Os Filhos do Padre Anselmo
442 pages
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Os Filhos do Padre Anselmo

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Publié le 08 décembre 2010
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Langue Português

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The Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by António da Costa Couto Sá de Albergaria
This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org
Title: Os Filhos do Padre Anselmo
Author: António da Costa Couto Sá de Albergaria
Release Date: February 15, 2008 [EBook #24625]
Language: Portuguese
Character set encoding: ISO-8859-1
*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***
Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
Nota de editor:à quantidade de erros Devido tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista d e erros corrigidos.
Rita Farinha (Fev. 2008)
SÁ D'ALBERGARIA
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
ROMANCE
PORTO LIVRARIA CHARDRON DE Lello & Irmão, Editores
1904
Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica
178, rua de D. Pedro, 184
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
I
Os irmãos da mão negra
O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite.
O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.
Era em fins do outono.
As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto de espoliadas.
Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.
Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bol so e, aproximando-se de um dos candieiros da illuminação publica, consultou o seu relogio.
Aquelle anda minutosmurmurou.
adiantado
cinco
E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.
Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.
[2]
Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em frente d'elle.
És tu, Paulo?disse de dentro uma voz.
Sou.
Entra depressa, que a noite está agreste!
E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a entrada.
O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.
Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.
Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu joven companheiro:
Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de consentir que te vende os olhos.
Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?
De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.
Pois bem, seja!
O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro.
Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas ordem...
Dou. Mas se o fizesse?
[3]
Poderia isso custar-te a vida, meu caro.
Apre!fez o intransigentes!
outro,
sorrindovocês
são
Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.
É justo.
Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.
Poderei dizer que fallei comtigo...gracejou o outro.
Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a gente...
Fallemos sério!tornou o moço que dava pelo nome de Paulo.Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem?
Assevero-te que os irmãos daMão-negra comprehendem e cumprem á risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos.
Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da mulher que amo?
Decertovolveu o outro.Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher que
[4]
amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que toda a acção da Mão-negrase resume em tornar felizes e ricos os seus irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a força, o poderio, a importancia.
O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.
No emtantoaccrescentou ainda Jorgeos fins e intuitos da Associação vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo, poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...
Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu caracter!protestou o mancebo.
O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta quinta murada.
Jorge apeou-se companheiro.
e
deu
Chegámos!disse elle.
a
mão
ao
seu
Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido.
E o cocheiro?perguntou o mancebo.Não receias a sua indiscreção?
É um dos nossos simplesmente o outro.
irmãosrespondeu
Apre!tornou o mancebo alegremente.Eis aqui o que se chama um serviço bem montado!
Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram seguindo em silencio.
[5]
Já estamos em casa!disse Paulo.
Porque?perguntou o outro.
Sinto-o pela differença de temperatura.
Ainda não... Vamos entrar agora...
E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.
Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete.
Pódes tirar a vendadisse Jorge.
O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas.
Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um olhar de glacial indifferença para a caveira.
É singular!pensou comsigo.Entro na vida pela visão da morte!
Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa resoar na sala:
Medita!disse aquella voz.
O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava.
Não viu pessoa alguma.
Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não descobriu a porta por onde tinha entrado.
Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e
[6]
lugubre recinto, não o poderia fazer, por não encontrar sahida.
Embora surprehendido, apavorou.
nem
Medita!tornou a voz a repetir.
por
isso
se
Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando fito a caveira.
N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo.
Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta daMão negra, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado. Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores perigos com animo sereno e tranquillo.
Principiou a prova!pensoujulgam-me uma creança assustadiça, capaz de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes.
E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando:
Detem-te! O que ias fazer?
Tocar n'esta caveirarespondeu o mancebo com voz tranquilla.
Com que fim?
Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora.
Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?
Primeiramente, a ideia de que caminhamos para a mesma miseria...
todos
[7]
E depois?
Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano.
Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e impuros?
Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão.
Materialmente, disseste?
Disse.
Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do Nada?
Não.
Explica-te.
Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar.
Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo?
De um meu irmão.
É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante? Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será d'um plebeu?
Ignoro.
Confessas, confunde?
pois,
que
na
Morte
tudo
se
Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito dos vivos.
Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus?
[8]
Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou na humanidade emfim.
Tens religião?
Tenho.
Qual?
A do Bem.
A que vieste?
Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal.
Sabes o sacrificio a que isso obriga?
A todos os sacrificios me sujeito.
Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição para seres admittido entre nós.
Acceito-a.
Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos, familiatudo, ao bem de teus irmãos, quando issote fôr reclamado.
Obedecerei.
É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço. O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?
[9]
Sem a menor hesitação.
Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por toda a parte. AMão-negra, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente, vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um escravod'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti; o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes, da nossa Associação. Terás força para tanto?
Tereirespondeu firmemente o mancebo.
Pareces corajosoobservou a voz mysteriosapareces ter em pequena conta a propria vida.
Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.
A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é iniquidade. Os irmãos da Mão-negrateem o direito de discutir e não apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas terás que obedecer.
Experimentem.
Lembra-te, porém, que, se oLembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil, outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a vida,vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde vieste.
Não!respondeu
o
mancebo
com
[10]