Museus, Património e Ciência. Ensaios de História da Cultura

Museus, Património e Ciência. Ensaios de História da Cultura

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173 pages

Description

O livro que agora se dá a conhecer resulta da agregação de textos que considerámos possuírem unidade metodológica e conceptual, enquadrados no âmbito disciplinar da história da cultura. Arrumados em três temáticas – museus, património e ciência - os diferentes artigos foram editados nos últimos anos e alguns, poucos, encontravam-se ainda inéditos. Os textos identificam sempre a respetiva edição original e foram neles atualizados factos, instituições, siglas e datas para melhor ajudar à sua devida contextualização. Levaram-se, naturalmente, em boa conta as pertinentes críticas e sugestões que uma equipa de arbitragem científica entendeu produzir sobre aspetos formais ou substantivos. O conteúdo final da obra reflete bem, cremos, as preocupações académicas e técnicas do nosso percurso profissional ao longo das duas últimas décadas, cuja matriz científica foi adquirida na escola de história da cultura e das ideias, indelevelmente marcada pelo magistério do Professor José Sebastião da Silva Dias. Na Universidade de Évora, minha instituição de acolhimento, a investigação e a lecionação de matérias do universo patrimonial e museológico proporcionaram, por sua vez, o desabrochar de uma vocação - e de uma ambição - pela compreensão dos museus considerados enquanto instituição central da cultura. Questão que julgamos transparecer do conteúdo de boa parte dos textos é o da preocupação com o território e com os patrimónios (material e humano) alentejanos. Não se trata neles de adensar a historiografia local, mas tão só o de evidenciar a impossibilidade de desenhar uma história da cultura desligada das suas condicionantes antropológicas de um tempo e de um espaço precisos: o Sul europeu e mediterrânico é o nosso lugar, nossa poesis e nossa fisis. A história cultural - pela sua vocação em elaborar construções sincrónicas das representações e das imagens de uma 'cultura unitária' - poderá a nosso ver constituir o instrumento de análise mais adequado para concretizar este programa científico. Por último, uma palavra de profunda gratidão pelo acolhimento que o CIDEHUS, a sua Direção e técnicos, me tem proporcionado enquanto investigador e de que esta publicação é emblemático exemplo.


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Date de parution 13 septembre 2016
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EAN13 9782821874176
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Langue Português

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Museus, Património e Ciência. Ensaios de História da Cultura

João Brigola
  • Publisher: Publicações do Cidehus
  • Place of publication: Évora
  • Year of publication: 2016
  • Published on OpenEdition Books: 13 septembre 2016
  • Serie: Biblioteca - Estudos & Colóquios
  • Electronic ISBN: 9782821874176

OpenEdition Books

http://books.openedition.org

Printed version
  • ISBN: 9789899566996
  • Number of pages: 173
 
Electronic reference

BRIGOLA, João. Museus, Património e Ciência. Ensaios de História da Cultura. New edition [online]. Évora: Publicações do Cidehus, 2016 (generated 26 October 2016). Available on the Internet: <http://books.openedition.org/cidehus/97>. ISBN: 9782821874176. DOI: 10.4000/books.cidehus.97.

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© Publicações do Cidehus, 2016

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O livro que agora se dá a conhecer resulta da agregação de textos que considerámos possuírem unidade metodológica e conceptual, enquadrados no âmbito disciplinar da história da cultura. Arrumados em três temáticas – museus, património e ciência -  os diferentes artigos foram editados nos últimos anos e alguns, poucos, encontravam-se ainda inéditos.

Os textos identificam sempre a respetiva edição original e foram neles atualizados factos, instituições, siglas e datas para melhor ajudar à sua devida contextualização. Levaram-se, naturalmente, em boa conta as pertinentes críticas e sugestões que uma equipa de arbitragem científica entendeu produzir sobre aspetos formais ou substantivos.

O conteúdo final da obra reflete bem, cremos, as preocupações académicas e técnicas do nosso percurso profissional ao longo das duas últimas décadas, cuja matriz científica foi adquirida na escola de história da cultura e das ideias, indelevelmente marcada pelo magistério do Professor José Sebastião da Silva Dias.  Na Universidade de Évora, minha instituição de acolhimento, a investigação e a lecionação de matérias do universo patrimonial e museológico proporcionaram, por sua vez, o desabrochar de uma vocação - e de uma ambição - pela compreensão dos museus considerados enquanto instituição central da cultura.

Questão que julgamos transparecer do conteúdo de boa parte dos textos é o da preocupação com o território e com os patrimónios (material e humano) alentejanos. Não se trata neles de adensar a historiografia local, mas tão só o de evidenciar a impossibilidade de desenhar uma história da cultura desligada das suas condicionantes antropológicas de um tempo e de um espaço precisos: o Sul europeu e mediterrânico é o nosso lugar, nossa poesis e nossa fisis. A história cultural - pela sua vocação em elaborar construções sincrónicas das representações e das imagens de uma 'cultura unitária'  - poderá a nosso ver constituir o instrumento de análise mais adequado para concretizar este programa científico.

Por último, uma palavra de profunda gratidão pelo acolhimento que o CIDEHUS, a sua Direção e técnicos, me tem proporcionado enquanto investigador e de que esta publicação é emblemático exemplo.

    1. 2. O actual ensino universitário da Museologia – uma reflexão crítica e uma proposta

    2. 3. O Código Deontológico dos Museus e dos seus Profissionais

      1. Questões prévias e justificativas
      2. A questão da autenticidade e da falsificação no património cultural
      3. Serviço público versus mercado. Os conflitos de interesse
      4. Alguns casos avulsos registados em museus portugueses
      5. O saque do passado. Dois exemplos internacionais
      6. Estratégia para uma praxis deontológica contemporânea
    3. 4. Museus, artistas, cientistas e escritores – antologia de textos críticos sobre colecções e museus (da antiguidade clássica à arte contemporânea)

      1. Razões da crítica ao coleccionismo e aos museus
      2. Intenções e justificações
      3. Fontes Primárias (Escritores, Artistas)
      4. Fontes Secundárias (Sociologia da Cultura, História da Museologia, História da Arte)
      5. Antiguidade Clássica
      6. Séc. XVIII
      7. Séc. XIX
      8. Séc. XX
    4. 5. A crise institucional e simbólica do museu nas sociedades contemporâneas

    5. 6. Perspectiva histórica da evolução do conceito de museu em Portugal

      1. Breve história da legislação sobre política museológica em Portugal
    1. 7. Eu e os museus – testemunho de uma paixão

      1. Introdução
      2. Formação e percurso
      3. O ensino da Museologia
      4. A Museologia enquanto ciência
      5. O exercício de um cargo público na administração de museus
      6. Os desafios da Museologia contemporânea
    2. 8. Entrevista ao Professor Fernando Bragança Gil

    3. 9. Fernando Bragança Gil – um cientista ao serviço da cultura e dos museus

  1. Parte II - Gestão e valorização do património cultural: Évora e o Alentejo

    1. 1. Contributos para um modelo de gestão patrimonial

    2. 2. A fotografia enquanto património cultural

    3. 3. Um projecto patrimonial e museológico para Vila Viçosa - a candidatura a Património da Humanidade

      1. Conclusão
    4. 4. Vasco Vilalva - criador de patrimónios

    5. 5. Estratégias culturais e patrimoniais para Évora (2008-2020)

    6. 6. A mudança de ciclo dos museus alentejanos. Entre remodelação e obra nova

      1. Uma proposta de roteiro
  1. Parte III – A ciência portuguesa e europeia no século das Luzes

    1. 1. Matemáticos e Poder (1772-1823)

      1. I. FONTES MANUSCRITAS
      2. II. FONTES IMPRESSAS E OBRAS DE CONSULTA
    2. 2. Frei Manuel do Cenáculo - ‘semeador’ de bibliotecas e de museus. O conceito de biblioteca/museu na museologia setecentista

    3. 3. O espaço museológico. Condicionantes do lugar no primeiro museu português (1768)

    4. 4. Domingos Vandelli e a circulação de conhecimentos na rede de naturalistas europeus

    5. 5. Projecto de recuperação do espaço do Real Gabinete da Ajuda (1768-1836). Os viajantes como fonte para a reconstituição cénica

Apresentação

O livro que agora se dá a conhecer resulta da agregação de textos que considerámos possuírem unidade metodológica e conceptual, enquadrados no âmbito disciplinar da história da cultura. Arrumados em três temáticas – museus, património e ciência - os diferentes artigos foram editados nos últimos anos e alguns, poucos, encontravam-se ainda inéditos.

Os textos identificam sempre a respetiva edição original e foram neles atualizados factos, instituições, siglas e datas para melhor ajudar à sua devida contextualização. Levaram-se, naturalmente, em boa conta as pertinentes críticas e sugestões que uma equipa de arbitragem científica entendeu produzir sobre aspetos formais ou substantivos.

O conteúdo final da obra reflete bem, cremos, as preocupações académicas e técnicas do nosso percurso profissional ao longo das duas últimas décadas, cuja matriz científica foi adquirida na escola de história da cultura e das ideias, indelevelmente marcada pelo magistério do Professor José Sebastião da Silva Dias. Na Universidade de Évora, minha instituição de acolhimento, a investigação e a lecionação de matérias do universo patrimonial e museológico proporcionaram, por sua vez, o desabrochar de uma vocação - e de uma ambição - pela compreensão dos museus considerados enquanto instituição central da cultura.

Questão que julgamos transparecer do conteúdo de boa parte dos textos é o da preocupação com o território e com os patrimónios (material e humano) alentejanos. Não se trata neles de adensar a historiografia local, mas tão só o de evidenciar a impossibilidade de desenhar uma história da cultura desligada das suas condicionantes antropológicas de um tempo e de um espaço precisos: o Sul europeu e mediterrânico é o nosso lugar, nossa poesis e nossa fisis. A história cultural - pela sua vocação em elaborar construções sincrónicas das representações e das imagens de uma 'cultura unitária' - poderá a nosso ver constituir o instrumento de análise mais adequado para concretizar este programa científico.

Por último, uma palavra de profunda gratidão pelo acolhimento que o CIDEHUS, a sua Direção e técnicos, me tem proporcionado enquanto investigador e de que esta publicação é emblemático exemplo.

Parte I – A museologia enquanto história da cultura

1. A Museologia enquanto história da cultura

Author's note

Texto originalmente apresentado nos Seminários de História, do ICS (Instituto de Ciências Sociais), em Dezembro de 2004. Actualizaram-se algumas informações visando a sua melhor compreensão.

A investigação em História da Museologia: o estado da arte. As três ‘idades’ da historiografia do coleccionismo e dos museus na tradição intelectual do Ocidente

Museology is not a science of museums, i.e. institution-centred, (...) a new centre has to be found. We must find the central problem, a phenomenon if possible, and only then shall we start to see the logic in our otherwise chaotic number of centrifugal and centripetal forces. Without that analysis and the results it may bring, we shall continue holding endless discussions on whether museology is a science or not. To tell you the truth, could not care less. It is simply there.
Tomislav Sola, 1992

El coleccionismo es uno de los primeros ámbitos globalizados. En él conviven sin prejuicios objetos de los sitios más distantes.
Fernando Bouza, 2004

A acreditarmos na avaliação da museóloga britânica Susan Pierce, os museus ocupam actualmente a fatia mais significativa dos cultural studies.1 Sem podermos apurar o rigor quantitativo da afirmação, certo é que uma rápida consulta a catálogos livreiros confirma a produção caudalosa desta área disciplinar, associada tanto à actividade das universidades, quanto dos museus, proveniente sobretudo do mundo de língua inglesa, mas igualmente da francesa e da italiana. No entanto, este é um quadro que começou a desenhar-se apenas nas últimas duas décadas e nele tem vindo a ocupar lugar de relevo a história do coleccionismo e dos museus2.

A crise actual do Museu, simultaneamente funcional e simbólica, talvez ajude a compreender o retorno à busca historicista dos projectos criadores das instituições: a mundivisão do instituidor, a natureza das colecções documentadas nos catálogos fundadores, os espaços e a cenografia das recolhas originais, as estratégias sociais de prestígio e os seus públicos. A preocupação com a progressiva perda de identidade do Museu, da sua missão e vocação primordiais, deve igualmente ser associada a um ciclo de constantes remodelações vividas hoje em inúmeros museus do mundo ocidental. Muitas destas intervenções museográficas, animadas por elevados investimentos visando retornos imediatos e vultuosos com a organização de grandes exposições e com os prometedores resultados do turismo cultural massificado, lograram indiscutivelmente um maior conforto físico para os utilizadores e melhores condições de visibilidade cénica dos objectos, mas arriscam apagar de forma irreversível as marcas da memória histórica do gosto, da sensibilidade e do saber de um ‘tempo-outro museal’3.

Contudo, nesta revalorização dos estudos históricos museológicos, não devem ser subestimadas pulsões de ordem puramente intelectual como a percepção de que, afinal, as colecções e os museus constituem um dos mais poderosos e permanentes factores de unificação cultural europeia e que, por isso, a história da construção europeia, assente na diversidade cultural das nações, encontrará sempre na história da museologia uma das suas fontes mais inspiradoras.

Na cultura europeia, a indagação das raízes do espírito coleccionista, bem como a narrativa do seu evoluir histórico, ainda que já presente em inúmeros textos de seiscentos, atingiu a plena maturidade nos inícios do século XVIII. As primeiras referências são oriundas da Alemanha e encontram a expressão mais acabada na obra do comerciante de Hamburgo, Caspar Friederich Neickel, publicada em Leipzig no ano de 1727 e intitulada Museographia.

Caspar Friederich Neickel, Museographia, Frontispício. Leipzig, 1727

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Presente no título da obra, redigida em Alemão, o conceito de museaum apresentava-se como uma metáfora, de genealogia renascentista, que se adaptava bem às tendências enciclopedistas da cultura de seiscentos e de setecentos. De um ponto de vista filológico, a sua peculiar capacidade de expansão permitia-lhe condicionar a semântica e até incorporar outras numerosas categorias intelectuais e filosóficas como: bibliotheca, thesaurus, cornucopia, studio, casino, cabinet/gabinetto, galleria, theatro, archivio, arca, scrittoio, pinacotheca – terminologia rica e complexa, cuja análise sócio-linguística tem ajudado a entender aspectos expressivos da vida intelectual e cultural dos inícios da Idade Moderna europeia 4.

Considerado o primeiro tratado metodológico de ordenação museográfica5, o livro de Neickel ostenta no frontispício uma gravura que ilustra o hermético gabinete do perfeito coleccionador e utiliza a maior parte do volumoso texto na descrição do interior deste secreto microcosmos idealizado, espaço privado e doméstico, no rasto de outros autores do mundo germânico como Joachin Von Saudrat (1679), Tobias Beutel (1671), Adam Olearius (1674), Hans Worm (1652) e Michael Bernhard Valentini (1704-1714).

Mas o proveito da obra não se esgota na sua utilidade didascálica e normativa, anexando também uma lista de gabinetes senhoriais e privados então conhecidos que funciona aqui como um precioso guia para o ‘grand tour’ e para a ‘epistolografia científica’6. Mas há ainda, no texto do germânico, um outro motivo de peculiar interesse para a história da museologia. Inspirado por uma usual perspectiva teológica da História, Neickel remete a génese do espírito colecionista para os tempos bíblicos fixando-a na recolha naturalista da Arca de Noé7, tal como poucos anos antes outro autor alemão, Valentini, a preferira identificar com a magnificência do rei Salomão8.

Deste modo se inaugurava, nos primeiros anos de setecentos, uma tradição intelectual que nunca mais abandonaria a história da cultura ocidental, sendo significativo que entre nós o Padre Rafael Bluteau, escrevendo em 1716, tenha incluído o vocábulo Museo (tornado assim linguisticamente normativo) associando-o ao exuberante coleccionismo do jesuíta alemão Athanasius Kircher (1602-1680)9:

Nos contornos do Monte Olimpo, na Macedónia, é um lugar consagrado às musas. (…) Museu era um lugar onde os antigos consultavam as musas e elas davam as respostas. Destes lugares chamados Museus deram o nome de Museu a todo o lugar destinado ao estudo das letras humanas, como também a casas de curiosidades científicas, como o Museu do Padre Atanasio Kircher (…)10.

A segunda idade da historiografia museológica surge obrigatoriamente associada à obra do austríaco Julius Von Schlosser (1866-1938), Recolhas de arte e de maravilhas no tardo renascimento, escrita em 1907 e publicada no ano seguinte11. Pertencente à chamada ‘segunda geração’ da Escola de Viena, tal como Alois Riegl e Max Dvorak, Schlosser estudou Historia de Arte, disciplina que na Universidade de Viena mantinha existência autónoma desde 1852, ainda que considerada auxiliar da História, ao lado da Paleografia, da Filologia, da Numismática e da Arqueologia.

Esta sua formação, associada ao facto de ter ocupado durante vários anos o lugar de conservador de museus12, ajuda a explicar o facto de o texto de 1908 ser ainda hoje considerado uma obra prima de erudição e um incunábulo da literatura museológica que recupera, numa notável síntese desde a Antiguidade até ao séc. XVIII, um capítulo oculto da história da Europa13. Schlosser utiliza aqui quer uma metodologia inovadora na abordagem da obra de arte – estudo dos materiais, das técnicas e do estilo aplicado tanto às artes ‘maiores’ quanto às ditas ‘aplicadas’ ou ‘menores’ -, quer o recurso abundante aos arquivos. A consciência precursora seria desta forma assumida pelo autor:

O objectivo desta obra é o de seguir em retrospectiva a história da formação das recolhas de arte e da sua evolução até à forma moderna, o que fez com este estudo se tenha tornado, em certo sentido, um verdadeiro contributo para a história do coleccionismo, uma pesquisa que merece uma consideração indulgente pelo facto de sobre este tema não existirem, que eu saiba, trabalhos precedentes de maior relevo14.

Publicado no mesmo ano em que Sigmund Freud fundava a Sociedade Psicanalítica, o texto revela-se naturalmente tributário de um dos traços distintivos da Escola de Viena ao recorrer às teorias freudianas para explicar o impulso inato do homem à recolha. O museólogo austríaco propõe uma reflexão sobre as pulsões inconscientes do coleccionador, sobre o poder mágico e evocativo das imagens e sobre a origem do ornamento, afinal uma das fontes mais remotas de todas as artes figurativas:

As recolhas de tesouros não são mais do que a projecção para o exterior do originário conceito primitivo de posse como ornamento, com a consequente passagem do móvel e mutável ao imóvel e durável15.

Mas, lado a lado com a motivação inerente ao acto de recolher, actividade também consciente e intencional que se desenrola com uma dialéctica incessante entre o privado e o público, Schlosser tenta delinear uma tipologia do coleccionismo reportando-a a duas distintas esferas de interesses, a estética e teorética dos artistas e a económica e pragmática dos marchands.

Conservador da colecção histórica de Fernando do Tirol (1520-1595), recolhida no Castelo de Ambras desde meados de Quinhentos, o seu estudo conduziu-o a uma interpretação deste coleccionismo de maravilhas (as naturalia, artificialia e mirabilia) como específico do quadro mental e cultural germânico (Áustria, Boémia e Alemanha), identificando-o com o mito do Dr. Fausto – mito da eterna juventude, e da ‘pedra-filosofal’, estabelecendo relações entre arte e natureza e entre magia e ciência. Opôs este padrão cultural ao coleccionismo coevo de raiz italiana, personalizada na actividade artística e mecenática dos Médici.