ratifica o esforço dos países, na
consmo”, tônica da América Latina dos anos 50 trução de um dialogo intercultural, capaz
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Luzia Neide Coriolano y Claudia Leitão 475

e 60, presente no projeto militar brasileiro entre Cultura e Desenvolvimento. No
enresultante do golpe de 1964. tanto, as reflexões do antropólogo francês
Se os significados de Desenvolvimento não encontraram acolhimento digno de
submetem-se ao reducionismo da Ciência nota no pensamento ocidental,
especialEconômica, no campo da Antropologia, os mente nas décadas em que os processos de
significados de Cultura também são redu- globalização transformavam a criação, a
zidos. Os estudos da “cultura”, assim como transmissão, a apropriação e a
interpretaços de “desenvolvimento” fixaram e “conge- ão dos bens simbólicos.
laram” conteúdos e conceitos, criaram fal- Na nova “paisagem cultural”, de
insas oposições ao invés de se abrirem para tercâmbio intenso entre pessoas que criam,
novas percepções das experiências huma- se apropriam e dão significado aos bens
nas. culturais, nosso olhar limitou-se à mera
Ao reconhecermos a natureza fluida da descrição dos fatos, mostrando-se incapaz
realidade e o distanciamento cada vez mais de produzir exegese sobre os diversos
desconcertante entre as abstrações teóricas mundos e suas narrativas. Não
construíe as experiências humanas, no século XX, mos, como desejava Durand, um novo
monão queremos aqui defender o pensamento delo mental capaz de aproximar e fundir o
anárquico ou desestruturado para o século moderno e o tradicional. A incapacidade,
XXI. Pelo contrário, necessitamos rever por sua vez produziu o colapso, um “beco
mentalidade categórica e reducionista para sem saída” para o pensamento ocidental,
que possamos identificar princípios gerado- simbolizado pelas narrativas apocalípticas
res e estruturadores, externos a nós. Para sobre o “Fim da História”. Afinal, o
desencompreendermos a complexa teia dos pro- volvimento do homem seria um mito? O
cessos sociais, especialmente os de mais discurso da evolução do homem do estágio
larga escala, necessitamos considerar a de barbárie à civilização seria
insustentáexistência de interesses, instituições, agên- vel? Se não conduzimos a História,
acabecias e atores dos diversos campos sociais mos com ela, disseram muitos, ou brademos
(Knutsson in Arizpe: 2001,140). Essas re- o nosso desapontamento diante de nossas
des, sobre as quais se constroem as relações tentativas de explicar os fatos.
entre Cultura e Desenvolvimento, possuem
especial complexidade no Brasil, país onde A utopia da sustentabilidade no turismo
a fusão do arcaico e do moderno invalidam
categorias sociológicas. É o caso da catego- A idéia de sustentabilidade surgiu em
ria “campo” de Pierre Bourdieu, a qual bus- 1983, na Comissão Mundial do Meio
Amca definir áreas de interesse profissional. biente e Desenvolvimento – Comissão
No Brasil, os “campos” se sobrepõem, os Brundtland - CMMAD/ONU – com o
relatóindivíduos alternam papéis, vivem e convi- rio Nosso Futuro Comum – apresentando
vem em diversas “constelações” que se te- os princípios: Equidade social: direito de
rritorializam e se desterritorializam, ao cada um (de todos) se inserir no processo de
sabor de interesses, valores, crenças, hábi- desenvolvimento, Eficiência econômica:
tos e éticas. Ao tratarmos historicamente o gestão dos recursos econômicos e
financeidesenvolvimento pela matriz econômica, ros para garantir o funcionamento eficiente
subestimamos os papéis da cultura, en- da sociedade e Prudência ecológica: a
racioquanto espaço da produção de mitos, símbo- nalização do consumo, usos de tecnologias
los e metáforas, capaz de produzir novas limpas, definição de regras para a proteção
categorias que, por sua vez, desempenhas- ambiental. Portanto, há mais de duas
décasem papel estratégico para a própria res- das, se discute o tema, levantando algumas
significação do desenvolvimento. preocupações em relação à natureza e so-
“É preciso unir a memória de nossa cul- ciedade.
tura com a intuição de nossas ciências mais Sustentabilidade significa política e
esavançadas. Precisamos juntar a ciência da tratégia de desenvolvimento econômico,
nossa modernidade mais moderna com o social e cultural contínuos, sem prejuízo do
saber tradicional” (Rocha Pitta: 2005, 62). ambiente (inclusive dos recursos naturais)
A advertência de Gilbert Durand poderia e do homem. Desse desenvolvimento,
desimbolizar a chave para novas conexões pende a continuidade da vida, da atividade
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476 Turismo, cultura e desenvolvimento...

humana, da capacidade dos animais e das conhecimento humano. Pela própria
consplantas de se reproduzirem ao longo do tituição, o fenômeno se alimenta do
contempo. Sustentabilidade e capitalismo est- hecimento racional-empírico, associado à
ão sempre em contradição, mas, tratados esfera simbólico-mítico-mágica, ou seja, no
como pensamento complexo, podem abrir turismo é especialmente necessária a
comcaminhos para a construção de um modelo preensão da dificuldade de permanecermos
cuja matriz permita não a oposição mas em conceitos claros, distintos, fáceis. Em
ação dinâmica entre as oposições. Conside- face da constatação, podemos convocar os
remos, portanto, sustentabilidade um con- protagonistas do campo turístico a rever
ceito complexo, no sentido em que abriga a mentalidades, perceber que, tendo ou não
objetividade que não deve excluir, de sua status de ciência, não existem ciências
puanálise, o espírito humano, o sujeito indi- ras, e políticas públicas para o turismo são
vidual, a cultura e a sociedade. Buscar va- menos o fruto de pesquisas quantitativas
riáveis para qualificar a sustentabilidade que de bom senso capaz de superar
preconde um fenômeno significa criar consensos ceitos e visões maniqueístas da vida social.
mas também pressupõe o antagonismo dos Aí está o desafio aos governantes,
empresáconflitos presentes nas diversas formas de o rios, planejadores, investidores, e,
espehomem ser e estar no mundo. cialmente, as comunidades receptoras.
Neste sentido, as variáveis e os próprios A "Carta da Terra" - documento da
significados de (in)sustentabilidade são UNESCO - (2000) é uma tentativa de
comnaturalmente abertos e passíveis a flexibi- plementar a Declaração Universal dos
Dilidades, adaptações, pois este conhecimento reitos Humanos, agregando a dimensão
é fruto de uma cultura dada, a qual, por planetária, partindo do princípio de que
sua vez, alimenta-se do repertório de noç- não adianta garantir os direitos humanos,
ões, crenças, linguagens etc. Por isso, cate- se o planeta continuar em processo de
degorizar o fenômeno de (in)sustentável sig- vastação. (a questão é que estes direitos
nifica, antes construir um pensamento ca- humanos não foram garantidos a todos) O
paz de detectar as falhas, as lacunas, as grande desafio é a defesa do homem, de seu
contradições de todas as tentativas de re- trabalho, de sua dignidade, da extinção das
dução da própria categoria (in) sustentabi- desigualdades sociais e o da conservação do
lidade e sua impotência diante das tentati- ambiente onde se vive. O documento afirma
vas de generalização e definição de leis que humanidade é parte de vasto universo
gerais acerca dos fenômenos sociais. em evolução. Que a Terra, nosso lar, está
Dessa forma, algo é sustentável ou in- viva com uma comunidade de vida única.
sustentável pela compreensão, a priori, de As forças da natureza fazem da existência
que o objeto pensado (no caso, o fenômeno uma aventura exigente e incerta, mas a
turístico) possui uma relativa autonomia, Terra providenciou as condições essenciais
não sendo necessariamente determinado para a evolução da vida. A capacidade de
por forças específicas (no caso, os modos de recuperação da comunidade da vida e o
produção capitalista). Desta forma, mitos e bem-estar da humanidade dependem da
ideologias habitam os discursos e não mais preservação da biosfera saudável, com
tose excluem, ou seja, para compreendermos dos os sistemas ecológicos, uma rica
varieas repercussões da (in)sustentabilidade do dade de plantas e animais, solos férteis,
fenômeno jurídico necessitamos rever a águas puras e ar limpo. O meio ambiente
estruturação do pensamento, da capacidade global, com seus recursos finitos, é
preocude pensar. Necessitamos ir além da racio- pação comum de todas as pessoas. A
pronalização que escraviza os objetos estuda- teção da vitalidade, diversidade e beleza da
dos buscando encerrá-los em sistema lógico Terra é um dever sagrado. E erradicar a
e coerente. pobreza é imperativo ético, social, econômi-
Enfim, só avançamos na nova estrutura co e ambiental.
de pensamento, se aliarmos diversas com- A “Agenda 21”, transformada em
Propetências relativas ao ato de conhecer. No grama, procura integrar as atividades
relacaso da (in)sustentabilidade do fenômeno tivas ao desenvolvimento e meio ambiente,
turístico, urge que acrescentemos novos ou seja, quer realizar o desenvolvimento
olhares e contribuições de outros campos do sustentável, evitando o esgotamento da
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