O Príncipe
30 pages
Português

Vous pourrez modifier la taille du texte de cet ouvrage

O Príncipe , livre ebook

-

Obtenez un accès à la bibliothèque pour le consulter en ligne
En savoir plus
30 pages
Português

Vous pourrez modifier la taille du texte de cet ouvrage

Obtenez un accès à la bibliothèque pour le consulter en ligne
En savoir plus

Description

Àqueles que chegam desavisados ao texto límpido e elegante de Nicolau Maquiavel pode parecer que o autor escreveu, na Florença do século XVI, um manual abstrato para a conduta de um mandatário. Entretanto, esta obra clássica da filosofia moderna, fundadora da ciência política, é fruto da época em que foi concebida.
Em 1513, depois da dissolução do governo republicano de Florença e do retorno da família Médici ao poder, Maquiavel é preso, acusado de conspiração. Perdoado pelo papa Leão X, ele se exila e passa a escrever suas grandes obras. "O Príncipe", publicado postumamente, em 1532, é uma esplêndida meditação sobre a conduta do governante e sobre o funcionamento do Estado, produzida num momento da história ocidental em que o direito ao poder já não depende apenas da hereditariedade e dos laços de sangue. Mais que um tratado sobre as condições concretas do jogo político, "O Príncipe" é um estudo sobre as oportunidades oferecidas pela fortuna, sobre as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes, com sugestões sobre moralidade, ética e organização urbana que, apesar da inspiração histórica, permanecem espantosamente atuais.

Sujets

Informations

Publié par
Date de parution 15 octobre 2019
Nombre de lectures 0
EAN13 9789897789434
Langue Português

Informations légales : prix de location à la page 0,0050€. Cette information est donnée uniquement à titre indicatif conformément à la législation en vigueur.

Exrait

Nicolau Maquiavel
O PR Í NCIPE
t í tulo original | il principe
autor | nicolau maquiavel
tradu çã o | a. m. santos
capa | mim é tica
imagem da capa | rafael sanzio: louren ç o de m é dici (1519)
pagina çã o | mim é tica
copyright | 2019 © mim é tica para a presente tradu çã o
 
esta edi çã o respeita o novo acordo ortogr á fico da l í ngua portuguesa
Í ndice
 
 
 
Dedicatória
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
 
Dedicatória
 
Ao magn í fico Lorenzo de Medici
 
 
Costumam, o mais das vezes, aqueles que desejam conquistar as gra ç as de um Pr í ncipe, trazer-lhe aquelas coisas que consideram mais caras ou nas quais o vejam encontrar deleite, donde se v ê ami ú de serem a ele oferecidos cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e outros ornamentos semelhantes, dignos de sua grandeza. Desejando eu, portanto, oferecer-me a Vossa Magnific ê ncia com um testemunho qualquer de minha submiss ã o, n ã o encontrei entre os meus cabedais coisa a mim mais cara ou que tanto estime, quanto o conhecimento das a çõ es dos grandes homens apreendido atrav é s de uma longa experi ê ncia das coisas modernas e uma cont í nua li çã o das antigas as quais tendo, com grande dilig ê ncia, longamente perscrutado e examinado e, agora, reduzido a um pequeno volume, envio a Vossa Magnific ê ncia.
E se bem julgue esta obra indigna da presen ç a de Vossa Magnific ê ncia, n ã o menos confio que deva ela ser aceita, considerado que de minha parte n ã o lhe possa ser feito maior oferecimento sen ã o o dar-lhe a faculdade de poder, em tempo assaz breve, compreender tudo aquilo que eu, em tantos anos e com tantos inc ô modos e perigos, vim a conhecer. N ã o ornei este trabalho, nem o enchi de per í odos sonoros ou de palavras pomposas e magn í ficas, ou de qualquer outra figura de ret ó rica ou ornamento extr í nseco, com os quais muitos costumam desenvolver e enfeitar suas obras; e isto porque n ã o quero que outra coisa o valorize, a n ã o ser a variedade da mat é ria e a gravidade do assunto a tornarem-no agrad á vel. Nem desejo se considere presun çã o se um homem de baixa e í nfima condi çã o ousa discorrer e estabelecer regras a respeito do governo dos pr í ncipes: assim como aqueles que desenham a paisagem se colocam nas baixadas para considerar a natureza dos montes e das altitudes e, para observar aquelas, se situam em posi çã o elevada sobre os montes, tamb é m, para bem conhecer o car á ter do povo, é preciso ser pr í ncipe e, para bem entender o do pr í ncipe é preciso ser do povo. Receba, pois, Vossa Magnific ê ncia este pequeno presente com aquele intuito com que o mando; nele, se diligentemente considerado e lido, encontrar á o meu extremo desejo de que lhe advenha aquela grandeza que a fortuna e as outras suas qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnific ê ncia, das culmin â ncias em que se encontra, alguma vez volver os olhos para baixo, notar á qu ã o imerecidamente suporto um grande e cont í nuo infort ú nio.
Capítulo 1
 
De quantas esp é cies s ã o os principados e de que modos se adquirem
 
 
Todos os Estados, todos os governos que tiveram e t ê m autoridade sobre os homens, foram e s ã o ou rep ú blicas ou principados. Os principados s ã o: ou heredit á rios, quando seu sangue senhorial é nobre h á j á longo tempo, ou novos. Os novos podem ser totalmente novos, como foi Mil ã o com Francisco Sforza, ou o s ã o como membros acrescidos ao Estado heredit á rio do pr í ncipe que os adquire, como é o reino de N á poles em rela çã o ao rei da Espanha. Estes dom í nios assim obtidos est ã o acostumados, ou a viver submetidos a um pr í ncipe, ou a ser livres, sendo adquiridos com tropas de outrem ou com as pr ó prias, bem como pela fortuna ou por virtude.
Capítulo 2
 
Dos principados heredit á rios
 
 
N ã o cogitarei aqui das rep ú blicas porque delas tratei longamente em outra oportunidade. Voltarei minha aten çã o somente para os principados, irei delineando os princ í pios descritos e discutirei como devem ser eles governados e mantidos. Digo, pois, que para a preserva çã o dos Estados heredit á rios e afei ç oados à linhagem de seu pr í ncipe, as dificuldades s ã o assaz menores que nos novos, pois é bastante n ã o preterir os costumes dos antepassados e, depois, contemporizar com os acontecimentos fortuitos, de forma que, se tal pr í ncipe for dotado de ordin á ria capacidade sempre se manter á no poder, a menos que uma extraordin á ria e excessiva for ç a dele venha a priv á -lo; e, uma vez dele destitu í do, ainda que tem í vel seja o usurpador, volta a conquist á -lo.
N ó s temos na It á lia, como exemplo, o Duque de Ferrara que n ã o cedeu aos assaltos dos venezianos em 1484 nem aos do Papa J ú lio em 1510, apenas por ser antigo naquele dom í nio. Na verdade, natural tem menores raz õ es e menos necessidade de ofender: donde se conclui dever ser mais amado e, se n ã o se faz odiar por desbragados v í cios, é l ó gico e natural seja benquisto de todos. E na antiguidade e continua çã o do exerc í cio do poder, apagam-se as lembran ç as e as causas das inova çõ es, porque uma mudan ç a sempre deixa lan ç ada a base para a ere çã o de outra.
 
Capítulo 3
 
Dos principados mistos
 
 
Mas é nos principados novos que residem as dificuldades. Em primeiro lugar, se n ã o é totalmente novo mas sim como membro anexado a um Estado heredit á rio (que, em seu conjunto, pode chamar-se "quase misto"), as suas varia çõ es resultam principalmente de uma natural dificuldade inerente a todos os principados novos: é que os homens, com satisfa çã o, mudam de senhor pensando melhorar e esta cren ç a faz com que lancem m ã o de armas contra o senhor atual, no que se enganam porque, pela pr ó pria experi ê ncia, percebem mais tarde ter piorado a situa çã o. Isso depende de uma outra necessidade natural e ordin á ria, a qual faz com que o novo pr í ncipe sempre precise ofender os novos s ú ditos com seus soldados e com outras infinitas inj ú rias que se lan ç am sobre a recente conquista; dessa forma, tens como inimigos todos aqueles que ofendeste com a ocupa çã o daquele principado e n ã o podes manter como amigos os que te puseram ali, por n ã o poderes satisfaz ê -los pela forma por que tinham imaginado, nem aplicar-lhes corretivos violentos uma vez que est á s a eles obrigado; porque sempre, mesmo que fort í ssimo em ex é rcitos, tem-se necessidade do apoio dos habitantes para penetrar numa prov í ncia. Foi por essas raz õ es que Lu í s XII, rei de Fran ç a, ocupou Mil ã o rapidamente e logo depois o perdeu, para tanto bastando inicialmente as for ç as de Ludovico, porque aquelas popula çõ es que lhe haviam aberto as portas, reconhecendo o erro de seu pensar anterior e descrentes daquele bem-estar futuro que haviam imaginado, n ã o mais podiam suportar os dissabores ocasionados pelo novo pr í ncipe.
É bem verdade que, reconquistando posteriormente as regi õ es rebeladas, mais dificilmente se as perdem, eis que o senhor, em raz ã o da rebeli ã o, é menos vacilante em assegurar-se da puni çã o daqueles que lhe faltaram com a lealdade, em investigar os suspeitos e em reparar os pontos mais fracos. Assim sendo, se para que a Fran ç a viesse a perder Mil ã o pela primeira vez foi suficiente um Duque Ludovico que fizesse motins nos seus limites, j á para perd ê -lo pela segunda vez foi preciso que tivesse contra si o mundo todo e que seus ex é rcitos fossem desbaratados ou expulsos da It á lia, o que resultou das raz õ es logo acima apontadas. N ã o obstante, tanto na primeira como na segunda vez, Mil ã o foi-lhe tomado.
As raz õ es gerais da primeira foram expostas; resta agora falar sobre as da segunda vez e ver de que rem é dios dispunha a Fran ç a e de que meios poder á valer-se quem venha a encontrar-se em circunst â ncias tais, para poder manter-se na posse da conquista melhor do que o fez esse pa í s.
Digo, consequentemente, que estes Estados conquistados e anexados a um Estado antigo, ou s ã o da mesma prov í ncia e da mesma l í ngua, ou n ã o o s ã o: Quando o sejam, é sumamente f á cil mant ê -los sujeitos, m á xime quando n ã o estejam habituados a viver em liberdade, e para domin á -los seguramente ser á bastante ter-se extinguido a estirpe do pr í ncipe que os governava, porque nas outras coisas, conservando-se suas velhas condi çõ es e n ã o existindo altera çã o de costumes, os homens passam a viver tranquilamente, como se viu ter ocorrido com a Borgonha, a Bretanha, a Gasconha e a Normandia que por tanto tempo estiveram com a Fran ç a, isto a despeito da relativa diversidade de l í nguas, mas gra ç as à semelhan ç a de costumes facilmente se acomodaram entre eles. E quem conquista, querendo conserv á -los, deve adotar duas medidas: a primeira, fazer com que a linhagem do antigo pr í ncipe seja extinta; a outra, aquela de n ã o alterar nem as suas leis nem os impostos; por tal forma, dentro de mui curto lapso de tempo, o territ ó rio conquistado passa a constituir um corpo todo com o principado antigo. Mas, quando se conquistam territ ó rios numa prov í ncia com l í ngua, costumes e leis diferentes, aqui surgem as dificuldades e é necess á rio haver muito boa sorte e habilidade para mant ê -los. E um dos maiores e mais eficientes rem é dios seria aquele do conquistador ir habit á -los. Isto tornaria mais segura e mais duradoura a posse adquirida, como ocorreu com o Turco da Gr é cia, que a despeito de ter observado todas as leis locais, n ã o teria conservado esse territ ó rio se para a í n ã o tivesse se transferido. Isso porque, estando no local, pode-se ver nascerem as desordens e, rapidamente, podem ser elas reprimidas; a í n ã o estando, delas somente se tem not í cia quando j á alastradas e n ã o mais pass í veis de solu çã o. Al é m disso, a prov í ncia conquistada n ã o é saqueada pelos lugar-tenentes; os s ú ditos ficam satisfeitos porque o recurso a se torna mais f á cil, donde t ê m mais raz õ es para am á -lo, querendo ser bons, e para tem ê -lo, caso queiram agir por forma diversa. Quem do exterior desejar assaltar aquele Estado, por ele ter á maior respeito; donde, habitando-o, somente com muita dificuldade poder á vir a perd ê -lo.
Outro rem é dio eficaz é instalar col ô nias num ou dois pontos, que sejam como grilh õ es postos à quele Estado, eis que é necess á rio ou fazer tal ou a í manter muita tropa. Com as col ô nias n ã o se despende muito e, sem grande custo, podem ser instaladas e mantidas, sendo que sua cria çã o prejudica somente à queles de quem se tomam os campos e as casas para ced ê -los aos novos habitantes, os quais constituem uma parcela m í nima do Estado conquistado. Ainda, os assim prejudicados, ficando dispersos e pobres, n ã o podem causar dano algum, enquanto que os n ã o lesados ficam à parte, amedrontados, devendo aquietar-se ao pensamento de que n ã o poder ã o errar para que a eles n ã o ocorra o mesmo que aconteceu à queles que foram espoliados. Concluo dizendo que estas col ô nias n ã o s ã o onerosas, s ã o mais fi é is, ofendem menos e os prejudicados n ã o podem causar mal, tornados pobres e dispersos como j á foi dito.
Por onde se depreende que os homens devem ser acarinhados ou eliminados, pois se se vingam das pequenas ofensas, das graves n ã o podem faz ê -lo; da í decorre que a ofensa que se faz ao homem deve ser tal que n ã o se possa temer vingan ç a. Mas mantendo, em lugar de col ô nias, for ç as militares, gasta-se muito mais, absorvida toda a arrecada çã o daquele Estado na guarda a í destacada; dessa forma, a conquista transforma-se em perda e ofende muito mais por que danifica todo aquele pa í s com as mudan ç as do alojamento do ex é rcito, inc ô modo esse que todos sentem e que transforma cada habitante em inimigo: e s ã o inimigos que podem causar dano ao conquistador, pois, vencidos, ficam em sua pr ó pria casa. Sob qualquer ponto de vista essa guarda armada é in ú til, ao passo que a cria çã o de col ô nias é ú til.
Deve, ainda, quem se encontre à frente de uma prov í ncia diferente, como foi dito, tornar-se chefe e defensor dos menos fortes, tratando de enfraquecer os poderosos e cuidando que em hip ó tese alguma a í penetre um forasteiro t ã o forte quanto ele. E sempre surgir á quem seja chamado por aqueles que na prov í ncia se sintam descontentes, seja por excessiva ambi çã o, seja por medo, como viu-se terem os et ó lios introduzido na Gr é cia os romanos que, ali á s, em todas as outras prov í ncias que conquistaram, fizeram-no auxiliados pelos respetivos habitantes. E a ordem das coisas é que, t ã o logo um estrangeiro poderoso penetre numa prov í ncia, todos aqueles que nela s ã o mais fracos a ele deem ades ã o, movidos pela inveja contra quem se tornou poderoso sobre eles; tanto assim é que em rela çã o a estes n ã o se torna necess á rio grande trabalho para obter seu apoio, pois logo todos eles, voluntariamente, formam bloco com o seu Estado conquistado. Apenas deve haver o cuidado de n ã o permitir adquiram eles muito poder e muita autoridade, podendo o conquistador, facilmente, com suas for ç as e com o apoio dos mesmos, abater aqueles que ainda estejam fortes, para tornar-se senhor absoluto daquela prov í ncia. E quem n ã o encaminhar satisfatoriamente esta parte, cedo perder á a sua conquista e, enquanto puder conserv á -la, ter á infinitos aborrecimentos e dificuldades.
Os romanos, nas prov í ncias de que se assenhorearam, observaram bem estes pontos: fundaram col ô nias, conquistaram a amizade dos menos prestigiosos, sem lhes aumentar o poder, abateram os mais fortes e n ã o deixaram que os estrangeiros poderosos adquirissem conceito. Quero tomar como exemplo apenas a prov í ncia da Gr é cia. Os aqueus e os et ó lios tornaram-se amigos dos romanos; foi abatido o reino dos maced ô nios e da í foi expulso Ant í oco; mas nem os m é ritos dos aqueus e dos et ó lios lhes asseguraram permiss ã o para conquistar algum Estado, nem a persuas ã o de Felipe logrou fazer com que os romanos se tornassem seus amigos e n ã o o diminu í ssem, nem o poder de Ant í oco conseguiu fazer com que os mesmos o autorizassem a manter seu dom í nio naquela prov í ncia. Isso tudo ocorreu porque os romanos fizeram nesses casos aquilo que todo pr í ncipe inteligente deve fazer: n ã o somente vigiar e ter cuidado com as desordens presentes, como tamb é m com as futuras, evitando-as com toda a cautela porque, previstas a tempo, facilmente se lhes pode opor corretivo; mas, esperando que se avizinhem, o rem é dio n ã o chega a tempo, e o mal j á ent ã o se tornou incur á vel. Ocorre aqui como no caso do tuberculoso, segundo os m é dicos: no princ í pio é f á cil a cura e dif í cil o diagn ó stico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade n ã o foi conhecida nem tratada, torna-se f á cil o diagn ó stico e dif í cil a cura. Assim tamb é m ocorre nos assuntos do Estado porque, conhecendo com anteced ê ncia os males que o atingem (o que n ã o é dado sen ã o a um homem prudente), a cura é r á pida; mas quando, por n ã o se os ter conhecido logo, v ê m eles a crescer de modo a se tornarem do conhecimento de todos, n ã o mais existe rem é dio.
Contudo, os romanos, prevendo as perturba çõ es, sempre as tolheram e jamais, para fugir à guerra, permitiram que as mesmas seguissem seu curso, pois sabiam que a guerra n ã o se evita mas apenas se adia em benef í cio dos outros; por isso mesmo, promoveram a guerra contra Felipe e Ant í oco na Gr é cia, para evitar terem de faz ê -la na It á lia e, no entanto, podiam ter evitado a luta naquele momento, se o quisessem. Nem em momento algum lhes agradou aquilo que todos os dias est á nos l á bios dos entendidos de nosso tempo, o desejo de gozar do benef í cio da contemporiza çã o, mas sim apenas aquilo que resultava de sua pr ó pria virtude e prud ê ncia: na verdade o tempo lan ç a à frente todas as coisas e pode transformar o bem em mal e o mal em bem.
Mas voltemos à Fran ç a e examinemos se ela fez alguma das coisas que expomos, falando eu de Lu í s e n ã o de Carlos porque foi daquele que, por ter mantido mais prolongado dom í nio na It á lia, melhor se viram os progressos: e vereis como ele fez o contr á rio que se deve fazer para conservar um Estado numa prov í ncia diferente.
O Rei Lu í s foi conduzido à It á lia pela ambi çã o dos venezianos que, por tal meio, quiseram ganhar o Estado da Lombardia, N ã o desejo censurar o partido tomado pelo rei; porque, querendo come ç ar a p ô r um p é na It á lia e n ã o tendo amigos nesta prov í ncia, sendo-lhe, ao contr á rio, fechadas todas as portas em raz ã o do comportamento do Rei Carlos, foi obrigado a servir-se daquelas amizades com que podia contar: e ter-lhe-ia resultado bem escolhido esse partido, se nos outros manejos n ã o tivesse cometido erro algum. Conquistada, pois, a Lombardia, o rei readquiriu prontamente aquela reputa çã o que Carlos perdera: G ê nova cedeu; os florentinos tornaram-se seus amigos; o marqu ê s de M â ntua, o duque de Ferrara, Bentivoglio, a senhora de Forli, o senhor de Faenza, de Pesaro, de Rimini, de Camerino, de Piombino, os Luqueses, os Pisanos e os Sieneses, todos foram ao seu encontro para tornarem-se seus amigos. Os venezianos puderam considerar ent ã o a temeridade da resolu çã o que haviam adotado, pois que, para conquistar dois tratos de terra na Lombardia, fizeram o rei tornar-se senhor de dois ter ç os da It á lia.
Considere-se agora com quanta facilidade podia o rei manter a sua reputa çã o na It á lia se, observadas as normas j á referidas, tivesse conservado seguros e defendidos todos aqueles seus amigos que, por serem em grande n ú mero, fracos e medrosos uns em rela çã o à Igreja os outros face aos venezianos, precisavam sempre estar com ele; por meio deles poderia, facilmente, ter-se assegurado contra os que ainda se conservavam fortes.
Mas ele, apenas chegado a Mil ã o, fez o contr á rio, dando aux í lio ao papa Alexandre para que ocupasse a Romanha. Nem percebeu que com essa delibera çã o enfraquecia a si pr ó prio, afastando os amigos e aqueles que se lhe tinham lan ç ado aos bra ç os, enquanto engrandecia a Igreja acrescentando ao poder espiritual, que lhe d á tanta autoridade, tamanha for ç a temporal. Cometido um primeiro erro, foi compelido a seguir praticando outros at é que, para p ô r fim à ambi çã o de Alexandre e evitar que este se tornasse senhor da Toscana, teve de vir pessoalmente à It á lia. N ã o lhe bastou ter tornado grande a Igreja e perder os amigos; por querer o reino de N á poles, dividiu-o com o rei da Espanha; sendo primeiro o á rbitro da It á lia, a í colocou um companheiro para que os ambiciosos daquela prov í ncia e os descontentes com ele mesmo tivessem onde recorrer e, em vez de deixar naquele reino um soberano a ele sujeito, tirou-o para, em seu lugar, colocar um outro que pudesse expuls á -lo dali.
É coisa muito natural e comum o desejo de conquistar e, sempre, quando os homens podem faz ê -lo, ser ã o louvados ou, pelo menos, n ã o ser ã o censurados; mas quando n ã o t ê m possibilidade e querem faz ê -lo de qualquer maneira, aqui est á o erro e, consequentemente, a censura. Se a Fran ç a, pois, podia assaltar N á poles com suas for ç as, devia faz ê -lo; se n ã o podia, n ã o devia dividir esse reino. E se a divis ã o que fez com os venezianos sobre a Lombardia mereceu desculpa por ter com ela firmado p é na It á lia, aquela merece censura em raz ã o de n ã o ser justificada por essa necessidade.
Tinha, pois, Lu í s, cometido estes cinco erros: eliminou os menos fortes; aumentou na It á lia o prest í gio de um poderoso; a í colocou um estrangeiro poderos í ssimo; n ã o veio habitar no pa í s; n ã o instalou col ô nias.
Estes erros, contudo, poderiam n ã o ter causado dano enquanto vivo ele fosse, se n ã o houvesse sido cometido o sexto erro, tomar os territ ó rios aos venezianos. Na verdade, se n ã o tivesse tornado grande a Igreja nem introduzido a Espanha na It á lia, seria bem razo á vel e necess á rio enfraquec ê -los; mas, tomados que foram aqueles partidos, nunca deveriam consentir na ru í na dos mesmos, pois, sendo poderosos, teriam sempre mantido aquelas à dist â ncia da Lombardia, e isso porque os venezianos jamais iriam consentir em qualquer manobra contra esse Estado, a menos que eles se tornassem os senhores, da mesma forma que os outros n ã o iriam querer tom á -lo à Fran ç a para d á -lo aos venezianos, ao mesmo tempo que lhes faltava coragem para entrar em luta com estes e com a Fran ç a. E se algu é m dissesse: o Rei Lu í s cedeu a Romanha a Alexandre e o Reino à Espanha para fugir a uma guerra — respondo com as raz õ es j á anteriormente expostas de que — nunca se deve deixar prosseguir uma crise para escapar a uma guerra, mesmo porque dela n ã o se foge, mas apenas se adia para desvantagem pr ó pria. E se alguns outros alegassem a palavra que o rei havia dado ao Papa, qual a de realizar para ele aquela conquista em troca da dissolu çã o de seu casamento e do chap é u cardinal í cio para o arcebispo de Ru ã o — respondo com o que mais adiante se dir á acerca da palavra dos pr í ncipes e de como se a deve respeitar.
Perdeu, pois, o Rei Lu í s a Lombardia por n ã o ter respeitado nenhum dos princ í pios observados por outros que dominaram prov í ncias e quiseram conserv á -las. N ã o h á aqui milagre algum, mas é sim muito comum e razo á vel. E deste assunto falei em Nantes ao arcebispo de Ru ã o, quando Valentino, assim popularmente chamado C é sar B ó rgia, filho do Papa Alexandre, ocupava a Romanha: porque, dizendo-me o cardeal de Ru ã o que os italianos n ã o entendiam de guerra, retruquei-lhe que os franceses n ã o entendiam do Estado, pois que, se de tal compreendessem, n ã o teriam deixado que a Igreja alcan ç asse tanta grandeza. E por experi ê ncia viu-se que a grandeza da Igreja e da Espanha na It á lia foi causada pela Fran ç a, e a ru í na desta foi acarretada por aquelas.
Disso se extrai uma regra geral que nunca ou raramente falha: quem é causa do poderio de algu é m arru í na-se, por que esse poder resulta ou da ast ú cia ou da for ç a e ambas s ã o suspeitas para aquele que se tornou poderoso.

  • Accueil Accueil
  • Univers Univers
  • Ebooks Ebooks
  • Livres audio Livres audio
  • Presse Presse
  • BD BD
  • Documents Documents