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Novo dicionário da língua portuguesa

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The Project Gutenberg EBook of Novo dicionário da língua portuguesa, by Cândido de Figueiredo This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: Novo dicionário da língua portuguesa Author: Cândido de Figueiredo Release Date: April 2, 2010 [EBook #31552] Language: Portuguese Character set encoding: UTF-8 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DICIONARIO DA LINGUA PORTUGUESA *** Thanks to Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões, and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) Online searching available provided by Dicionário Aberto at http://dicionario-aberto.net Novo Diccionário da Língua Portuguesa Candido de Figueiredo 1913 Por favor, não imprima este documento! As árvores estão a morrer!
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The Project Gutenberg EBook of Novo dicionário da língua portuguesa, by
Cândido de Figueiredo
This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.net
Title: Novo dicionário da língua portuguesa
Author: Cândido de Figueiredo
Release Date: April 2, 2010 [EBook #31552]
Language: Portuguese
Character set encoding: UTF-8
*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DICIONARIO DA LINGUA PORTUGUESA ***
Thanks to Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões,
and the Online Distributed Proofreading Team at
http://www.pgdp.net (This file was produced from images
generously made available by National Library of Portugal
(Biblioteca Nacional de Portugal).) Online searching
available provided by Dicionário Aberto
at http://dicionario-aberto.netNovo Diccionário da Língua Portuguesa
Candido de Figueiredo
1913
Por favor, não imprima este documento! As árvores estão a morrer!iiPreâmbulo
Redigido em harmonia com os modernos princípios da Ora, desde que eu senti em mim o mofino sestro de
sciência da linguagem, e em que se contém quási o dôbro cultor das letras, preoccupou-me e dissaboreou-me
semdos vocábulos até agora registados em todos os diccioná- pre a falta de um vocabulário, que me dirigisse no estudo
rios portugueses, além de satisfazer a todas as graphias dos mestres da língua, desde Fernão Lopes até Camillo;
legítimas, especialmente a que tem sido mais usual e na applicação de milhares de lusitanismos, conservados
aquella que foi prescrita officialmente em 1911. amoravelmente pelo povo de todas as nossas províncias,
mas desconhecidos dos diccionaristas; na avaliação da
NOVA EDIÇÃO - 1913 nossa riquíssima technologia rural, da technologia
artística e scientífica; no conhecimento da fauna e da flora do
Essencialmente refundida, corrigida e copiosamente
nosso ultramar e até do nosso próprio continente.
ampliada.
Abria os diccionários menos imperfeitos ou de melhor
nomeada, — O Contemporâneo, por exemplo, — e nem
ao menos alli se me deparavam vocábulos de uso corrente
Razão da obra e vulgaríssimo, como paulada, bruxedo, deferimento,
saliência, caudelaria, palheiro, plagiar, plangente, granjear,
A história dos diccionários da língua portuguesa, de par prefaciar, desvirar, saguão, agrupamento, propositado,
comalgunsdeploráveisdocumentosdeinsciência, delevi- promptificar-se, reconsiderar, reproductor, ruço, têxtil,
andade e de mera exploração mercantil, offerece á nossa empanturrar, guerrilheiro, etc., etc.
admiração perduráveis monumentos de muito saber, de De centenares de vocábulos, com que Vieira, Filinto
laboriosas e inestimáveis investigações, de honestíssimo e Camillo enriqueceram a sua língua, raramente se me
e profícuo trabalho. deparava um sequer nos léxicos portugueses!
Está certamente na consciência de todos o altíssimo Da antiga e moderna technologia das artes e sciências
serviço, prestado ás letras nacionaes por Bluteau, que, rara notícia me davam os lexicógraphos nacionaes.
lutando com a carência de trabalhos similares na sua pá-
Dalinguagempopular,privativadestaoudaquellaprotria adoptiva, inaugurou brilhantemente a lexicographia víncia, tratára um ou outro literato, um ou outro
folcloportuguesa; por Moraes e Silva, cuja obra foi, relativa- rista; os diccionaristas, êsses não desceram da esphera
mente aos fins do século XVIII, invejável título de gló- da linguagem erudita, restringida, ainda assim, á quinta
ria; pelos obscuros e illustradíssimos autores do primeiro parte da linguagem dos eruditos.
e único volume do Diccionário da Academia Real das Isto, quanto á pobreza de vocabulário. Quanto a erros
Sciências, esmagados ante-sazão pela enormidade e pêso de doutrina, aliás communs aos melhores diccionários,
daquelle meritório emprehendimento; e ainda em tempos não me podiam êlles surprehender, visto como um
diccimais próximos de nós, pela clara e sisuda intelligência, onário, não obstante a maior autoridade e competência
que se reconhece na organização do Diccionário Contem- do seu autor, é o trabalho literário mais susceptível de
porâneo. imperfeições, e ocioso será o justificar esta these.
Não menciono mais, porque só adduzo exemplos. Por isso, embora o respeitável Moraes e outros
distinInfelizmente, todosquesabemlêrterãocertamenteob- toslexicógraphoserremaodefinir licranço, pesebre, teiró,
servado que, sendo cada diccionário geralmente vazado croca, pieira, calambrá, rocló, lacrau, baceira, cerva,
manos moldes dos diccionários que o precederam, succedeu niqueira, corça, torneja, gallacrista, etc.; embora
regisque a língua andou e os diccionários pararam. tempalavrasquenuncaexistiram, como igarvana, garna,
E pararam, sem que ao menos tivessem conglobado fomo, fangapena, marapinina, frondíbalo, etc.; embora
em vocabulário a maior parte dos thesoiros, dissemina- mandem lêr adípe, (que é ádipe), alcácel, (que é alcacél),
dos nos nobiliários, nos cancioneiros, nas chrónicas qui- caguí, (que é çagüí, ou sagüí), mucuna, (que é mucuná),
nhentistas, em Gil Vicente, em Bernardim Ribeiro, em gombo, (que é gombô), etc.; embora perpetrem manifesto
Vieira, em Filinto... arbítrio e notáveis irregularidades em prosódia, tornando
Pararam, e a esphera da linguagem foi-se ampliando ora paroxýtonas, ora proparoxýtonas, palavras de
formasuccessivamente, não só por effeito de numerosas deri- ção similar, como hydrocéle, epiplócela, etc., etc., não era
vações internas, senão também, e principalmente, pela por esse lado que mais facilmente se justificaria o
acformação e diffusão da moderna technologia scientífica, créscimo de mais um diccionário a tantissimos que
enxaartística e industrial, pela permutação internacional de meiamoescassomercadonacional; mas, sim,
pelaassommuitas fórmulas, pela febre do neologismo, e pela ne- brosa deficiência de vocábulos ou artigos, imprescindíveis
cessidade de dar nome a coisas e factos que nossos avós em qualquer inventário da língua nacional.
desconheceram. E, a êste propósito, não será ocioso memorar que
muiiiiiv
tos diccionaristas conheceram e usaram, no decurso das dêste assêrto, mas poucos bastarão. Nos escritores e
masuas obras, expressões que não registaram no competente nuscritos antigos deparam-se-nos expressões que os
erulugar do vocabulário, ou porque, redigindo um artigo, ditos têm relegado para os domínios do archaísmo ou,
nãosouberamrecordar-sedostermosqueusaramnoutro, pelo menos, da linguagem desusada. Taes são: claror,
ou porque, distribuida a obra por collaboradores diver- luxar (sujar), grossor, gerecer-se, calleja, almofia, doairo,
sos, o autor dos artigos relativos á letra A, por exemplo, traguer (trazer), nembro, estrancinhar (usado no
Cannão conhecia os termos de que se serviria o autor dos cioneiro da Vaticana), confita, (na Eufrosina), engaço
artigos da letra Z. (ancinho), ceivar, orreta, gocho (nas comédias de Simão
E assim é que, na grande obra de Frei Domingos Vi- Machado), sorça (nas Lendas da Índia), adôrádo,
busaeira, —esómerefiroaosartigosdeumaletra, —debalde ranhos, (em Gil Vicente), agra, bramante (por barbante),
procuraremos pelagiano, perómelos, phene, patigabiraba, quartapisa, seto, ril, tenreiro, gaiar, guaiar, legão,
cofipicaveco, plumbear, panarei, etc., etc. E, contudo, o au- nho, inorar, etc. E contudo, quem percorrer as nossas
tor ou os seus ampliadores conheceram e empregaram províncias, sobretudo quem penetrar nos desviados
rinaquelles termos, ao definir marmanjo, albatroz, batrachio, cões, donde o caminho de ferro e a concomitante
civilibenzina, côco, azerar, calhamaço, etc. No bom Diccioná- zação ainda não expungiram tudo que há de usanças e
rio Contemporâneo, inutilmente procuraremos os vocá- locuções avoengas, ouvirá pronunciar commummente no
bulos assexuado, arachnidas, herva, carácias, chenopó- Algarve claror, luxar (sujar), grossor; na Beira,
gerecerdias, spermatozoides, camomilla, gorilla, gálleas, parro- se, calleja, almofia, doairo, traguer (trazer); no Minho
nembro, estrancinhar, confita, engaço (ancinho); no Ri-chiano e parróchia, trachinídeos, decapódeos,
escomberoibatejo, ceivar; em Trás-os-montes, orreta, gocho, sorça,des, avessar, termillionésimo, azaro, lóio, etc.; e contudo
adôrádo, busaranhos; em Aveiro, agra, etc. E, em quásio autor ou os autores da obra serviram-se delles, com
todas as províncias poderá ouvir as dicções antigas in-fundamento ou sem êlle, ao definir abelha, ácaro,
alquecréu, descudar, hétigo; bellos lusitanismos como verguio;quenje, ambeta, anserina, antherídea, anthêmis,
anthroe, mormente em Trás-os-montes, puros latinismos, comopomorphos, aparinas, aparrochiar-se, aranha, astacites,
hedra, por hera. Etc.atum, avessado, avo, azeredo, azulóio, etc., — e só me
refiro a vocábulos da letra A. Ainda cheguei a tempo para incluir no inventário da
Em taes casos, é a falta de méthodo, e sobretudo língua nacional milhares de verbas, que àmanhan
estariamsonegadasporessainsaciávelcabeçadecasal, queseo facto ou a necessidade de muitos collaboradores da
chama civilização, o que, desculpando-se com os seus in-mesma obra, o que determina sensíveis lacunas, sem
detuitos nobilíssimos, procura locupletar-se á custa de tudosabono da competência e saber de quem dirige a obra.
e apesar de tudo.E todavia taes casos, embora dignos de nota, não
accusam, como é de vêr, as principaes deficiências dos nos- Àmanhan seria tarde; e exceptuando o que Camillo
sos mais estimados diccionários: as capitaes salvou com os seus livros e o que algum devotado
folreferem-se á linguagem popular, á linguagem culta, an- clorista tem recolhido acaso, pouco ficará, entre o povo,
tigaemoderna,átechnologiascientífica,etc.,efoiespeci- da bôa e antiga linguagem portuguesa. Falo por
expealmente neste campo que eu, durante vinte e dois annos, riência: há trinta annos, ainda aprendi nas aldeias da
despendi larga parte dos meus cuidados e trabalho. Beira numerosas fórmas de dizer, de perfeito cunho local
e de acentuado sabor português; hoje, parte dellas, não
as oiço por lá, e acho-as substituídas ás vezes pela
gíria da cidade e pelo neologismo, ora inútil, ora tolíssimo.Materiaes da obra
A locomotiva, ou antes, a locomotora, esfumou aquelles
Nado e criado entre as serranias da Beira, nunca achei cerros e valles, e a vegetação secular vai cedendo terreno
exaggerado o parecer de Camillo, quando o celebrado es- a plantas novas, entanguidas e ephêmeras...
critor chamava ao povo o melhor dos nossos clássicos; e, Nem tudo porém se perderá; e, sobretudo se houver
tendo ao depois residido annos nas provincias do Doiro, devoção para colher e archivar os numerosos
provinciado Alentejo e da Extremadura, mais se me arraigou a nismos, de que, apesar dos meus esforços, não consegui
convicção de que o povo é realmente um grande mestre tomar conhecimento e que porventura ainda vão
resisda língua, embora êlle o seja inconscientemente, e em- tindo á foice que os ameaça, a Philologia terá nelles
valibora mui raramente o hajam consultado diccionaristas, osos subsídios para a história crítica da língua, e a língua
a revêzes preoccupados de prosápias acadêmicas. poderá continuar a ufanar-se da sua excepcional
flexibiDesadorada pelos lexicógraphos, a linguagem popular lidade e belleza, e do seu numeroso vocabulário,
irrivalimereceu-me longos e especiaes cuidados, que reverteram zável talvez, se o defrontarmos com o das outras línguas
na colheita de mais de seis mil vocábulos e locuções que românicas.
não andavam nos diccionários, mas que o povo tem
guardado religiosamente por essas províncias em fóra. * * * * *
É muitas vezes incerta a origem ou formação dessas
expressões; mas, muitas outras vezes, ali se nos deparam Na classificação dos provincianismos portugueses, nem
preciosos lusitanismos, apropriadas dicções, e até nume- sempre pude seguir uma norma absolutamente rigorosa.
rosos termos, que os eruditos têm tido a ingenuidade de A um termo, que se ouve pelo menos em Mogadoiro,
capitular de archaísmos! em Miranda ou em Vinhaes, chamei provincianismo
trasPoderiam centuplicar-se os exemplos justificativos montano, semqueissosignifiquequeêlleéusadoemtodav
aquella província ou que não é usado fóra della. Uma vez gallicismos, passando êstes ao domínio da língua. Basta
ou outra, — raramente, — designo a localidade, (termo citar garção, abrevar, minhão (pequeno), mancar
(falde Alcobaça, termo de Coímbra, etc.), por tôr a proba- tar), etc.
bilidade de que o termo respectivo só ali é usado. Tam- Um purista, que vivesse há quatro ou cinco séculos,
bém, quando chamo a um vocábulo provincianismo bei- devia sentir ondas de indignação, quando visse começar
rão, quero dizer que êlle é falado, pelo menos, numa das a usar-se libré, arranjar, ferrabrás, marau, freire, grifa,
duas Beiras, (Alta e Baixa), ou até só em parte de uma genebra, bilhete, betarraba, besonha, febre (adj.), petigris,
dellas. Da mesma fórma, há provincianismos alenteja- poteia, poterna, abreuvar, assembleia, petimetre, grelo,
nos, que não são conhecidos no Alto Alentejo, e outros, gaio (alegre), gage,greu, moéla, gredelém, etc., porque
que os distritos de Beja e Portalegre não conhecem. todas essas palavras eram puras francesias; hoje... são
Vá isto á conta de esclarecimento, como de quem, as- portuguesas. ¿Quem sabe o que succederá aos mais
insentando numa classificação que o não satisfaz absoluta- toleráveis gallicismos de hoje?
mente, não achou processo mais simples nem mais pró- E possível que os alludidos neologóphobos abranjam na
ximo da verdade. suaphobiaoregisto, queeufaço, demuitoscentenaresde
termos de gíria, como estranhos á linguagem othodoxa e
* * * * *
grave dos pontífices literários. Aos taes bastará ponderar
que não há pontífice literário que inflija excommunhãoMas a linguagem portuguesa não é só a linguagem
pomaior ao vocabulário da gíria, porque está relacionadopular de hoje; é também a linguagem popular antiga, e
por muitos vínculos á linguagem geral, offerece por vezesa linguagem culta, antiga e moderna.
o facto notável de derivações erudítas e tanto se abeiraSôbre a linguagem popular antiga, foram-me
excellenamiúde da linguagem popular, que se torna diffícil traçartes subsídios os autos e comédias de Gil Vicente, António
a divisória.Prestes, Jorge Ferreira, Simão Machado; e para o estudo
Estão neste caso as cangalhas (óculos), catrafilarda nossa linguagem culta de todos os tempos, não foi sem
grande assombro que eu achei, ainda inexplorados pelos (prender),estalo (bofetada), esticar (morrer), massa
(didiccionaristas, não só os cancioneiros e chrónicas dos pri- nheiro), penante (chapéu), pireza (fuga), refilar (reagir),
meiros tempos da nossa língua, não só Fernão Lopes e tóla (cabeça), valente (alavanca para arrombar), etc.,
Gil Vicente, senão também os monumentos literários de etc.
Vieira, Francisco Manuel, Filinto, José Agostinho, Casti- Accrescentando-se que os diccionaristas e philólogos,
lho, Latino, Herculano, Camillo, e tantos outros. Só em comoBluteau,Diez,Cornu,Schuchardt,Michel,emuitos
António Vieira, depararam-se-me mais de quatrocentos outros, têm dado ao calão ou gíria a importância que
vocábulos, que eu nunca vira em diccionários. Em Gil os ingênuos poderão negar-lhe, nada mais opporei aos
Vicente e Filinto, mais numerosa foi ainda a colheita. reparos, com que, a propósito de gíria, foram recebidas
E nada desperdicei do que fui colhendo: archaísmos e as primeiras fôlhas desta obra por um ou outro crítico
neologismos, derivações violentas e até erróneas, termos inoffensivo e anónymo.
de significação duvidosa ou obscura, tudo alphabetei e
reproduzi, julgando cumprir um dever. * * * * *
Bem sei que os menos experientes em trabalhos desta
Não se limitam os meus estudos e investigações á lin-natureza hão de acoimar-me de nimiamente tolerante,
guagem escrita e falada no continente português: — Ex-com respeito a locuções injustificáveis. Mas ao
diccionaploreitambémalinguagempopulardosarchipélagosaço-rista não impende o tolerar ou vedar o uso ou abuso de
reano e madeirense; e, detendo a attenção na linguagemtal ou tal locução: o diccionarista tem, como dever
capivulgar entre os Portugueses das nossas possessões ultra-tal, o reproduzir factos e interpretá-los. Se entende que
marinas, realizei larga colheita de expressões locaes, con-um vocábulo está corrompido ou que é mal formado, se
cernentes a usos, costumes, administração pública, ves-o julga neologismo inútil ou disparatado, consigna o que
tuário, ceremónias e crenças indigenas de Angola, Mo-entende, mas regista o vocábulo.
Os próprios mestres têm extravagâncias, que ao dicci- çambique, Estado da Índia, Macau e Timor.
onarista não é lícito expungir. Vejam o manti-costumes, Mas o português não é sómente a língua de Portugal
o mil-lindo, o mil-gamenho, o mulhermente de Filinto, o e das suas possessões: fala-o uma grande nação, que se
lucreciamente de Camillo, etc. emancipou da nossa velha soberania, mas que não
enjeiMas onde a crítica fácil mais convictamente me alve- tou o idioma, com que levámos a civilização europeia aos
jará é na inscripção, que eu faço, de gallicismos into- sertões da América do Sul.
leráveis. Não alongarei justificações, afóra o que dito
SuccedeporémqueoportuguêsdoBrasilnãoéprecisafica sôbre a missão do consciencioso diccionarista; mas mente o português europeu: recebeu numerosos termos
apraz-me notar que, embora a francesia e o barbarismo da população indígena, e o tupi entrou como elemento
em geral não sejam defeitos vulgares em livros meus, eu constituinte no organismo da moderna linguagem
brasinem sempre condemno o estrangeirismo que não pratíco. leira. Ora, desde que um diccionário é destinado a todos
Por uma consideração: é que nós não sabemos se o galli- os povos que falam português, não póde prescindir dos
cismo,hojeintolerável,seráàmanhanpalavraportuguesa termos brasílicos, que são inseparáveis da linguagem
pore, como tal, fará parte do thesoiro da língua. tuguesa, praticada além do Atlântico.
E esta incerteza é confirmada pela história. Raro será Consultei portanto vocabulários brasileiros; li poétas,
o clássico, antigo ou moderno, que não tenha perpetrado romancistas, críticos e grammáticos daquella nação; faleivi
pessoalmente com muitos brasileiros, e, de todas estas di- nica geral: — Num diccionário da língua, ¿até onde
deligências resultou para êste Diccionário o registo de mais veria chegar o registo dos seres vegetaes, dos seus órgãos
de sete mil brasileirismos, que nunca haviam entrado em e dos seus phenómenos biológicos? A quem deveria eu
diccionários da língua portuguesa. seguir nas classificações do reino vegetal? Linneu?
DeNote-se entretanto: nem todos os termos, a que eu Candolle? O Congresso de Paris de 1867?...
apponho a nota de brasileirismos, e que como taes são Pela sua importância collectiva e scientífica, aquelle
considerados pelos mais conspícuos vocabularistas, como Congresso impunha-se-me naturalmente com as suas
deBeaurepaire-Rohan, provieram dos tupís ou fôram cria- cisões; mas a classificação que propôs, — classe,
subdos por brasileiros. Muitos dêlles são velhos portugue- classe, cohorte, sub-cohorte, ordem, sub-ordem, tribo,
sismos, que partiram daqui com os descobridores e co- sub-tribo, gênero, sub-gênero, secção, sub-secção, espécie,
lonizadores das terras de Santa-Cruz, e que lá vivem e sub-espécie ou prole, variedade, sub-variedade, variação,
prosperam ainda, sendo aqui já esquecidos ou mortos. sub-variação, planta, — além de se me figurar um tanto
Assim é que a conjunção si que, no português, é hôje casuística, obrigar-me-ia a minúcias pouco compatíveis
privativa do Brasil foi usada por clássicos nossos; usou- com a precisão, simplicidade e clareza que me cumpria
a, por exemplo, Garcia da Orta, nos seus Collóquios. O observar; eassim,
reduzindotodososgrausdaquellaclasvocábuloperendengues, senãopartiudecá, foidelárece- sificação ao menor número possível sem offensa da
sciênbido há muito e entrou no português dos mestres; usou-o cia, acostei-me á simples e clara taxinomia das familias,
Filinto, pelo menos. A geriza, o agir, o faneco (pedaço tribos, gêneros e espécies.
de pão), a alfafa ou alfaifa, o guaiar, etc., são bons e Noqueeurespeitei, quantopude, oreferidoCongresso,
velhos vocábulos portugueses, de que nós nos esquecê- foi em preferir a terminação áceas á terminação ídeas,
mos quási, mas que os Brasileiros, para vergonha nossa, íneas, íceas, etc., ao designar famílias vegetaes:
amomásabem alimentar e prezar. Sob êste ponto de vista, a ceas, em vez de amómeas;lauráceas, em vez de lauríneas;
inscripção de muitos vocábulos brasileiros equivale, creio rhamnáceas, em vez de rhâmneas; myrtáceas, em vez de
eu, á rehabilitação pública de alguma coisa, injustamente myrtíneas, etc., respeitando embora as fórmulas
consa1 gradas das gramíneas, leguminosas, labiadas, etc.comdemnada pela ingrata pátria...
Mas não eram simplesmente taxinómicas as
difficulda* * * * * des que a Botânica me oppunha: provinham também da
amplitude numérica, que, num diccionário da língua, se
Para a inscripção da technologia scientífica, de pouco deveria dar aos gêneros e espécies do reino vegetal.
me valeram os lexicógraphos portugueses que escreveram A tal ponto se tem desenvolvido há um século o
esantes de mim. tudo da Botânica que, não sendo conhecidos ainda 2:000
A tal respeito, foram sempre vulgares as queixas de gêneros em tempo de Jussieu, (fins do século XVIII),
professores e estudiosos contra a falta de um vocabulá- o número dêlles sobe hoje a mais de 8:000, segundo o
rio nacional, que comprehendesse com alguma largueza cálculo de Ducharte; e orça-se em 600:000 o número das
a technologia mais corrente entre os homens de sciência. plantas actualmente conhecidas! Há cincoenta annos, em
Dei-me ao trabalho incalculável de estudar nas fon- tempo de Lasegues, nem 100:000 se conheciam aínda.
tes respectivas a technologia botânica, geológica, anató- É verdade que muitos milhares de plantas aínda não
mica, philosóphica, médica, chímica, radiográphica, etc.; perderam a sua designação exclusivamente scientífica e
e muitas vezes, á mingua de competência encyclopédica, difficilmente se adaptariam dêsde já á nossa linguagem
tive de me soccorrer da competência e obsequiosidade de vulgar; mas muitíssimas há, cujo nome é perfeitamente
muitos dos nossos mais notáveis homens de sciência, aos romanizável, comooutrashá, emqueadesignaçãovulgar
quaes se deve certamente o melhor quinhão nos serviços e a scientífica precisamente coincidem, tão estreito é o
que êste livro possa prestar aos estudiosos de technologia parentesco entre o português e o latim.
scientífica. Occorri á difficuldade, conciliando, quanto em mim
Confessarei, sem hesitar, que uma das sciências, em coube, a conveniência, se não necessidade, de
enriqueque se me depararam maiores dificuldades, foi a Botâ- cer um diccionário da língua com um amplo onomástico
botânico, eaimpossibilidadederealizarnessediccionário
1De passagem advertirei que ao diccionarista consciencioso mais
o que aínda não conseguiram os próprios vocabularistas
de uma vez se deparam difficuldades no registo dos vocábulos
brabotânicos.sílicos. Como os Tupis não tinham língua escrita, muitos
vocábulos, que delles procederam, apparecem hoje escritos por mais E assim, quanto á Botânica geral, registei com
inuside uma fórma, segundo o arbítrio de quem escreve. Assim é que, tada amplidão o onomástico das famílias e dos gêneros,
— referindo-me apenas a alguns vocábulos da letra G, — vejo na
e só me detive nas espécies que se recommendam pelas
imprensa do Brasil as variantes gopiara egupiara, gariroba
eguarisuas qualidades medicinaes, ornamentaes, etc.roba, gurandirana e guarandirana, gurejuba e gurijuba, guaiamum
e goiamum, goiaba e guayaba (fórma preferida por Beaurepaire- Quanto porém á Botânica portuguesa, continental e
Rohan), etc. colonial, e quanto á brasileira, tudo me
aconseSobretudo longe do Brasil, não é nada fácil decidir qual das
varilhava que registasse quanto as minhas investigações meantes de um vocábulo brasílico é a exacta ou, pelo menos, a
preferível. Em taes condições, julgo que andei bem avisado, registando as deparassem.
variantes que se me depararam, e remetendo o leitor para a fórma Neste ponto, e ao passo que noutros diccionários só se
vocabular, que mais corrente se me afigurava. A exegese dos
erudihavia dado plausível attenção à Botânica europeia, tive a
tos brasileiros, — que os há e muitos, — poderá resolver a dúvida
satisfação de trazer para a lexicographia numerosíssimasem última instância, e os seus acórdãos acatarei como devo.
(Nota desta 2ª edição). espécies da nossa flora africana, asiática e oceânica, bemvii
como da flora brasileira. No Museu da Sociedade de Ge- * * * * *
ographia, nos jardins botânicos da Escola Polytéchnica
de Lisbôa e da Universidade de Coimbra, nos livros de Com a Entomologia, vi que se davam factos
análoGarcia da Orta, Capello e Ivens, Serpa Pinto, Sisenando gos. Se eu me despreoccupasse de outras considerações
Marques, Stanley, Henrique de Carvalho, Levingstone, e attendesse exclusivamente ao plausível intuito de
regisFicalho, Lopes Mendes, Pedroso Gamito, Dalgado, e ou- tar vocábulos que não há noutros diccionários da língua,
tros, pude colher notícia de muitos centenares de espécies ampliaria desmedidamente a colheita que fiz naquella
especialidade scientífica. Tenho effectivamente ao meu al-vegetaes, que ainda hoje valorizam o nosso império
cocanceosnomesdemilharesdeinsectos, nomesqueeunãolonial e que, pela primeira vez, enriquessem agora um
registo, não só porque o bom senso e a lexicologia estabe-diccionário da língua; e, para o largo registo que faço
lecem limites entre um diccionário da língua e um dicci-da flora brasileira, de muito me serviram os largos de
onário especial, senão também, e principalmente, porqueestudos do Dr. Caminhoá, de Del-Vecchio, de Araújo
procurei dar ao meu trabalho a possível unidade e refugirAmazonas, de Brás Rubim, de Beaurepaire-Rohan, etc.
ás desproporções, de que enfermam outros léxicos, nome-Na própria Botânica do nosso país, e não obstante o
adamente, a meu vêr, o grande diccionário de Larousse.muito que já lhe consagraram outros diccionários, tive
E, contudo, nenhum diccionário português apresentouensejo de reconhecer, pelos livros dos nossos
ampelóainda tão copioso vocabulário entomológico, como o dic-graphos, pelos relatórios dos agrónomos, pelos jornaes de
cionário que estou prefaciando.agricultura e pelo trato directo com a gente do campo,
que muitos frutos e muitíssimas espécies de plantas úteis
* * * * *ainda não pertenciam á lexicographia, tendo eu que
registar mais de 1:500 variedades de videiras, e numerosos
Em Ornithologia, consegui refundir lexicographica-frutos, que entraram há muito na linguagem do povo e
mente o respectivo vocabulário, não só ampliando comque só agora entram no vocabulário português.
centenares de variedades o registo, por outros feito, das
* * * * * aves portuguesas, mas também dando dellas noção mais
exacta, do que aquella que até hoje podiamos adquirir
pelos diccionários.Na parte scientífica do meu léxico, não foi sómente
a Botânica o que me abriu campo extenso e diffícil: a E, de facto, é vulgaríssimo vermos definidos, como
noChímica não me offerecia muito menores difficuldades. mes de animaes diversos, o gaivão, o zirro, o pedreiro, o
Relendo livros e consultando professores, também guincho, o ferreiro, o andorinhão, o arvião, o catavento;
me surgiam hesitações sôbre o ponto até onde deveria quando, afinal, eu pude verificar que todos êsses nomes,
estender-se o registo da nomenclatura chímica num dic- — cada qual em sua província ou localidade, — são
dacionário da língua. Depois de haver colhido nesse campo dos á mesma ave, o gaivão, embora um ou outro sirva
muitíssimo mais do que os meus confrades em lexico- excepcionalmente para designar, ao mesmo tempo,
outra ave.graphia, suspendi a colheita quando conheci a
impossibilidade ou a desnecessidade de proseguir. Foi quando O mesmo succede com o abibe, cujo nome varía de
vi que os chímicos, lutando com a difficuldade de de- região para região, podendo nós, se percorrermos o
signar um composto por uma palavra normalmente or- país inteiro, ouvir que lhe dão os nomes de bibes,
víganizada ou derivada, formavam de muitos elementos bora, abesconhinha, avetoninha, ave-fria, gallispo,
maum só termo, que só poderá quadrar ás altas especu- toninha, verdizella, choradeira, galleno, coím,
donzellalações scientíficas ou ás memórias secretas dos labora- verde, galleirão, avecoínha, còninha; além de que, na
tórios. Para um diccionário, pareceu-me inútil, se não Madeira, esta ave tem os nomes de bibi, bisbis,
guimuito estranhável, aproveitarem-se fórmulas como esta: zinho, melrinho-das-urzes, melrinho-da-serra,
melrinhoparanitrophenyldehydrohexonecarboxýlico; ou como esta: dos-pereiros, pintasilgo-derrabado.
oxyditrichloroethylidenadiamina. E mais extraordinária é ainda a megengra, que,
variQuando muito, vocábulos com dimensões análogas, só ando o nome, segundo as localidades ou regiões, chega
me aventurei a registar a pentadecylparotolylcetona, pela a reunir os seguintes nomes: chapim, cedovém,
patasua estreita relação com a radioscopia; phenylhydroqui- chim, pinta-caldeiras, fradisco, fura-bugalhos, ferreiro,
nazolina, e pouco mais. mezengro, parachim, cachapim, papa-abelhas,
chinchaE não foi só a exagerada complicação das fórmulas ravêlha, fradinho, semeia-linho, chinchinim, caldeirinha,
rabilongo!adoptadas recentemente pelos nomencladores chímicos o
que fez sustar o passo nas minhas excursões por aquella Êstes e outros factos análogos, facilmente verificáveis,
província do saber humano; foram também, não direi o dão-me a persuasão de que a parte ornithológica desta
abuso, mas o arbítrio, com que a pharmacologia de hoje obra revela os devidos escrúpulos, o possível rigor, e
sensedáaoapparatosoluxodeinventarvistososrótulospara síveis melhorias na lexicographia nacional.
os seus productos, á custa da Chímica e da Pathologia. O autor, neste caso e em casos semelhantes, não fala
Entretanto, pelo esfôrço próprio e pela cooperação de por vaidade nem faz alarde de serviços e méritos: julga
alguns dos nossos mais notáveis homens de sciência, con- cumprir um dever, historiando os seus processos e o seu
segui registar largamente a nomenclatura chímica, em vi- trabalho, para auxiliar o leitor no conhecimento e
avalisível desproporção com o que até agora, e a tal respeito, ação da obra. Contraprovadas por êste as allegações e os
se tinha feito em trabalhos congêneres. factos, fica-lhe o pleníssimo direito de julgar a obra comoviii
lhe aprouver. Mas, antes que a julgue, requeiro que me Obedecendo a estas e àquella, na redacção primitiva
oiça. do Diccionário não havia sequer uma citação de autor
ou de obra estranha. Por êsse lado todavia, — e só por
* * * * *
êsselado, —sentinãotêrderecomeçaraobra,
porquereconheci a conveniência de justificar com uma
autoridadeAIchthyographiaeaConchyliologiatambémmefaculo registo de tal ou tal vocábulo, de tal ou tal
accepção.taramimportantesacquisiçõeslexicológicas,porinterméEra tarde para voltar atrás, e seria quási impossíveldio dos autorizados estudos de Felix Capelo, Barbosa du
recordar, entre centenares de livros, o livro e a páginaBocage, Baldaque da Silva, A. Girard e muitos outros.
que contribuiu para o meu vocabulário.
* * * * * Como porém um triste successo retardou por dois
annos a publicação da obra, e como até hoje nunca cessouMais importantes ainda fôram as contribuições que eu
a colheita de novos vocábulos e novas accepções, pudedevo á Anatomia, á Medicina geral e, especialmente, á
remediar o que era remediável, e, nas novas colheitas,Ophtalmologia, á Psychiatria, á Homeopathia, á
Elecpude justificar com citações succintas o registo de um outrotherapia, etc.
outro vocábulo, de uma ou de outra accepção.Os mais conspícuos especialistas nestas sciências
A linguagem não é inventada pelos diccionaristas: fa-distinguiram-me com as suas luzes, com os seus livros,
lada ou escrita, registam-na, e deixam a responsabilidadecom o seu carinhoso auxílio, o que me autoriza a
affirdella aos que a criaram.marqueemnenhumdiccionárioportuguêsessassciências
Mas há circunstâncias, em que a menção de um vo-lograram ainda tão largo espaço como na presente obra.
cábulo poderia sêr apodada de destempêro pelos leitoresO mesmo se póde dizer da Radiographia, da
Veterimais inclinados á maledicência do que á justiça.nária, da Agricultura, da Geologia, da Architectura, das
Assim, quando eu registo um barbarismo inútil ou umindústrias fabris, da Náutica antiga e moderna, da
Peneologismo ousado, a crítica fácil poderia suppor que eudagogia, da arte militar, da Velocipedia, do Espiritismo,
inventei, ou que perfilho, como escritor, a novidade, sedos offícios mecânicos, da Jurisprudência, das
antiguidaeu não lançasse o termo á conta alheia, citando o in-des gregas e romanas, da Ethnologia, dos jogos, danças,
ventor ou o patrono. Estão nêste caso os neologismose usos populares, etc., etc.
mesmice,desenfechar, e tantos outros.Procurei não omittir os mais recentes descobrimentos
emqualquerespheradaactividadehumana, —o cinema- Da mesma fórma, se eu registasse os advérbios
mutógrapho, a icérya, o radioscópio, a melinite, o acetylene, lhermente, lucreciamente, lapantanamente, o
substanetantíssimosoutros; e,dandoaomeutrabalhofeiçãosen- tivo manticostumes, o adjectivo minotaurizado,
difficilsívelmente encyclopédica, obedeci ao propósito de basear lissimo, digressoar, dormitólogo, donairíssimo, fósmea,
em novos processos uma obra que, não podendo têr tudo, flavibico, clystermente, etc., e não mostrasse logo que
tivesse ao menos alguma coisa de tudo e de novo. essas originalidades são da responsabilidade de Filinto,
Camillo, etc., poderiam suppor ingênuos que eu estava
3brincando com quem me lê .
Processo da obra
Por outro lado, colligi numerosos vocábulos, cuja
significação não resalta do texto em que se me depararam.
Reunidos os materiaes através de duas dezenas de annos
Claro é que, em tal hypóthese, o processo preferível é
e á custa de incompensáveis fadigas, dois caminhos se
registar o vocábulo e citar o texto respectivo, para que
me antolhavam: — Organizar um desenvolvido
diccionáos leitores o interpretem, se puderem.
rio que poderia abranger seis a oito grossos volumes; ou
Muitas vezes, se não quási sempre, as referências a
synthetizar aquelles materiaes no mais limitado espaço.
obras alheias levam a indicação do tomo e página
resNa primeira hypóthese, seria mister um editor
arropectiva, não só para se facilitar a contraprova ao leitor
jado, se não temerário, o que é raro; e ao autor, seria
escrupuloso, senãotambémeprincipalmenteparaobviar
mister vida longa, o que é ainda mais incerto.
Aventureiás supposições gratuitas de críticos praguentos e mal
inme á segunda hypóthese, e nem por isso foi menos
arrotencionados, que, julgando por si os mais, admittem a2jado o meu saudoso amigo e honradíssimo editor , que
possibilidade de que qualquer escritor tenha a
improbinão hesitou em jogar sôbre o meu trabalho uma dezena
dade de inventar citações por conveniência própria.
de contos de réis.
É verdade que, em muitos casos, a obra citada teveUma condição me impôs apenas: reunir todos os
maduas ou mais edições, e é diversa a paginação destas,teriaes, colhidos por mim, a tudo que os outros
dicciodifficultando assim o cotejo. Em todo caso, a difficuldadenários tivessem de aproveitável, e organizar uma obra,
não é impossibilidade; importa apenas algum trabalhocujo preço a não tornasse incompatível com os recursos
para o crítico mais minudencioso, por têr de consultarpecuniários da maioria do público que lê.
diversas edições da mesma obra.Daqui a índole visivelmente sinthética do Novo
Diccionário. A quem ella não aprouver bastará ponderar que
3Sobretudonestanovaedição,emborasuccintamente,pudeabouma sýnthese em dois grossos volumes só por conven- narcomtextosdosmestresoemprêgoeasaccepçõesdemilharesde
ção se chama sýnthese e corre já o perigo de exceder a vocábulos menos vulgares, ou pouco conhecidos; e rara é a pagina,
em que certas accepções vocabulares não sejam acompanhadas decondição do editor e as intenções do autor.
exemplos, — o que sem dúvida representa um dos mais sensíveis
2O finado proprietário da casa editora Tavares Cardoso & Ir- melhoramentos desta edição.
mão, Sr. Avelino Tavares Cardoso. (Nota desta nova edição).ix
Excepcionalmente, cito uma ou outra locução sem in- regra, porém, e de acôrdo com os mais autorizados
lexidicar as fontes escritas, porque a recebi da linguagem cógraphos, dou o primeiro lugar á accepção natural ou
oral ou dos registos avulsos e dispersos do falar do povo, primitiva, consignando sucessivamente a extensiva e a
como as canções populares, os prolóquios, etc. figurada, quando para um vocábulo há variedade de
accepções.
* * * * *
Seguindo bons exemplos, — e bastar-me-ia o de Littré, A orthographia
— registei, a par do vocabulário português, alguns
vocáA orthographia, que, para os antigos padres-mestres, erabulos e locuções que pertencem a outras línguas, mas que
uma parte da grammática, está reduzida actualmente asão, mais ou menos commummente, usados e, em geral,
um intricado e curioso problema.necessários em nossa linguagem falada e escrita. Taes
Àparte meia dúzia de eruditos, que tomam o assumptosão deficit, Te-Deum, item... Tive porém o cuidado de os
a sério, a generalidade dos nossos escritores modernospreceder da indicação de alheios ao português e de
indiobservam a orthographia que lhes ensinaram ou aquella acaralínguaaquepertencem, paraque, aoescreverem-se,
que se habituaram, preoccupando-se mediocremente comsejam devidamente sublinhados ou griphados, não vá
ala razão do que escrevem.guém confundi-los com o que é lidimamente nosso.
Todos os escritores estão convencidos de que
orthographam bem e, entretanto, cada qual ortographa de sua* * * * *
maneira. Como descargo de consciência, suppõem
pratiHá toda a conveniência, e de bom grado a subscrevo, car a orthographia usual. A orthographia usual reduz-se
em que se annotem de archaísmos os termos que se afas- á orthographia de cada um, o que dá em resultado cem
tam da linguagem commum do nosso tempo e da prática ou duzentas orthographias differentes e quási todas
audos mestres contemporâneos. Reconheço porém a diffi- torizadas.
culdade de, em muitos casos, capitular de archaico um Officialmente, considera-se modêlo a orthographia do
termo que, pela primeira vez, nos occorre em documento Diário do Govêrno. É verdade que o próprio Govêrno,
antigo. Nenhum de nós, os que escrevemos, conhece me- isto é, os ministros, só a praticam nas columnas da
tade dos termos da sua língua, e, como já notei, muitos mesma fôlha; cá fóra, praticam o que lhes ensinou o
projulgarão archaico um vocábulo, que só vimos usado em fessor de primeiras letras, cuja orthographia já brigava
escritores quinhentistas ou pre-quinhentistas, e que póde com a do professor da vizinha escola.
deparar-se-nos acaso no uso corrente de alguma região O uso dos doutos é outro bordão, que de nada serve
portuguesa, e até na escrita de algum escritor moderno. porque o uso dodouto Garret não é o uso do douto
HerEntretanto, não poupei a nota de antigos ou de sim- culano; o uso dêste não é o de Castilho; o de Castilho
plesmente desusados aos vocábulos que me parecem não não é o de Latino, e assim por deante. Lembremo-nos de
têr chegado ao uso do nosso tempo ou, pelo menos, aos que Herculano escreveu outomno e Castilho outono;
Caescritores portugueses do último século. milo graphou filósopho; Garret usava mattar, cinquenta,
Essa nota porém não quere dizer que todos êlles sejam fummo, entrehabrir, e outras extravagâncias do mesmo
pertença exclusiva de épocas findas e que não possam gênero.
nobilitar e enriquecer a escrita moderna, embora a adap- Êste facto, só o não vê quem fôr cego de vontade.
tação dependa de muito bom senso, alguma autoridade, De maneira que os diccionaristas, julgando que tem
e de opportunidade sempre. Succede, até, que muitas igual direito ao dos outros escritores, escrevem
geralexpressões, realmente de cunho antigo, tendo pertencido mente como entendem, condemnando implicitamente
toa usos e instituições que passaram, hão de necessaria- das as fórmas divergentes.
mente empregar-se ainda hoje, sempre que tenhamos de Consequência: lemos glycose e ouro num livro,
procunos referir a essas instituições e usos. ramos êstes termos num diccionário, e não os topâmos
Temos disso copiosos exemplos em Herculano. porque o diccionarista escreve glucose e oiro. Ou
viceA simples indicação, que eu faço a revêzes, de que versa.
um vocábulo é gallicismo, significa que a palavra proveio Ora, o não tem o direito de escrever
sodirectamente do francês, o que não implica a sua con- mente como entende. A sua missão não é preconizar
demnaçãoemnomedavernaculidadeportuguesa; podem systemas, nem fazer reformas, nem manter intolerantes
arrecear-se della os puristas, mas nada prova que ella não exclusivismos. Àparte os termos que êlle só conhece de
possa consubstanciar-se, ou não venha a consubstanciar- outiva ou que colheu da linguagem oral, e que tem de
rese, no corpo da nossa língua. produzir phoneticamente, se a etymologia, a a derivação,
Há gallicismos de gallicismos: e, quando êlles se me ou a analogia lhe não aconselham outro processo, todos
afiguram inúteis, violentos ou disparatados, inscrevo-lhes os vocábulos que êlle viu escritos, sob a responsabilidade
ao lado o cave canem do prudente aviso. de um escritor antigo ou moderno ou sob a chancella da
Quanto á disposição das várias accepções de cada vo- prática corrente numa época, tem de os reproduzir taes,
cábulo, segui, ás vezes, o processo da Academia Fran- quaes os viu; e, se a fórma varía de escritor para
escricesa, dando o primeiro lugar á accepção mais vulgar ou tor ou de época para época, essas variantes devem fazer
conhecida, quando a accepção primitiva é inteiramente parte do seu trabalho, sob pena de sensíveis imperfeições
obsoleta, e deixando esta para o fecho do artigo. Em ou de lastimosas deficiências.