A Inquilina de Wildfell Hall

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Nesta obra, Anne Brontë trata da decadência provocada pelo alcoolismo e a libertinagem. «A Inquilina de Wildfell Hall» é um romance de uma modernidade surpreendente, tendo mesmo chocado os seus contemporâneos pelo tratamento dado à narrativa, onde a luta pela igualdade das mulheres surge como elemento importante, e pela sinceridade apaixonada e a honestidade psicológica da autora, que se sobrepõem ao longo de todo o texto.

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Date de parution 11 novembre 2017
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EAN13 9789897780820
Langue Português

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Anne Brontë
A INQUILINA DE WILDFELL HALL
CAPÍTULO1
CAPÍTULO2
CAPÍTULO3
CAPÍTULO4
CAPÍTULO5
CAPÍTULO6
CAPÍTULO7
CAPÍTULO8
CAPÍTULO9
CAPÍTULO10
CAPÍTULO11
CAPÍTULO12
CAPÍTULO13
CAPÍTULO14
CAPÍTULO15
CAPÍTULO16
CAPÍTULO17
CAPÍTULO18
CAPÍTULO19
CAPÍTULO20
CAPÍTULO21
CAPÍTULO22
CAPÍTULO23
CAPÍTULO24
CAPÍTULO25
CAPÍTULO26
CAPÍTULO27
CAPÍTULO28
CAPÍTULO29
CAPÍTULO30
CAPÍTULO31
CAPÍTULO32
CAPÍTULO33
CAPÍTULO34
CAPÍTULO35
Índice
CAPÍTULO36
CAPÍTULO37
CAPÍTULO38
CAPÍTULO39
CAPÍTULO40
CAPÍTULO41
CAPÍTULO42
CAPÍTULO43
CAPÍTULO44
CAPÍTULO45
CAPÍTULO46
CAPÍTULO47
CAPÍTULO48
CAPÍTULO49
CAPÍTULO50
CAPÍTULO51
CAPÍTULO52
CAPÍTULO53
Capítulo 1
É necessário retrocederes comigo até ao outono de 1827. Meu pai, como sabes, era um lavrador importante num dos condados do Norte; e eu, atendendo ao seu desejo tantas vezes manifestado, segui-lhe os passos, embora não muito por minha vontade, porque a ambição aconselhava-me a procurar outra carreira mais brilhante. A opinião que tinha de mim próprio segredava-me que o desprezar a sua voz dava em resultado sacrificar o meu talento ao amor pela terra e ocultar a lucidez da minha inteligência sob a copa das árvores. Minha mãe empregara os maiores esforços para me convencer de que eu poderia vir, um dia, a levar a cabo grandes cometimentos; porém, meu pai, que considerava a ambição como o mais seguro caminho para a ruina, e qualquer mudança apenas um termo para substituir a palavra perdição, opôs-se tenazmente a todo o plano que pudesse redundar numa melhoria de situação para mim ou para os outros. Afirmava-me que tudo isso não passava de disparates e na própria hora da morte exortou-me a continuar seguindo os seus passos, como ele seguira os de meu avô, e que a minha maior ambição fosse caminhar honestamente pela vida fora, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, e transmitir a meus filhos a herança paterna em condições, pelo menos, tão prósperas como aquelas em que ele ma deixava. Enfim: um lavrador ativo e honesto é um dos membros mais út eis à sociedade, e, dedicando a minha inteligência à cultura das minhas terras e aos progressos da agricultura em geral, beneficiarei não só eu próprio, mas também os meus parentes e dependentes, e, até certo ponto, a humanidade em geral; não terei, pois, vivido em vão. Com estas reflexões e outras semelhantes, procurava eu consolar-me, numa tarde fria, húmida e nevoenta, ao recolher dos campos a casa, em fins de outubro. Porém, o clarão de uma boa fogueira que eu avistava, através da janela da sala, concorreu mais para reanimar o meu espírito e reduzir ao silêncio o meu descontentamento do que todas as reflexões filosóficas e as boas resoluções que eu obrigara o meu pensamento a formular; porque é preciso não esquecer que eu nesse tempo era muito novo: tinha apenas vinte e quatro anos e não adquirira ainda, portanto, nem metade do domínio sobre mim próprio que hoje possuo, embora isso pareça não ter importância. Contudo, antes de dar entrada nesse bem-aventurado refúgio tinha primeiro de trocar as botas enlameadas por um par de sapatos cuidadosamente engraxados e o fato próprio para andar no campo por um casaco decente, além de outros preparativos que me pusessem à altura de me poder apresentar diante de gente educada, porque minha mãe, apesar de toda a sua bondade, era absolutamente intransigente em certos assuntos. Ao subir para o meu quarto, encontrei na escada uma rapariguinha de dezanove anos, com ar de esperta, uma figurinha rechonchuda mas muito engraçada, o cabelo em anéis luzidios a emoldurar-lhe a carita redonda, e olhos castanhos, não grandes, mas muito vivos. Escusado será dizer-te que era a minha irmã Rose. Bem sei que ainda hoje é uma mulher bastante interessante e, sem dúvida, sobretudo aos teus olhos, não menos formosa do que no dia feliz em que pela primeira vez a viste. Quem poderia prever que ela viria a ser, poucos anos depois, esposa de um homem nessa altura completamente desconhecido para mim, destinado porém a ser de futuro um amigo mais íntimo do que ela própria e mais confidencial que o pouco civilizado rapazote que me agarrou a melo do caminho, pela gola do casaco, a ponto de quase me fazer perder o equilíbrio, e que para castigo do seu atrevimento apanhou um bom soco na cabeça? A agressão não lhe produzia, todavia, qualquer estrago importante devido, provavelmente, ao facto de a cabeça dele ser não só mais que vulgarmente rija, mas estar ainda protegida por uma farta cabeleira de caracóis curtos e avermelhados que minha mãe dizia serem castanho-claros. Ao entrarmos na sala, encontrámos a minha boa mãe sentada ao pé do lume, na sua
cadeira de braços, fazendo meia, conforme era seu costume, quando não tinha nada mais importante em que empregar a sua atividade. Estivera varrendo a lareira e acendera uma boa fogueira para nos receber condignamente; a criada acabava de aparecer com a bandeja do chá e Rose trazia na mão o açucareiro e a caixa do chá, que fora buscar ao aparador de madeira escura que luzia, como ébano polido, à luz acolhedora que reinava na sala. — Até que enfim, cá estão os dois — disse minha mãe, voltando-se para nós sem interromper o trabalho dos dedos ágeis, fazendo mover rapidamente as agulhas. — Agora fechem a porta e venham para junto do lume enquanto a Rose prepara o chá; e digam-me lá o que fizeram em todo o santo dia, porque eu gosto muito de saber em que os meus filhos empregam o seu tempo. — Eu andei a amansar o potro ruço, e é uma empresa bastante difícil; também estive a dirigir a lavra do último restolho de trigo, porque o rapaz que anda com a charrua não percebe nada do assunto, e a pôr em execução um plano para conseguir esgotar, por completo e numa grande extensão, os terrenos baixos. — Isso é o que se chama ser um bom rapaz! E tu, Fergus, que andaste a fazer? — A apanhar texugos. E, em seguida, Fergus fez uma descrição pormenorizada da caçada e das proezas dos texugos, lutando contra os cãe s , à qual minha mãe parecia prestar grande atenção, a contemplar o rosto animado do filho com uma dose de admiração maternal que eu achava muito superior à que o assunto merecia. — Já estás em muito boa idade, Fergus, para fazeres mais alguma coisa do que isso — disse eu, mal apanhei ocasião, durante uma pausa momentânea, para poder intervir na conversa. — E que hei de eu fazer? — perguntou Fergus. — A mãe não me deixa ir para a marinha ou para o exército; eu estou decidido a não fazer outra coisa, exceto tornar-me tão insuportável para todos que, só para se verem livres de mim, hão de acabar por me deixar ir daqui para fora. A mãe passou-lhe a mão pelos cabelos, com o fim de o apaziguar. Ele resmungou e procurou mostrar-se aborrecido, em seguida ao que todos fomos tomar os nossos lugares à mesa do chá, obedecendo ao chamamento de Rose, já por três vezes repetido. — Agora tomem o chá, para eu depois lhes dizer o que tenho feito — disse Rose. — Fui visitar os Wilson; e foi pena tu não teres ido comigo, Gilbert, porque a Eliza Millward estava lá. — Ah, sim? E então? — Ora, nada de novo; nem te vou falar a seu respeito; só digo que a acho uma boa rapariguinha, até engraçada quando está bem disposta, e que não me importaria chamar-lhe... — Cala-te; cala-te, minha filha! O teu irmão nem pensa em fazer uma coisa dessas — disse minha mãe, a meia voz e levantando um dedo. — Então, nesse caso — continuou Rose — quero dar-lhes uma novidade importante que lá soube e que tenho estado morta por lhes dizer. Lembram-se de que, há de haver um mês, correu por aí que alguém ia arrendar Wildfell Hall? Que lhes parece isto? A casa já está habitada há mais de uma semanal E nós sem sabermos de nada. — É impossível! — exclamou minha mãe. — É simplesmente absurdo! — vociferou Fergus. — Mas é verdade. E apenas por uma senhora! — Santo Deus, minha filha! A casa está toda arruinada. — Mandou arranjar duas ou três divisões de maneira a torná-las habitáveis; e lá vive sozinha, isto é, com uma criada velha. — Ai, que pena! Isso estraga tudo, porque eu começava a ter esperanças de que ela fosse alguma bruxa — observou Fergus, ao mesmo tempo que ia preparando uma grossa
fatia de pão com manteiga. — Que patetice, Fergus! Mas não é esquisito, mamã? — Esquisito! A mim ainda me custa a crer. — Mas pode crer, porque a Jane Wilson viu-a. Foi lá com a mãe, que, é claro, mal lhe constou estar uma pessoa estranha na vizinhança, ficou logo sobre brasas para a ver e saber quem era. Chama-se Senhora Graham e está de luto; não de viúva, mas já de luto aliviado... e é muito nova; diz que terá uns vinte e seis anos e que é muito metida consigo. Fizeram altas diligências para saberem quem ela era, donde viera, e tudo o mais, mas nem a senhora Wilson, com a costumada persistência e os seus intempestivos golpes de mestre, nem a menina Wilson, com as suas manobras habilidosas, conseguiram apanhar-lhe a mais leve explicação, um comentário inesperado ou qualquer palavra pela qual pudessem ficar fazendo a mais pequena ideia da sua história, da sua situação ou da sua família. Além disso, mostrou-se para com elas tão reservada, embora dentro dos limites da boa educação, que bem perceberam que ela se sentira mais satisfeita ao vê-las sair que ao vê-las entrar. Mas a Eliza Millward disse-me que o pai tem a intenção de a ir visitar brevemente para lhe dar como pastor espiritual os seus conselhos, que desconfia serem-lhe muito necessários, porque, embora tenha chegado aqui no princípio da semana passada, não apareceu na igreja no domingo; e ela, a própria Eliza, há de pedir licença ao pai para o acompanhar, pois tem a certeza de que, de uma maneira ou de outra, há de tirar dela alguma coisa. Tu bem sabes, Gilbert, que ela é muito capaz disso. E nós também temos de lá ir, mamã; bem sabe que é o costume. — É claro, filha. Pobre criatura! Com certeza há de sentir-se muito isolada. — Pelo amor de Deus, tratem disso quanto antes; e não se esqueçam de indagar quantas colheres de açúcar ela põe no chá e como são as toucas e os aventais que usa. E tudo o mais que puderem averiguar, porque eu não sei como hei de viver enquanto não souber isso tudo... — disse Fergus com a maior serenidade. Mas se ele ficou na esperança de as suas palavras serem tomadas como uma prova de grande espírito, devia sofrer uma terrível desilusão, porque ninguém se riu. No entanto, o rapaz não se mostrou por isso desanimado, porque meteu para a boca uma boa dentada de pão com manteiga e ia engolir um gole de chá; nesse momento, achou ele próprio tanta graça ao que dissera, que teve de se levantar da mesa, à pressa, engasgado e atrapalhado, e sair da sala; um momento depois, ouvimo-lo a gritar, no jardim, muito aflito. Eu, pelo meu lado, como tinha fome, contentei-me em ir devorando o presunto, as torradas e o chá, enquanto minha mãe e minha irmã continuavam a conversar e a discutir as circunstâncias aparentes ou não aparentes e a história provável, ou não, da misteriosa dama; mas devo confessar que, depois do desastre acontecido a meu irmão, por uma ou duas vezes levei a chávena à boca e depu-la outra vez no pires sem me atrever a beber o chá com receio de uma explosão semelhante à que ele sofrera. No dia seguinte, minha mãe e Rose apressaram-se a ir apresentar os seus cumprimentos à bela reclusa, regressando, porém, pouco mais bem informadas do que ao sair de casa, embora minha mãe declarasse não dar o seu tempo por mal empregado, porque, apesar de não ter tirado muito proveito da visita, pelo menos tinha com ela feito algum bem, e isso já não era pouco. Assim, gabou-se de ter dado conselhos úteis, que esperava não fossem desatendidos, porque a senhora Graham, apesar de pouco ter dito e de se ter mostrado bastante ciosa da sua opinião, não lhe parecia incapaz de refletir; no entanto, acrescentou que, a dizer a verdade, não fazia ideia da terra onde ela teria vivido até à data, pois, coitada, demonstrava uma ignorância absoluta sob certos pontos de vista e nem ao menos tinha o bom senso de se mostrar envergonhada dessa ignorância. — Mas sob que pontos de vista, minha mãe? — Em questões de governo da casa e todo aquele apuro na maneira de cozinhar e outras coisas semelhantes que uma senhora tem obrigação de conhecer a fundo, quer tenha
de as executar ela própria ou de as ensinar a fazer. Dei-lhe, em todo o caso, algumas informações de bastante utilidade e receitas excelentes, cujo valor ela me pareceu incapaz de apreciar, pois pedia que não me desse a esse incómodo, visto levar uma vida tão simples e sossegada que tinha a certeza de nunca lhe aparecer ocasião de as utilizar. «É possível que assim seja, minha querida senhora, isto são no entanto coisas, que toda a senhora respeitável deve saber; além disso, embora agora viva sozinha, nem sempre assim será; já foi casada e é provável (posso até afirmá-lo) que volte a sê-lo». «Aí é que está enganada, minha senhora», respondeu-me ela com certa altivez, «pois tenho a certeza de que nunca tal acontecerá». Mas eu respondi-lhe que conhecia a vida melhor do que ela. — Alguma viuvinha romântica, ao que parece — observei eu — que veio enterrar-se naquele casarão para chorar a perda do ente querido e desaparecido... Mas provavelmente isso não dura muito. — Também sou da mesma opinião — disse Rose — porque me não pareceu, afinal, nada inconsolável; além disso, é muito bonita, mesmo muito. Deves procurar vê-la, Gilbert; tenho a certeza de que a hás de achar uma verdadeira beleza, embora seja impossível descobrir-lhe qualquer parecença com Eliza Millward. — Eu admito que haja moças muito mais bonitas que Eliza, mas não mais encantadoras. Admito, igualmente, que ela esteja longe de ser perfeita, mas o que afianço também é que, se fosse mais perfeita, seria menos interessante. — E preferes então os seus defeitos às perfeições de outras pessoas. — Exatamente, excetuando a minha mãe aqui presente. — Ai, meu Gilbert, muita asneira dizes tu! Eu bem sei que não pensas nada assim; nem é natural que o penses — disse minha mãe, levantando-se e saindo da sala sob qualquer pretexto de ordem caseira, mas na realidade para evitar a contradição que via aflorar-me aos lábios. Em seguida, Rose obsequiou-me, dando-me mais detalhes a respeito da senhora Graham; o seu aspeto, os modos, a maneira de vestir, e até a mobília que guarnecia a sala onde se encontrava, tudo me foi minuciosamente descrito com mais clareza do que eu desejaria, e como não dei grande atenção ao que Rose me disse, não poderia repetir as suas informações. O dia seguinte era um sábado e, no domingo, todos estavam com grande curiosidade de saber se a formosa desconhecida tomaria em consideração o conselho do vigário, apresentando-se na igreja. Confesso que eu próprio não deixei de deitar os olhos para o banco que pertencia de direito aos habitantes de Wildfell Hall e cujas almofadas e estofo vermelho tinham deixado, durante tantos anos, de ser tratados e substituídos; por cima do banco, o sombrio escudo de armas com as suas lúgubres guarnições de fazenda preta atacada pela ferrugem parecia contemplar com feroz catadura os que nele se sentavam. E ali vi, de facto, sentada uma figura senhoril, vestida de preto. Tinha o rosto voltado para mim, e nesse rosto, uma vez visto, alguma coisa havia que incitava a um exame mais demorado. Tinha o cabelo negro como a asa do corvo e disposto em longos anéis luzidios, um penteado muito pouco usado nessa época, mas sempre gracioso e que muito bem lhe ficava; a pele era linda e bastante pálida; os olhos não lhos pude ver porque, como estava inclinada sobre o livro de orações, as pálpebras descaídas e as longas pestanas negras ocultavam-nos; porém, as sobrancelhas que os encimavam eram expressivas e muito bem desenhadas; a fronte era ampla e intelectual, o nariz aquilino e as feições, em geral, podiam ser consideradas irrepreensíveis, notando-se apenas as faces e os olhos ligeiramente encovados. Os lábios, embora finamente desenhados, eram delgados de mais e tão fortemente comprimidos que me pareceram indicar um génio, não dos mais acomodatícios; fiz então para comigo a seguinte observação: «Prefiro admirar-te à distância, bela dama, a partilhar contigo o meu lar». Justamente nessa ocasião, ergueu ela os olhos, que se encontraram com os meus;
porém, eu não quis desviar o olhar e ela voltou a fixar os seus no livro, mas com uma momentânea e indefinível expressão de desprezo que conseguiu exasperar-me a um ponto difícil de explicar. «Supõe-me provavelmente algum atrevido bonifrate», pensei de mim para mim. «Pois espera que hás de mudar em breve de opinião, se eu entender que vale a pena meter-me nisso». Então acudia-me à ideia serem estes pensamentos realmente muito impróprios do lugar em que nos achávamos e que a minha maneira de proceder na presente ocasião estava longe de ser o que devia. Antes, porém, de fixar a atenção no ofício divino, relanceei os olhos pela igreja, a ver se alguém me estaria observando; mas não... todos aqueles que não estavam entregues à leitura das suas orações tinham os olhos fitos na senhora desconhecida e nesse número estavam incluídas minha mãe, minha irmã, a senhora Wilson e a filha. A própria Eliza Millward estava sorrateiramente observando pelo canto do olho aquela que nesse dia era objeto da curiosidade geral. Em seguida voltou para mim os olhos, teve um sorrisinho tolo e baixou-os modestamente sobre o livro de orações, procurando tomar um ar de grande seriedade. E lá estava eu mais uma vez faltando aos meus deveres, do que o meu atrevido irmão me avisou, dando-me um murro disfarçado nas costelas. Naquela ocasião só pude, é claro, mostrar o meu ressentimento pelo insulto, pisando-o, adiando a minha vingança para depois de sairmos da igreja. Ora, Halford, antes de terminar esta carta quero dizer-te quem era Eliza Millward; essa moça era a filha mais nova do cura da nossa terra e uma pessoa para mim bastante interessante; e ela sabia-o, embora eu nunca tivesse chegado a dar-lhe qualquer explicação sobre o assunto e nem sequer tivesse intenção firme de o fazer, pois minha mãe, que entendia não haver naquelas vinte milhas em redor moça digna de prender a minha atenção, não suportava a ideia de eu me ligar a uma criaturinha tão insignificante que, além de outros defeitos, tinha o de não possuir nem ao menos meia dúzia de libras de seu. Eliza era delgada, sem contudo se lhe poder chamar magra; tinha um rosto pequenino e quase tão redondo como o da minha irmã; a cor da pele era aproximadamente a mesma, mas mais delicada e menos rosada, o nariz um tudo nada arrebitado e feições pouco regulares; era portanto mais interessante do que verdadeiramente bonita. Não posso deixar de mencionar os olhos, que eram realmente o seu maior atrativo, pelo menos considerados fisicamente; compridos e estreitos, pretos ou pelo menos castanhos muito escuros, mudavam constantemente de expressão, ora mais que naturalmente — dizia eu quase diabolicamente — maliciosos, ora irresistivelmente encantadores e, por vezes, apresentando ao mesmo tempo as duas expressões. Tinha uma voz muito meiga e quase infantil e um modo de andar tão suave e ligeiro como o do gato; porém, as suas maneiras lembravam mais a graça de um gatinho, ora indolente e malicioso, ora tímido e reservado, conforme a sua disposição. Sua irmã Mary, uns poucos de anos mais velha e bastante mais alta, tinha uma figura muito mais cheia e era pessoa sem pretensões de espécie alguma; não se tinha na conta nem de bonita nem de espirituosa e contentava-se em ser uma boa moça, simples, sossegada e sensata, tratando com a maior paciência a mãe durante uma doença muito prolongada e fatigante, e tendo passado desde esse tempo a governar a casa e a suportar todo o peso das responsabilidades da família. O pai reconhecia-lhe o valor e depositava nela a maior confiança; os gatos, os cães e os pobres adoravam-na, porém, o resto da família e a gente conhecida não lhe davam nem apreço nem importância. O reverendo Michael Millward era homem de idade, alto, de aspeto pesado e volumoso, rosto amplo, quase quadrado e feições maciças; usava, por costume, chapéu desabado, trazendo sempre consigo um forte bengalão e vestindo geralmente calção e polainas, reservando para ocasiões solenes as meias de seda preta. Era homem firme nos seus princípios, cheios de preconceitos inabaláveis e hábitos imutáveis, intolerante com