O Corcunda de Notre-Dame
262 pages
Português

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O Corcunda de Notre-Dame , livre ebook

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Description

Em plena Idade Média, à sombra da catedral parisiense, a bela bailarina Esmeralda desperta paixões. Mendigos e vadios, o poeta Gringoire e o capitão dos guardas Febo rodeiam-na e admiram-na, e o temível arquidiácono Cláudio Frollo é levado ao crime. Suspeita e votada ao suplício, Esmeralda é salva pelo sineiro de Nossa Senhora de Paris, Quasímodo, que a protegerá e adorará até que a morte os una.

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Informations

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Date de parution 11 novembre 2017
Nombre de lectures 12
EAN13 9789897781124
Langue Português

Informations légales : prix de location à la page 0,0007€. Cette information est donnée uniquement à titre indicatif conformément à la législation en vigueur.

Exrait

Victor Hugo
O CORCUNDA DE NOTRE-DAME
Índice
 
 
 
Introdução
Livro 1
Capítulo 1 — A Grande Sala
Capítulo 2 — Pierre Gringoire
Capítulo 3 — O Senhor Cardeal
Capítulo 4 — Mestre Jacques Coppenole
Capítulo 5 — Quasímodo
Capítulo 6 — Esmeralda
Livro 2
Capítulo 1 — De Cila para Caribdes
Capítulo 2 — A Praça de Grève
Capítulo 3 — Beijos por Golpes
Capítulo 4 — Inconvenientes de Seguiras Mulheres Bonitas de Noite pelas Ruas
Capítulo 5 — Continuação dos Inconvenientes
Capítulo 6 — A Bilha Quebrada
Capítulo 7 — Uma Noite de Núpcias
Livro 3
Capítulo 1 — Nossa Senhora de Paris
Capítulo 2 — Visão Rápida de Paris
Livro 4
Capítulo 1 — As Boas Almas
Capítulo 2 — Cláudio Frollo
Capítulo 3 — Immanis Pecoris Custos, Immanioripse
Capítulo 4 — O Cão e oDono
Capítulo 5 — Continuação de Cláudio Frollo
Capítulo 6 — Impopularidade
Livro 5
Capítulo 1 — Abbas Beati Martini
Capítulo 2 — Isto Acabará com Aquilo
Livro 6
Capítulo 1 — Vista de Olhos Imparcial Sobre a Antiga Magistratura
Capítulo 2 — O Buraco dos Ratos
Capítulo 3 — História de Um Bolo de Farinha de Milho
Capítulo 4 — Uma Lágrima por Uma Gota de Água
Capítulo 5 — Fim da História do Bolo
Livro 7
Capítulo 1 — Perigo de Confiar Um Segredo a Uma Cabra
Capítulo 2 — Um Padre e Um Filósofo São Dois
Capítulo 3 — Os Sinos
Capítulo 4 — ΆΝÁΓΚΗ
Capítulo 5 — Os Dois Homens Vestidos de Preto
Capítulo 6 — Do Efeito Que Podem Produzir Sete Pragas ao Ar Livre
Capítulo 7 — A Alma do Outro Mundo
Capítulo 8 — Utilidades das Janelas Que Dão para o Rio
Livro 8
Capítulo 1 — O Escudo Transformado em Folha Seca
Capítulo 2 — Continuação do Escudo Transformado em Folha Seca
Capítulo 3 — Fim do Escudo Transformado em Folha Seca
Capítulo 4 — Lasciate Ogni Speranza
Capítulo 5 — A Mãe
Capítulo 6 — Três Corações de Homem Feitos Diferentemente
Livro 9
Capítulo 1 — Febre
Capítulo 2 — Corcunda, Zarolho, Coxo
Capítulo 3 — Surdo
Capítulo 4 — Barro e Cristal
Capítulo 5 — A Chave da Porta Vermelha
Capítulo 6 — Continuação da Chave da Porta Vermelha
LIVRO 10
Capítulo 1 — Gringoire Tem Algumas Boas Ideias na Rua dos Bernardins
Capítulo 2 — Faz-te Vadio
Capítulo 3 — Viva a Alegria!
Capítulo 4 — Um Amigo Desastrado
Capítulo 5 — O Retiro Onde Reza as Suas Horas o Senhor Rei Luís de França
Capítulo 6 — A Vadiagem Ataca
Capítulo 7 — Châteaupers Acode
Livro 11
Capítulo 1 — O Sapatinho
Capítulo 2 — La Creatura Bella Bianco Vestita (Dante)
Capítulo 3 — Casamento de Febo
Capítulo 4 — Casamento de Quasímodo
 
Introdução
 
 
 
H á de haver alguns anos, o autor deste livro, visitando, ou melhor, esquadrinhando a igreja de Nossa Senhora, encontrou, num obscuro recanto de uma das suas torres, esta palavra gravada à m ã o numa parede:
 
ΆΝ Á ΓΚΗ
 
Estas mai ú sculas gregas, j á negras de velhas, e profundamente gravadas na pedra, n ã o sei que sinais particulares da caligrafia g ó tica impressas nas suas formas e nas suas atitudes, como para indicar ter sido uma m ã o da Idade M é dia que os escrevera ali, e sobretudo a inten çã o l ú gubre e fatal que elas encerram, impressionaram vivamente o autor.
Perguntou para si mesmo, procurou adivinhar qual podia ser a alma angustiada que n ã o quisera abandonar este mundo sem deixar gravado na fronte da velha igreja esse estigma de crime ou de desgra ç a.
Depois, rebocaram ou rasparam (ignoro qual das duas coisas) a parede, e a inscri çã o desapareceu. Porque é assim que fazem desde h á uns duzentos anos com os maravilhosos templos da Idade M é dia. As mutila çõ es sucedem em toda a parte, dentro e fora. O padre reboca-os, o arquiteto raspa-os; depois, vem o povo que os deita por terra.
Assim, al é m da fr á gil recorda çã o que lhe dedica aqui o autor j á nada mais resta hoje da palavra misteriosa gravada na sombria torre de Nossa Senhora, nada do destino ignorado que t ã o melancolicamente representava. O homem que escreveu essa palavra nessa parede, apagou-se na mem ó ria das gera çõ es h á muitos s é culos j á ; a palavra, a seu turno, desaparecer á da parede do templo, como este desaparecer á da terra, muito breve talvez.
Foi sobre esta palavra que se escreveu este livro.
 
1 de mar ç o de 1831.
 
Livro 1
Capítulo 1 — A Grande Sala
 
 
 
Completam-se hoje trezentos e quarenta e oito anos, seis meses e dezanove dias que os parisienses despertaram ao repique de muitos sinos badalando no tr í plice recinto da Cidadela, da Universidade e da Cidade.
No entanto, do dia 6 de janeiro de 1482 a hist ó ria n ã o guardou mem ó ria. Nada havia de not á vel no acontecimento que assim agitava, logo de manh ã , os sinos e os burgueses de Paris. N ã o se tratava de um torneio de picardos ou de borguinh õ es, nem da condu çã o processional de uma rel í quia, nem de uma revolta de estudantes na vinha de Laas, nem de uma entrada do notredit tr è s redout é seigneur monsieur le roi, nem mesmo de um belo enforcamento de ladr õ es e ladras, na Justi ç a de Paris. N ã o era, tamb é m, o aparecimento, habitual no s é culo quinze, de qualquer embaixada, recamada e empenachada. Ainda n ã o tinham decorridos dois dias que a ú ltima cavalgada desse g é nero, a dos embaixadores flamengos incumbidos de concluir o casamento entre o delfim de Fran ç a e Margarida de Flandres, entrara em Paris, com grande pesar do senhor cardeal de Bourbon, que, para agradar ao rei, se vira obrigado a acolher com amabilidade toda essa turba r ú stica de burgomestres flamengos, obsequiando-os, no seu pal á cio de Bourbon, enquanto uma b á tega de chuva inundava à sua porta os magn í ficos tapetes.
Nesse dia, a 6 de janeiro, o que mettait en é motion tout le populaire de Paris, como diz Jehan de Troyes, era a dupla solenidade dos Reis e da festa dos Loucos, celebradas juntamente desde tempos imemoriais.
Nesse dia haveria fogueiras na Gr è ve, a planta çã o de maio na capela de
Braque e representava-se um mist é rio no Pal á cio da Justi ç a. Na v é spera, os alabardeiros do senhor preboste, trajando belas fardas de camale ã o violeta com cruzes brancas no peito, haviam lan ç ado o preg ã o pelas encruzilhadas, ao som de trompas. Logo pela manh ã , tudo fechado ainda, casas e lojas, uma multid ã o de burgueses e burguesas vindos de todos os pontos da cidade, ia a caminho dos tr ê s lugares designados. A escolha estava feita; uns optavam pelas fogueiras, outros pelo maio, outros pelo mist é rio. Diga-se sempre em honra do velho bom-senso dos basbaques de Paris, que a maior parte dessa multid ã o se dirigia para as fogueiras, divers ã o mais pr ó pria da esta çã o, ou para o mist é rio, que devia ser representado na grande sala do Pal á cio, bem abrigada e fechada; e que os curiosos eram todos concordes em deixar o pobre maio tempor ã o tiritar, sozinho, sob os rigores do c é u de janeiro, no cemit é rio da capela de Braque.
O povo concorria principalmente à s avenidas do Pal á cio da Justi ç a, porque era sabido que os embaixadores flamengos, chegados na antev é spera, tencionavam assistir à representa çã o do mist é rio e à elei çã o do papa dos Loucos, que tamb é m devia verificar-se na grande sala.
Nesse dia, n ã o era coisa f á cil entrar nessa grande sala, que no entanto passava ao tempo por ser o maior recinto coberto do mundo. A pra ç a do Pal á cio, apinhada de gente, oferecia aos curiosos das janelas o aspeto de um oceano, no qual cinco ou seis ruas, como outras tantas embocaduras de rios, iam despejar a cada instante novas vagas de cabe ç as. As ondas dessa multid ã o, engrossando incessantemente, iam esbarrar de encontro à s esquinas das casas que avan ç avam aqui e al é m, como outros tantos promont ó rios, no recinto irregular da pra ç a. Ao centro da alta fachada g ó tica do Pal á cio, a grande escadaria, por onde subia e descia ininterruptamente uma dupla corrente, que depois de quebrar-se no patamar intermedi á rio, se expandia em vagas enormes pelas duas rampas laterais; a grande escadaria, dizia eu, jorrava incessantemente na pra ç a como uma cascata num lago. Os gritos, as risadas, o trepidar desses mil p é s faziam um grande ru í do e um grande clamor. De tempos a tempos, esse clamor e esse ru í do redobravam. A corrente que impelia toda essa multid ã o no sentido da grande escadaria, retrocedia, turvava-se, redemoinhava. Era o arremesso de um archeiro, ou o cavalo de um sargento do prebostado que espinoteava para restabelecer a ordem, tradi çã o admir á vel que a jurisdi çã o dos prebostes legou à dos condest á veis, a dos condest á veis à dos marechais, e a dos marechais à nossa gendarmaria de Paris.
À s portas, à s janelas, nas trapeiras, pelos telhados formigavam milhares de figuras pasc á cias de burgueses, repousadas e honestas, vendo o pal á cio, vendo a turba, inteiramente satisfeitas; porque h á muita gente em Paris que se contenta com o espet á culo dos espectadores e para n ó s j á tem bastante interesse uma muralha, por detr á s da qual se est á passando alguma coisa.
Se nos fosse dado a n ó s outros, homens de 1830, confundirmo-nos pelo pensamento com esses parisienses do s é culo quinze, e entrar com eles aos safan õ es, acotovelados, repelidos, nessa enorme sala do Pal á cio, t ã o acanhada aos 6 de janeiro de 1482, o espet á culo n ã o seria destitu í do de interesse, nem de atrativo, e poder í amos observar à nossa volta coisas t ã o velhas que nos pareceriam absolutamente novas.
Se o leitor n ã o se op õ e, tentaremos reconstituir a impress ã o que connosco experimentaria, ao transpor o limiar da grande sala, quando se visse em contacto com essa turba-multa de gib ã o e cota de malha.
Antes de mais nada, um ensurdecimento e um deslumbramento. Por sobre as nossas cabe ç as, uma dupla ab ó bada em ogiva, com esculturas de madeira, pintada a azul, e ornamentada com flores-de-lis douradas; a nossos p é s, um pavimento lajeado alternativamente a m á rmore branco e preto. A poucos passos de n ó s, um enorme pilar, depois outro, em seguida outro; ao todo seis pilares, ao comprimento da sala, servindo de apoio à s ra í zes da dupla ab ó bada. Em volta dos quatro primeiros pilares, barracas de mercadores, reluzentes de vidrarias, ourop é is e lantejoulas; em volta dos tr ê s ú ltimos, bancos de carvalho, gastos e lustrosos pelo ro ç ar dos cal çõ es dos litigantes, e das togas dos procuradores. À volta da sala, a todo o comprimento da parede elevada, entre as portas, entre as janelas, entre os pilares, a intermin á vel fileira de est á tuas de todos os reis de Fran ç a desde Faramondo; reis indolentes, de bra ç os pendidos e olhos no ch ã o; reis destemidos e batalhadores, a cabe ç a e as m ã os valorosamente erguidas para o c é u. Depois, nas altas janelas ogivais, vitrais multicores; nas vastas aberturas da sala, riqu í ssimas portadas, finamente esculpidas; e tudo isto, ab ó badas, pilares, paredes, guarni çõ es de umbrais, artes ã os, portas, est á tuas, revestido de alto a baixo de uma espl ê ndida iluminura a azul e ouro que, j á um pouco apagada na é poca em que a vemos, desaparecera quase completamente sob a poeira e as teias de aranha, no ano da gra ç a de 1549, em que du Breul ainda a admirava por tradi çã o.
Imaginem agora essa enorme sala oblonga, iluminada pela claridade ba ç a de um dia de janeiro, invadida por uma multid ã o variegada e ruidosa lan ç ada ao longo das paredes e redemoinhando em torno dos pilares, e ter-se- á uma ideia confusa do aspeto geral do quadro, do qual tentaremos descrever com maior pormenor os curiosos detalhes.
Estavam ocupadas as duas extremidades desse gigantesco paralelogramo, uma pela famosa mesa de m á rmore, t ã o comprida e t ã o larga, e t ã o grossa que, dizem os velhos alfarr á bios, num estilo que abriria o apetite a Garg â ntua, semelhante talhada de m á rmore nunca se vira no mundo: a outra, pela capela em que Lu í s XI se fez esculpir prosternado diante da Virgem e para onde mandou transportar, deixando dois nichos vazios na fila das est á tuas reais, Carlos Magno e S. Lu í s, dois santos que supunha muito acreditados como reis de Fran ç a, na corte do c é u. Esta capela, ainda nova, edificada havia apenas seis anos, no gosto encantador da arquitetura delicada, da escultura maravilhosa, da fina e profunda cinzeladura que caracteriza entre n ó s a ú ltima fase da era g ó tica e se perpetua at é meados do s é culo dezasseis nas fantasias da Renascen ç a. A pequena ros á cea rendilhada, aberta acima do p ó rtico, constitu í a uma verdadeira obra-prima de leveza e graciosidade; dir-se-ia uma estrela de rendas.
Ao meio da sala, dirigia-se para os enviados flamengos e mais pessoas importantes convidadas para a representa çã o do mist é rio, um estrado de brocado de ouro, junto à parede, onde, aproveitando-se uma janela do corredor da c â mara dourada, se abrira uma entrada particular.
Segundo o uso, o mist é rio devia ser representado sobre a mesa, que para esse fim fora preparada logo de manh ã ; sobre a riqu í ssima pedra de m á rmore, toda riscada pelos sapatos dos r á bulas, assentava uma arma çã o de madeira bastante alta. A parte superior, ao alcance de todas as vistas, devia servir de palco; a inferior, dissimulada, por meio de tape ç arias, era o camarim comum das personagens da pe ç a. Uma escada, colocada ingenuamente à vista de todos fora do arcabou ç o do palco, estabelecia a comunica çã o entre a cena e os camarins e pelos degraus í ngremes se subia ou descia, conforme se sa í a ou entrava. N ã o havia personagem por mais imprevista, nem perip é cia, nem lance teatral que n ã o tivesse de subir essa escada, inocente e vener á vel inf â ncia da arte e dos maquinismos!
Aos quatro cantos da mesa de m á rmore, de p é , quatro sargentos do bailio do Pal á cio, guardas obrigados em todos os prazeres do povo, em dias de festa como em dias de execu çã o.
A pe ç a devia come ç ar quando o rel ó gio grande do Pal á cio desse a ú ltima badalada do meio-dia.
Ora, sucede que a multid ã o esperava desde pela manh ã , e n ã o eram poucos os que, j á de madrugada, batiam o queixo, tiritantes, em frente do Pal á cio; alguns havia mesmo que afirmavam ter passado a noite, atravessados à porta, para serem os primeiros a entrar. A turba engrossava a cada momento, e, como a á gua galgando o n í vel, come ç ava a trepar pelas paredes, a avolumar os pilares, a transbordar sobre os entabulamentos, sobre as cornijas, sobre os parapeitos das janelas, sobre as sali ê ncias da arquitetura, sobre todos os relevos das esculturas. Assim, o mal-estar, a impaci ê ncia, o enfado, a liberdade de um dia de cinismo e de folia, as questi ú nculas que a cada passo se travavam por futilidades, por uma cotovelada mais brusca, um sapato mais ferrado; a longa expecta çã o fatigante, contribu í am para que muito antes da hora a que os embaixadores deviam chegar se manifestasse j á pronunciadamente desagrad á vel e hostil o clamor da popula ç a encurralada, enlatada, calcada, asfixiada. N ã o se ouviam sen ã o queixas e impreca çõ es contra flamengos, contra o preboste dos mercadores, contra o cardeal de Bourbon, contra o bailio do Pal á cio, contra Madame Margarida de Á ustria, contra os bast õ es dos bed é is, contra o frio, contra o calor, contra o mau tempo, contra o bispo de Paris, contra o papa dos Loucos, contra os pilares, contra as est á tuas, ora uma porta fechada, ora uma porta aberta: com grande g á udio da rapaziada das escolas e dos lacaios disseminados na multid ã o, que ao descontentamento da turba juntavam impertin ê ncia e ditos maliciosos, estimulando, por assim dizer, a picadelas de alfinete, o mau humor geral.
Entre outros, um grupo de alegres demon í acos, quebrara os vidros de uma janela, e fora encavalitar-se, muito atrevido, no entabulamento, a observar alternativamente a multid ã o da pra ç a e a da sala, chasqueando de ambas. As truanices gaiatas, as gargalhadas ruidosas, as gra ç olas chocarreiras, que trocavam entre si os estudantes, de um para o outro lado da sala, faziam compreender facilmente que n ã o participavam do enfado e do cansa ç o do resto da assist ê ncia, e que, pelo contr á rio, engenhosamente e por mero prazer, davam interesse à quele espet á culo, para com mais paci ê ncia esperar o outro.
— À f é ! É s tu, Joannes Frollo de Molendino ? — gritava um deles para uma esp é cie de dem ó nio louro, com uma cara bonita e esperta, suspenso dos cantos de um capitel. — Bom nome te puseram de Jehan du Moulin, porque esses bra ç os e essas pernas t ê m jeitos de varais de moinho. H á quanto tempo est á s a í ?
— Deixa-me, homem! — respondeu Joannes Frollo. — H á mais de quatro horas e estou certo de que mas levar ã o em conta no Purgat ó rio. J á c á estava quando os oito chantres do rei da Sic í lia come ç aram a dizer a missa das sete na Sainte-Chapelle.
— S ã o frescos os tais chantres! — tornou o outro. — T ê m a voz mais bicuda do que o barrete que usam! Antes de criar a missa ao senhor S. Jo ã o, o rei deveria procurar saber se ele gosta de latim salmodiado com a acentua çã o proven ç al.
— Pois foi para empregar esses chantres de uma figa do rei da Sic í lia que o rei a criou! — berrou aziumada uma velhota, por baixo da janela, entre o povo. — Ora fa ç am o favor de dizer se isto é ou n ã o uma pouca-vergonha! Mil libras parisis por uma missa! E de mais a mais cobradas no imposto do peixe do mercado de Paris!
— N ã o d ê tanto à l í ngua! — replicou uma grave e rotunda personagem dirigindo-se à peixeira, com a m ã o no nariz. — Bem v ê que a missa era precisa. Queria talvez que o monarca reca í sse?
— Apoiado, sire Gilles Lecornu, mestre peleiro de sua majestade! — gritou o estudantino agarrado ao capitel.
O apelido fatal do pobre peleiro foi acolhido com uma grande gargalhada por todos os estudantes.
— Lecornu! Gilles Lecornu! — diziam uns.
— Comutus et hirsutus — tornava outro.
— Ent ã o que tem isso? — continuava o demonico do capitel. — Que est ã o voc ê s para a í a rir? O respeitabil í ssimo Gilles Lecornu, irm ã o de mestre Jehan Lecornu, preboste do pa ç o real, filho de mestre Mahiet Lecornu, primeiro porteiro do bosque de Vincennes, todos burgueses de Paris, todos casados de pai a filho!
A hilaridade recrudesceu. Muito calado, o rotundo peleiro esfor ç ava-se por fugir à curiosidade de que se tornara objeto, mas inutilmente suava e resfolegava; como uma cunha cravada num tronco, os esfor ç os que fazia mais solidamente entalavam entre os ombros dos que lhe estavam pr ó ximos, a larga face apopl é tica, rubra de indigna çã o e de despeito.
Enfim, um deles, nutrido, baixo e, como ele, vener á vel, prop ô s-se defend ê -lo.
— Patifaria! Estudantes faltarem assim ao respeito a um burgu ê s! No meu tempo seriam batidos e queimados vivos!
Todo o grupo come ç ou em grita:
— Ol á ! Que est á esse para a í a cantar? Quem é o pap ã o?
— Oh! — disse um. — É mestre Andry Musnier.
— Fala de c á tedra porque é um dos quatro bibliotec á rios da Universidade! — disse outro.
— Tamb é m nesses pardieiros tudo é por quatro! — gritou um terceiro.
— As quatro na çõ es, as quatro faculdades, as quatro festas, os quatro procuradores, os quatro eleitores, os quatro bibliotec á rios.
— Pois vai ver o diabo connosco! — replicou Jehan Frollo.
— Havemos de te queimar os livros, Musnier.
— Havemos de te desancar os criados, Musnier.
— Havemos de amarfanhar a tua mulher, Musnier.
— A gorducha menina Oudarte.
— T ã o fresca e t ã o alegre, que parece ter enviuvado.
— Diabos vos levem! — resmungou mestre Andry Musnier.
— Mestre Andry — tornou Jehan, sempre agarrado ao capitel. — Cala-te ou desabo-te sobre o touti ç o!
Mestre Andry olhou para cima, pareceu calcular a altura da coluna e o peso do rapaz, multiplicou mentalmente este peso pelo quadrado da velocidade, e calou-se.
Jehan, senhor do campo de batalha, prosseguiu triunfante:
— E é que lho fazia, apesar de eu ser irm ã o de um arcediago!
— Belos fidalgos, os cavaleiros da Universidade! Nem sequer fazem respeitar os nossos privil é gios num dia destes! No fim de contas, h á maio e fogueiras na Vila; o mist é rio, o papa dos Loucos e embaixadores flamengos na Cidade; e na Universidade, nada!
— No entanto, a pra ç a Maubert é bem grande! — replicou um dos estudantes, sentado no parapeito da janela.
— Fora o reitor, fora os leitores, fora os procuradores! — gritou Joannes.
— Esta noite dev í amos fazer uma fogueira no campo Gaillard com os livros de mestre Andry — prosseguiu outro.
— E as estantes dos escribas! — disse um que lhe estava pr ó ximo. — H á de ser tudo lan ç ado ao fogo!
— E os bast õ es dos bed é is!
— E as escarradeiras dos decanos!
— E os bufetes dos procuradores!
— E as arcas dos eleitores!
— E os escabelos do reitor!
— Abaixo! — tornou Jehan, em voz de baixo profundo. — Abaixo mestre Andry, os bed é is e os escribas! Abaixo os te ó logos, os m é dicos e os decretistas! Abaixo os procuradores, os eleitores e o reitor!
— Isto é o fim do mundo! — murmurou mestre Andry, tapando os ouvidos.
— A prop ó sito, olha o reitor! A í atravessa ele a pra ç a! — bradou um dos da janela.
— Palavra? É o nosso venerado reitor, mestre Teobaldo? — pergunta Jehan Frollo du Moulin que, agarrado ao pilar da sala, n ã o podia ver o que se passava fora.
— Sim, sim! — responderam os outros. — É ele, é mestre Teobaldo, o reitor.
Era, com efeito, o reitor e todos os dignit á rios da Universidade, que iam processionalmente ao encontro da embaixada e atravessavam nesse momento a pra ç a do Pal á cio.
Os estudantes, apinhados à janela, acolheram a passagem do cortejo com sarcasmos e aplausos trocistas. O reitor, que ia na frente, afrontou a primeira carga; foi rude.
— Bons dias, senhor reitor! Ent ã o como passou? Fale à gente!
— Olha, o velho batoteiro por aqui! Abandonou os dados!
— J á viram como o reitor monta? A mula tem as orelhas mais pequenas do que o dono!
— Adeus, senhor reitor Teobaldo! Tybalde aleator! Velho imbecil! Velho batoteiro!
— Ora salve-o Deus! Esteve com sorte esta noite?
— Olha o estafermo do velho olheirento; esparvou-te o jogo, vicioso!
— Onde vai nesse andar, Teobaldo? Tybalde ad dados, de costas voltadas para a Universidade, e a trote para a Cidade?
— Talvez v á procurar casa na rua Teobaldodado — gritou Jehan du Moulin.
O grupo repetiu o gracejo em coro, atroadoramente, acompanhando-o de salvas de palmas fren é ticas.
— Sempre é certo que o jogador das d ú zias vai procurar casa à rua Teobaldodado?
Em seguida, coube a vez aos outros dignit á rios.
— Fora os bed é is! Fora os maceiros!
— Ó Robin Poussepain, quem é aquele?
— É Gilberto de Suilly, Gilbertus de Soliaco, o chanceler do col é gio de Autun.
— Toma o meu sapato; tu, que est á s da í melhor que eu, atira-lho à cara!
— Saturnalitias mittimus ecce nuces.
— Fora os seis te ó logos de sobrepelizes brancas!
— Aqueles é que s ã o os te ó logos? Pensei que eram os seis gansos brancos dados ao munic í pio por Sainte-Genevi è ve, para o feudo de Roogny.
— Fora os m é dicos!
— Fora os j ú ris!
— Apanha o meu barrete, chanceler de Sainte-Genevi è ve! Pregaste-me uma raposa. Palavra! Preteriu-me para dar o lugar da Normandia ao Asc â nio Falzaspada, que é italiano, da prov í ncia de Bourges.
— É uma injusti ç a! — disseram todos os estudantes. — Fora o chanceler de Sainte-Genevi è ve!
— Ol á , Lambert Hoctement!
— Diabos levem o procurador da na çã o da Alemanha!
— E os capel ã es de Sainte-Chapelle e mais as t ú nicas pardas; cum tunicis grisis!
— Seu de pellibus grisis fourratis!
— Ol á ! Os mestres das artes! Que belas capas pretas! Que belas capas vermelhas!
— Que espl ê ndida cauda para o reitor!
— Parece um duque de Veneza a caminho dos esponsais do mar.
— Jehan! A í v ê m os c ó negos de Sainte-Genevi è ve!
— Que v ã o para o diabo!
— Abade Cl á udio Choart! Doutor Cl á udio Choart! Anda à procura da Maria Giffarde?
— Pode encontr á -la na rua de Glatigny.
— Est á a fazer a cama do rei dos estr ó inas.
— Est á pagando os quatro dinheiros; quatuor denarios.
— Aut unum bombum.
— Queres ver a paga?
— Rapazes! Mestre Sim ã o Sanguin, o eleitor da Picardia, com a mulher na garupa.
— Post equitem sedet atra cura.
— É um valente, mestre Sim ã o!
— Bons dias, senhor eleitor!
— Boa noite, senhora eleitora!
— E eles a verem tudo isto! — dizia, suspirando, Joannes de Molendino, empoleirado na folhagem do capitel.
Entretanto, o livreiro jurado da Universidade, mestre Andry Musnier, falava ao ouvido do peleiro do rei, mestre Gilles Lecornu.
— Isto é o fim do mundo, digo-lhe eu. Nunca se viu um abuso assim da estudantada; s ã o as malditas inven çõ es do s é culo que perdem tudo. As artilharias, as serpentinas, as bombardas, e principalmente a imprensa, essa praga da Alemanha. Eliminados os manuscritos, adeus livros! A imprensa mata a livraria. É o fim do mundo que est á a í a vir.
— Isso est á -se vendo nos progressos que fazem os estofos de veludo — disse o peleiro.
Deu meio-dia.
— Ah!... — exclamou a multid ã o em coro.
Os estudantes calaram-se. Depois fez-se um grande reboli ç o; um grande movimento de p é s e de cabe ç as; uma grande detona çã o geral de tosses e pigarros; procuravam-se lugares, alguns punham-se em bicos de p é s, outros agrupavam-se. Depois, um grande sil ê ncio; todos os pesco ç os se distenderam, todas as bocas se abriram, todos os olhares convergiram para a mesa de m á rmore... nada apareceu. Os quatro sargentos do bailio l á estavam de p é , firmes e im ó veis como quatro est á tuas pintadas. Todos os olhares se voltavam para o estado destinado aos embaixadores flamengos. A porta conservava-se fechada e o estrado vazio. Desde pela manh ã que essa multid ã o esperava tr ê s coisas; o meio-dia, a embaixada de Flandres e o mist é rio. S ó o meio-dia aparecera à hora.
Realmente, era demais.
Esperou-se um, dois, tr ê s, cinco minutos; nada de novo. Entretanto, à impaci ê ncia sucedera a c ó lera. Palavras irritadas circulavam em voz baixa ainda, é certo.
— O mist é rio! O mist é rio! — murmurava-se surdamente.
Os â nimos aqueciam. Pairava uma tempestade, bramindo j á , à tona da multid ã o. Foi Jehan du Moulin quem despediu a primeira fa í sca.
— Venha o mist é rio e basta de esperar pelos flamengos! — berrou com toda a for ç a dos pulm õ es, estorcendo-se como uma serpente em volta do capitel.
A turba aplaudiu.
— Venha o mist é rio, e a Flandres que v á passear!
— J á para aqui o mist é rio — tornou do Pal á cio, para exemplo.
— Apoiado — gritou o povo — e podemos j á come ç ar pelos sargentos.
Seguiu-se uma grande aclama çã o. Os quatro pobres-diabos come ç aram a empalidecer e a olhar uns para os outros. A multid ã o agitava-se impelida para eles; viam j á a fr á gil balaustrada de madeira que os separava, vergar e ceder à press ã o do povo.
A situa çã o era cr í tica.
— Saque! Saque! — bradava-se de todos os lados.
Neste instante, levantou-se a tape ç aria dos camarins que descrevemos, e apareceu uma personagem, cuja presen ç a sofreou rapidamente a turba e volveu, como por encanto, a ira em curiosidade.
— Sil ê ncio! Sil ê ncio!
A personagem, muito pouco senhora de si e toda tr é mula, avan ç ou, at é à frente da mesa de m á rmore, fazendo sempre rever ê ncias, que à medida que se aproximava, mais pareciam genuflex õ es.
Entretanto restabelecera-se, pouco a pouco, o sossego.
Restava apenas esse vago rumor que se desprende sempre do sil ê ncio do povo.
— Senhores burgueses — disse — e senhoras burguesas, vamos ter a honra de declamar e representar, na presen ç a de Sua Emin ê ncia o senhor cardeal, um belo auto chamado O bom julgamento da Senhora Virgem Maria. Este vosso servo faz de J ú piter. Sua Emin ê ncia acompanha neste momento a respeitabil í ssima embaixada do senhor duque de Á ustria a qual est á ouvindo a alocu çã o do senhor reitor da Universidade, na porta Baudets. Come ç aremos logo que chegue o eminent í ssimo cardeal.
É certo que fora nada menos do que a interven çã o de J ú piter para salvar os quatro infelizes do bailio de Paris. De resto, o trajo do senhor J ú piter era lind í ssimo e n ã o contribu í ra pouco para acalmar a turba, absorvendo-lhe toda a aten çã o. J ú piter vestia uma cota de malha coberta de veludo preto, com pregos dourados; na cabe ç a ostentava uma gorra guarnecida de bot õ es de prata, tamb é m dourados; e, se n ã o fora o carmim e as grandes barbas posti ç as que lhe ocultavam metade do rosto, se n ã o fora o rolo de papel ã o dourado que empunhava, todo constelado de lantejoulas e eri ç ado de fitas de ouropel, em que olhos pr á ticos reconheceriam desde logo o raio; se n ã o fora os p é s cor de carne enleados à grega, poderia facilmente comparar-se, pela severidade do porte, a um archeiro bret ã o do comando do senhor de Berry.
 
Capítulo 2 — Pierre Gringoire
 
 
 
Contudo, a perlenga dissipara o pasmo e o contentamento que o trajo da personagem provocara; e quando chegou a esta desastrada conclus ã o: « come ç aremos logo que chegue o eminent í ssimo cardeal » , a voz perdeu-se-lhe numa tempestade de vaias.
— T ê m de come ç ar j á ! O mist é rio! Venha o mist é rio! — gritava o povo.
E, dominando todas as vozes, ouvia-se a de Johannes de Molendino, que silvava no tumulto como p í faro num charivari de Nimes.
— Toca a principiar! — gania o estudante.
— Fora J ú piter! Fora o cardeal de Bourbon! — vociferavam Robin Poussepain e os outros rapazes, empoleirados na janela.
— Venha o auto! — repetia a multid ã o. — J á para aqui o auto! À forca os comediantes, à forca o cardeal!
O pobre J ú piter, desnorteado, cheio de medo, a empalidecer sob o carmim que lhe tingia o rosto, deixou cair o raio e tirou a gorra; cumprimentava e tremia balbuciando:
— Sua Emin ê ncia... os embaixadores... Madame Margarida de Flandres... — E, muito atrapalhado, nem sabia que dizer. No fundo tinha medo que o enforcassem.
Enforcado pela popula ç a por a fazer esperar, enforcado pelo cardeal por n ã o ter esperado, via-se entre dois abismos — duas forcas.
Felizmente, algu é m veio livr á -lo de embara ç os e assumir a responsabilidade da situa çã o.
Um indiv í duo que, havia muito se postara no espa ç o livre em torno da mesa de m á rmore, e por cuja presen ç a ningu é m ainda tinha dado, por tal forma a sua estatura de homem alto e magro se dissimulava atr á s do pilar a que se encostara; esse indiv í duo, diz í amos: seco, esgalgado, descorado e louro, cavado de rugas, muito embora mo ç o de olhar brilhante e boca sorridente, trajando velhas roupas de sarja, gastas e lustrosas, acercou-se da mesa de m á rmore e fez um sinal ao triste padecente. O outro por é m, at ó nito, n ã o o via.
O rec é m-chegado deu um passo à frente:
— J ú piter! — disse. — Car í ssimo J ú piter!
O outro n ã o o ouvia.
Por fim, impaciente, berrou quase ao ouvido:
— Miguel Gilborne!
— Quem me chama? — disse J ú piter, como quem acorda em sobressalto.
— Eu — respondeu a personagem vestida de preto.
— Ah! — exclamou J ú piter.
— Mande principiar — tornou o outro. — Fa ç a a vontade a esta gente; o senhor bailio fica por minha conta, e o cardeal, ele o amansar á .
J ú piter respirou.
— Senhores burgueses — berrou com toda a for ç a dos pulm õ es, à turba, que continuava a apup á -lo — Vamos dar princ í pio ao espet á culo imediatamente.
— Evo é , Juppiter! Plaudite, eives ! — clamaram os estudantes.
— Aleluia! Aleluia! — gritou o povo.
Rompeu uma salva de palmas ensurdecedora e, por muito tempo, a sala tremeu ao ru í do das calorosas aclama çõ es. O J ú piter recolhera-se ao fundo do teatro.
Entretanto, a personagem desconhecida que, por uma forma verdadeiramente m á gica, volvera a tempestade em bonan ç a — la temp ê te en bonace, como diz o nosso velho e querido Corneille — voltara modestamente à penumbra do pilar e a í se conservaria invis í vel, im ó vel e calado como antes, se duas raparigas da primeira fila dos espectadores n ã o o tivessem surpreendido no col ó quio com Miguel Girlborne-J ú piter.
— Mestre... — disse uma delas, chamando-o.
— Ent ã o que é isso, Li é narde? — disse a outra, fresca, bonita e garrida. — Olha que é um secular; devemos chamar-lhe messire e n ã o mestre.
— Messire — disse Li é narde.
O desconhecido acercou-se da balaustrada.
— Que me querem as meninas? — perguntou muito am á vel.
— Oh! Nada! — respondeu Li é narde, muito confusa. — Gisquette a Gencienne, a minha companheira, é que o chamou.
— Deixe falar! — replicou Gisquette corando. — A Li é narde disse-lhe Mestre; e eu notei-lhe que se devia dizer Messire.
As duas raparigas baixaram os olhos. O outro que queria conversa, observava-as sorrindo:
— Ent ã o n ã o me dizem nada?
— Nada — respondeu Gisquette.
— Nada — disse Li é narde.
O rapaz deu um passo para se retirar; as duas, por é m, n ã o se deram por satisfeitas.
— Messire — disse vivamente Gisquette com a impetuosidade de uma represa que rompe ou de uma mulher que toma uma resolu çã o — conhece aquele soldado que vai representar o papel da senhora Virgem, no mist é rio?
— Quer dizer no papel de J ú piter? — explicou o desconhecido.
— Pois claro! — disse a Li é narde. — J á viram a tola! Conhece ent ã o J ú piter?
— Miguel Gilborne? — respondeu. — Sim, minha senhora.
— Tem umas barbas magn í ficas! — disse Li é narde.
— E é bonito isso que v ã o representar? — perguntou timidamente Gisquette.
— Muito bonito — respondeu o desconhecido, sem a menor hesita çã o.
— E o que é ? — disse Li é narde.
— O bom julgamento da Senhora Virgem, um auto.
— Ah! — exclamou Li é narde.
Seguiu-se uma pausa. O desconhecido tornou:
— É um auto novinho em folha; ainda n ã o serviu.
— Ent ã o — disse Gisquette — n ã o é o mesmo que representaram h á dois anos no dia da entrada do senhor legado, e em que havia tr ê s raparigas muito lindas que faziam pap é is...
— De sereias — disse Li é narde.
— E por sinal vinham nuas — acrescentou o rapaz. Li é narde baixou pudicamente os olhos. Gisquette olhou para ela e fez outro tanto. Ele continuou sorrindo:
— Era bonito de ver. Hoje é um auto escrito expressamente para a senhora donzela de Flandres.
— E v ã o cantar pastoris? — inquiriu Gisquette.
— Que horror! — disse o desconhecido. — Num auto? N ã o confundamos os g é neros. Se fosse uma farsa isso era outra coisa!
— É pena — replicou Gisquette. — Na Fonte do Ponceau houve um espet á culo por homens e mulheres selvagens, que lutavam e faziam trejeitos cantando motetos e pastoris.
— O que é admitido para um legado — disse o desconhecido num tom de voz bastante seco — n ã o se aceita para uma princesa.
— E junto — tornou Li é narde — havia uns homens a tocar melodias.
— E para refrescar a gente — continuou Gisquette — a fonte deitava por tr ê s bocas, vinho, leite e hypocras, de que se bebia at é n ã o querer mais.
— E um pouco abaixo do Ponceau — prosseguiu Li é narde — na Trindade, havia uns Passos com figuras que n ã o falavam.
— Parece-me que ainda os estou a ver! — exclamou Gisquette. — Deus na cruz e os dois ladr õ es à direita e à esquerda.
Neste ponto, as duas, exaltadas, come ç aram a falar ao mesmo tempo recordando a entrada do senhor legado.
— E mais adiante, na Porta dos Pintores, havia outras pessoas com trajos muito ricos.
— E na Fonte do Santo Inocente, aquele ca ç ador que perseguia uma cerva e os c ã es a latir e trompas a tocar!
— E no a ç ougue de Paris, havia uns estrados em que representavam a Bastilha de Dieppe!
— E quando o legado passou, lembras-te Gisquette? Deu-se o assalto e os ingleses foram todos degolados.
— E que lindas personagens que havia na Porta do Chatelet!
— E na Ponte do Change, que estava toda coberta por cima?
— E quando o legado passou, deixaram voar sobre a ponte mais de duzentas d ú zias de p á ssaros de todas as qualidades; era muito bonito, Li é narde.
— A festa de hoje ser á melhor do que isso tudo — replicou enfim o interlocutor, que parecia ouvi-las com impaci ê ncia.
— Promete-nos que este mist é rio vai ser bonito? — disse Gisquette.
— Pois quem duvida? — respondeu; depois acrescentou com uma certa ê nfase: — Sou eu o autor.
— Palavra? — disseram as raparigas estupefactas.
— Palavra! — respondeu o poeta, um pouco cheio da sua pessoa. — Isto é , somos dois; Jehan Marchand, que serrou as t á buas e construiu o teatro, e eu, que fiz a pe ç a. Chamo-me Pierre Gringoire.
O autor do Cid n ã o diria com mais arrog â ncia: Pierre Corneille.
Os leitores devem ter notado que decorrera um certo tempo desde o desaparecimento de J ú piter por detr á s da tape ç aria, at é que o autor do novo auto se revelava assim bruscamente, à c â ndida admira çã o de Gisquette e de Li é narde. Circunst â ncia not á vel: toda a multid ã o, alguns minutos antes t ã o tumultuosa, esperava agora resignad í ssima, desde que ouvira o comediante; o que mais uma vez vem provar esta verdade eterna, quotidianamente verificada nos nossos teatros, e é que o melhor meio de fazer com que o p ú blico espere com paci ê ncia, é anunciar-lhe que o espet á culo vai principiar.
Entretanto, o estudante Joannes estava alerta.
— Eh, eh! — gritou de repente em meio da paciente expecta çã o que sucedera ao tumulto. — J ú piter, Senhora Virgem, charlat ã es de mil dem ó nios! Est ã o zombando connosco? Ent ã o a pe ç a, vem ou n ã o vem a pe ç a? V á , toca a come ç ar ou come ç amos n ó s!
N ã o foi preciso mais nada.
A orquestra come ç ou a tocar no interior do teatro; a tape ç aria levantou-se; quatro personagens sa í ram de dentro, pintalgadas, pintadas, subiram a escada í ngreme do teatro e, chegadas que foram à plataforma superior, colocaram-se em linha diante do p ú blico, cumprimentando-o reverentemente; ent ã o, cessou a m ú sica. Era o mist é rio que come ç ava.
As quatro personagens, depois de haverem recebido em aplausos copiosos a paga dos profundos cumprimentos, principiavam, em meio de um sil ê ncio religioso, um pr ó logo que o leitor nos dispensar á de contar. De resto, como ainda hoje sucede, o p ú blico preocupava-se mais com os trajos das personagens do que com os pr ó prios pap é is; e, diga-se em verdade, n ã o era sem raz ã o. Vestiam, as quatro, grandes t ú nicas, meio brancas, meio amarelas, perfeitamente iguais; faziam diferen ç a apenas no pano. A primeira era de brocado, ouro e prata, a segunda de seda, a terceira de l ã e a quarta de linhagem. A primeira das personagens empunhava uma espada, a segunda duas chaves de ouro, a terceira uma balan ç a e a quarta uma enxada; e, como auxiliar das intelig ê ncias rebeldes que n ã o compreendessem a significa çã o desses atributos, lia-se, em grandes carateres pretos bordados: em volta da t ú nica de brocado, Eu sou a Nobreza ; na t ú nica de seda, Eu sou o Clero; na de l ã , Eu sou a Mercadoria ; na de linhagem, Eu sou o Trabalho. O sexo das duas alegorias masculinas era indicado ao espectador judicioso pelas t ú nicas mais curtas e por chap é us de abas reviradas, enquanto as duas alegorias femininas, de t ú nicas mais compridas, traziam na cabe ç a uns capuzes.
Tudo isto produzia um bel í ssimo efeito.
No entanto, entre essa multid ã o, sobre a qual as quatro alegorias entornavam conscientemente ondas e ondas de met á foras, n ã o havia ouvido mais atento, cora çã o mais palpitante, olhar mais perturbado, do que o olhar, o ouvido e o cora çã o do autor, do poeta, desse excelente Pierre Gringoire, que, um momento antes, n ã o pudera resistir à tenta çã o de dizer o seu nome a duas mulheres bonitas. Postara-se a curta dist â ncia delas, por detr á s do pilar e da í , escutava, olhava e saboreava. Os aplausos benevolentes com que fora recolhido o principio do pr ó logo vibravam-lhe ainda em todo o ser; estava completamente absorvido nessa esp é cie de contempla çã o est á tica com que o autor v ê as suas ideias caindo uma por uma, da boca do ator no sil ê ncio de um vasto audit ó rio. Digno Pierre Gringoire!
É -nos penoso diz ê -lo, mas este primeiro ê xtase foi logo perturbado. Mal Gringoire havia aproximado os l á bios dessa ta ç a embriagadora de alegria e de triunfo, uma gota amarga lha turvou.
Um mendigo esfarrapado, n ã o podendo fazer pingue receita na situa çã o em que se encontrava, despercebido no meio da multid ã o e n ã o se considerando suficientemente indemnizado pelo que at é ent ã o apurara em derredor, pensou em atrair as aten çõ es e as esmolas, pondo-se em evid ê ncia. Por isso, enquanto se recitavam os primeiros versos do pr ó logo, caminhara pelos pilares do estrado reservado at é à cornija que orlava a parte inferior da balaustrada, e, ali sentado, solicitava a aten çã o e a comisera çã o da turba, exibindo os farrapos e a hediondez de uma ú lcera que lhe cobria o bra ç o direito. De resto, n ã o dizia uma palavra; e assim, o pr ó logo continuava e continuaria sem maior empeno se, por infelicidade, o estudante Joannes, do alto do pilar, n ã o tivesse reparado no mendigo e o n ã o lobrigasse caramunhando. O dem ó nio do rapaz come ç ou a rir como um doido, e, sem lhe passar pela cabe ç a que estava interrompendo o espet á culo e perturbando o recolhimento geral, exclamou jovialmente:
— Olhem aquele aleijado a pedir esmola!
Quem j á alguma vez atirou uma pedra a um chavascal de sapos, ou quem j á disparou um tiro de espingarda contra um bando de aves pode fazer ideia do efeito que estas palavras produziram, em meio do sil ê ncio atento da multid ã o. Ao ouvi-las, Gringoire teve um estreme çã o, como se recebesse um choque el é trico. O pr ó logo foi interrompido e todas as cabe ç as se voltaram tumultuosamente na dire çã o do lugar em que se encontrava o mendigo, que, sem se perturbar, e pelo contr á rio, vendo neste incidente um excelente ensejo de boa colheita, entrou a dizer num tom de voz dolente, semicerrando os olhos:
— Uma esmolinha pelo amor de Deus!
— Ah! Mas... se n ã o me engano — tornou Joannes — , é Clopin Trouillefou. Ol á , tu! A mazela incomodava-te na perna, mudaste-a para o bra ç o?
E ao mesmo tempo que dizia isto, atirava uma moeda, com uma destreza de macaco, ao chap é u sujo que, com o bra ç o enfermo, o mendigo estendia à caridade p ú blica. Recebeu sem pestanejar a esmola e o sarcasmo, e continuou implorando num tom de voz lament á vel:
— Uma esmolinha pelo amor de Deus!
Este epis ó dio distra í ra consideravelmente o audit ó rio, e um grande n ú mero de espectadores, Robin Poussepain e a estudantada à frente, aplaudiam content í ssimos este dueto extravagante que se improvisava ali, durante o pr ó logo — o estudante ruidoso e o mendigo imperturb á vel, com a sua salmodia.
Gringoire estava descontent í ssimo. Passado o primeiro movimento de espanto, entrou de gritar para a cena à s quatro personagens:
— Continuem! Que diabo! Continuem! — sem mesmo se dignar lan ç ar um olhar de desd é m para os dois interruptores.
Neste momento, sentiu que o puxavam pelas abas do casaco; voltou-se, mal humorado, e n ã o lhe custou pouco a sorrir; no entanto, assim foi preciso. Era lindo o bra ç o de Gisquette, a Gencienne, que assim solicitava a sua aten çã o, por entre a balaustrada.
— Vai continuar? — disse a rapariga.
— Pois est á claro que vai continuar — respondeu Gringoire, mostrando-se melindrado com a pergunta.
— Nesse caso, messire — tornou ela — , quer ter a bondade de me explicar...
— O que v ã o dizer? — interrompeu Gringoire. — Ou ç a-os.
— N ã o é isso — replicou Gisquette. — É o que eles t ê m dito at é agora que eu queria saber.
Gringoire teve um sobressalto como se lhe pusessem o dedo sobre uma ferida.
— Est ú pida! — rosnou.
A partir de ent ã o, Gisquette decaiu completamente no seu esp í rito.
Entretanto os atores haviam obedecido à s intima çõ es do poeta, e o p ú blico, vendo-os de novo a falar, voltara a ouvi-los, n ã o sem ter perdido bom n ú mero de belezas, extraviadas na esp é cie de soldagem que se fizera entre as duas partes da pe ç a, assim bruscamente cortada. Gringoire refletiu nisto com amargura. N ã o obstante, a tranquilidade restabelecera-se pouco a pouco, o estudante calara-se, o mendigo dava balan ç o à colheita, no fundo do chap é u, e a pe ç a entrara novamente a caminho.
Era realmente uma bela obra e de que nos parece que ainda hoje se poderia tirar partido, sujeita a algumas altera çõ es. A exposi çã o, um pouco longa e um pouco banal, isto é , nas regras, era singela; Gringoire, no c â ndido santu á rio do seu foro í ntimo, admirava-lhe a l ú cida clareza.
De s ú bito, em meio de uma alterca çã o entre a menina Mercadoria e a senhora Nobreza, a porta do estrado reservada, que at é ent ã o se conservara fechada t ã o fora de prop ó sito, abriu-se ainda mais fora de prop ó sito, e a voz retumbante do porteiro anunciou bruscamente:
— Sua Emin ê ncia Monsenhor Cardeal de Bourbon.
 
Capítulo 3 — O Senhor Cardeal
 
 
 
Pobre Gringoire! O estampido de todos os morteiros de S. Jo ã o, a descarga de vinte arcabuzes, a detona çã o dessa famosa serpentina da torre de Billy, que, por ocasi ã o do cerco de Paris, no domingo 29 de setembro de 1465, matou sete borguinh õ es de um s ó tiro, a explos ã o de toda a p ó lvora arrecadada na Porta do Templo, irromper-lhe-ia com menor viol ê ncia pelos ouvidos, nesse momento dram á tico e solene, do que essas seis simples palavras pronunciadas pela boca de um porteiro: Sua Emin ê ncia Monsenhor Cardeal de Bourbon.
N ã o havia nem ó dio ao cardeal nem desprezo pela sua presen ç a, na impress ã o desagrad á vel que produziu em Pierre Gringoire. O que no entanto receava foi o que aconteceu.
A entrada de Sua Emin ê ncia revolucionou o audit ó rio. Todos se voltaram para o estrado. Confusamente, todas as bocas repetiram:
— O Cardeal! O Cardeal!
O pr ó logo, o triste pr ó logo, foi mais uma vez interrompido.
Ao aparecer na tribuna, o cardeal parou um instante. Enquanto percorria pelo audit ó rio um olhar indiferente, cresceu o tumulto. Todos o queriam ver. Os de tr á s passavam a cabe ç a pelos ombros dos da frente.
Era, com efeito, uma bela personagem, por quem valia bem a pena deixar de parte qualquer com é dia. Carlos, cardeal de Bourbon, arcebispo e conde de Le ã o, primaz das G á lias. Era um bom homem; vivia regaladamente a sua exist ê ncia de cardeal, permitia-se alegrar-se um tudo-nada com os bons vinhos reais de Challuau, mostrava-se mais esmoler para as raparigas do que para as velhas, e por todas estas raz õ es muito simp á tico ao populacho de Paris.
Foi, por certo, esta popularidade, t ã o justamente adquirida que o preservou, à sua entrada, de um acolhimento desagrad á vel da parte da turba, momentos antes descontente e muito pouco disposta a guardar respeito a um cardeal no pr ó prio dia em que ia eleger um papa. Mas os parisienses n ã o s ã o de rancores; e demais, tendo feito com que o espet á culo principiasse, a autoridade dos bons burgueses havia prevalecido sobre a do cardeal, e esse triunfo lhes bastava. Al é m disso, o senhor cardeal de Bourbon era um belo homem, em quem assentava maravilhosamente a sua bela t ú nica vermelha, o que quer dizer que tinha a seu lado todas as mulheres, e por consequ ê ncia a melhor metade da assist ê ncia. Seria injusto e de mau gosto apupar um cardeal que n ã o chegava a horas, quando esse cardeal é um belo homem a quem t ã o bem ficava a sua t ú nica vermelha.
Entrou, pois, cumprimentou a assist ê ncia com esse sorriso heredit á rio dos grandes para o povo, e encaminhou-se lentamente para a sua cadeira, de veludo escarlate, com o ar mais distra í do deste mundo. O cortejo, o que n ó s chamar í amos hoje o estado-maior de bispos e de abades, irrompeu, ap ó s ele, na tribuna, o que fez crescer o tumulto e a curiosidade na plateia. Apontavam-nos, pronunciavam-lhes os nomes: toda a gente forcejava por conhecer ao menos um; se n ã o me engano, aquele é o senhor bispo de Marselha, Alaudet, aquele outro, é o primic é rio de Saint-Denis; o de al é m, Roberto de Lespinasse, abade de Saint-Germain-de-Pr è s, irm ã o libertino de uma amante de Lu í s XI; tudo isto dito num cachoar de sarcasmos e cacofonias. Os estudantes esses praguejavam. Era o dia da p â ndega, o seu dia, a saturnal, a orgia anual da toga e da batina. N ã o havia torpeza que n ã o se consentisse e respeitasse, como coisa livre e admitida. E ent ã o que meninas n ã o estavam na sala! Simone Quatrelivre, In ê s a Gadina, Robine Pi é debou. Ao menos, era um dia cheio; podia-se praguejar e maldizer à vontade! De forma que todos eles usavam e abusavam; e, em meio do brouhaha , era um charivari espantoso de blasf é mias e de enormidades, nessas l í nguas desenfreadas de escreventes e estudantes, coactos durante o resto do ano pelo receio do ferro quente de S. Lu í s. Pobre S. Lu í s, que tro ç a que eles faziam no seu pr ó prio pal á cio de Justi ç a! À porfia, iam tomando à sua conta, entre os rec é m-chegados do estrado, uma sotaina preta ou parda, branca ou violeta. Joannes Frollo de Molendino, esse, na qualidade de irm ã o de um arcediago, atirava-se valentemente à vermelha; cantava como possesso, fixando descaradamente o cardeal: Cappa repelta mero!
Todas estas minud ê ncias, que esmiu çá mos aqui para edifica çã o do leitor, eram por tal forma dominadas pelo rumor geral, que n ã o conseguiam chegar at é ao estrado reservado; de resto, ainda que chegassem, n ã o seria o cardeal quem se melindrasse, porque nesse dia permitiam-se todas as liberdades. Al é m disso, e dava-o bem a conhecer exteriormente, Sua Emin ê ncia tinha uma outra preocupa çã o que o seguia de perto e que entrou quase ao mesmo tempo que ele no estrado: a embaixada de Flandres.
N ã o era porque fosse um pol í tico profundo, nem que se preocupasse em excesso com as consequ ê ncias poss í veis do casamento da senhora sua prima Margarida de Borgonha com o senhor seu primo Carlos, delfim de Viena; inquietava-o mediocremente o saber se duraria muito ou pouco a falsa harmonia entre o duque de Á ustria e o rei da Fran ç a, e ainda menos a maneira como o rei de Inglaterra acolheria o desd é m de sua filha; todas as noites fazia honra ao vinho das adegas reais de Chaillot, sem sequer lhe passar pela mente que algumas garrafas desse mesmo vinho (um tudo-nada correto e aumentado, é certo, pelo m é dico Coictier), cordialmente oferecidas a Eduardo IV por Lu í s XI, livrariam um belo dia Lu í s XI da presen ç a de Eduardo IV. La moult honor é e ambassade de monsieur le duc de Autriche n ã o era motivo, para o cardeal, de nenhuma preocupa çã o desta ordem, mas importunava-o por outro lado. Com efeito, era um pouco duro ser obrigado a mostrar-se am á vel e acolhedor, ele Carlos de Bourbon, com quaisquer burgueses; ele cardeal, com almotac é is; ele franc ê s, conviva jovial, com flamengos bebedores de cerveja; e isto em p ú blico. Nunca, por amor do rei, tivera a cumprir uma miss ã o t ã o penosa.
Voltou-se, pois, do lado da porta e com a mais graciosa amabilidade (por tal forma o sabia aparentar) quando o porteiro anunciou com voz sonora os Senhores enviados do senhor duque da Á ustria. É in ú til dizer que toda a sala fez outro tanto.
Ent ã o, com uma gravidade que contrastava em meio do petulante cortejo eclesi á stico de Carlos de Bourbon, chegaram, dois a dois, os quarenta e oito embaixadores de Maximiliano de Á ustria, tendo à sua frente o reverendo p é re en Dieu, Jehan, abade de Saint-Bertin, chanceler do Tos ã o de Ouro, e Jacques de Goy, sieur Daubi, grande bailio de Gand. Fez-se na assembleia um grande sil ê ncio acompanhado de frouxos de riso, para ouvir todos esses apelidos extravagantes e todos esses atributos a burgueses que, um por um, as personagens iam transmitindo imperturbavelmente ao porteiro, o qual, a seu turno, os lan ç ava de mistura, apelidos e atributos, tudo estropiado, atrav é s da multid ã o. Era mestre Loys Roelof, almotacel da cidade de Lovaina, messire Clays d ’ Etuelde, almotacel de Bruxelas; messire Paul de Bacusi, sier de Voirmizelle, presidente da Flandres; etc., etc., etc.; bailios, almotac é is, burgomestres, burgomestres, almotac é is, bailios; todos empertigados, afetados, engalanados de veludo e de damasco, encapuchados com coifas de veludo preto de grandes borlas de fio de ouro de Chipre, pendentes; no fim de contas, boas cabe ç as flamengas, figuras dignas e severas, da fam í lia das que Rembrandt faz avultar, t ã o fortes e t ã o graves, no fundo negro da sua Ronda da noite.
Havia, no entanto, uma exce çã o. Era uma fisionomia fina, inteligente, sagaz, uma esp é cie de focinho de macaco e de diplomata, em frente de quem o cardeal deu tr ê s passos, fazendo uma profunda rever ê ncia e que, afinal, apenas se chamava Guilherme Rym, conselheiro e pensiondrio da cidade de Gand.
Pouca gente sabia ent ã o quem era esse Guilherme Rym. G é nio raro que, num per í odo de revolu çã o, romperia luminosamente à tona dos acontecimentos, mas que, no s é culo quinze, estava reduzido à s entregas cavernosas e a viver nas minas. De resto, era apreciado pelo primeiro sapador da Europa, maquinava familiarmente com Lu í s XI, e n ã o poucas vezes tomara parte nas tarefas secretas do rei. Coisas, no fim de contas, ignoradas da turba, maravilhada por ver as cortesias que o cardeal dispensava a essa figura mesquinha de bailio flamengo.
 
Capítulo 4 — Mestre Jacques Coppenole
 
 
 
Enquanto a emin ê ncia e o pension á rio de Gand trocavam uma contum é lia profunda e algumas palavras em voz baixa, apresentava-se para entrar, conjuntamente com Guilherme Rym, um homem alto, de larga face e ombros formid á veis; dir-se-ia um buldogue ao lado de uma raposa. O seu gorro de feltro e a sua v é stia de couro faziam mancha entre os veludos e as sedas que o cercavam. Tomando-o por qualquer palafreneiro, a quem um equ í voco conduzisse ali, o porteiro embargou-lhe a passagem.
— Eh l á , por aqui n ã o se passa.
O homem da v é stia de couro repeliu-o com o ombro.
— Que quer este parvo? — disse, num tom de voz t ã o vibrante, que toda a sala voltou suas aten çõ es para o estranho col ó quio. — N ã o sabes com quem est á s falando?
— O seu nome? — perguntou o porteiro.
— Jacques Coppenole.
— As suas fun çõ es?
— Fabricante de meias, propriet á rio das Trois Chainettes , estabelecido em Gand.
O porteiro recuou. Anunciar almotac é s e burgomestres, v á , mas um fabricante de meias, era forte.
O cardeal estava sobre brasas. O povo ouvia e observava. Havia dois dias que Sua Emin ê ncia passava o melhor do seu tempo a alisar o pelo a esses ursos flamengos, para os tornar um pouco mais apresent á veis, e sucedia-lhe uma daquelas. Entretanto, Guilherme Rym, aproximou-se do porteiro e, com o seu sorriso subtil:
— Anuncie mestre Jacques Coppenole, escriv ã o dos Almotac é is da ilustre cidade de Gand.
Foi tolice. Sem a interven çã o do cardeal, Guilherme Rym teria arranjado as coisas pelo melhor; mas Coppenole ouvira o cardeal.
— Nada disso! — bradou com a sua voz de trov ã o. — Jacques Coppenole, fabricante de meias, é que é , ouviste, porteiro? Fabricante de meias, pois ent ã o?! Fabricante de meias é at é muito bonito. O senhor arquiduque n ã o desdenha do t í tulo.
Estrondearam os aplausos e as gargalhadas. Em Paris compreende-se tudo imediatamente, e por consequ ê ncia aplaude-se sempre um bom dito.
Junte-se a circunst â ncia de Coppenole pertencer ao povo e ser povo esse p ú blico que o cercava. Assim, a comunica çã o entre os dois foi s ú bita, el é trica e, por assim dizer, familiar. A arremetida insolente do mercador flamengo, humilhante para os homens da corte, revolvera em todas essas almas plebeias n ã o sei que sentimento de dignidade ainda vago e indistinto no s é culo quinze. Era um igual, esse fabricante de meias que vinha levantar a cabe ç a em presen ç a do senhor cardeal! Reflex ã o consoladora para os pobres-diabos habituados ao respeito e à obedi ê ncia pelos servos dos sargentos do bailio do abade de Sainte-Genevi è ve, caudat á rio do cardeal.
Coppenole cumprimentou com um grande ar Sua Emin ê ncia, que retribuiu o cumprimento ao burgu ê s omnipotente, temido por Lu í s XI. Depois, enquanto Guilherme Rym os observava com um sorriso de sarcasmo e superioridade, encaminharam-se cada um para o seu lugar; o cardeal perturbad í ssimo e inquieto. Coppenole calmo e altivo, refletindo talvez que, no fim de contas, valia bem mais do que qualquer outro o seu t í tulo de fabricante de meias, e que Maria de Borgonha, m ã e dessa Margarida que Coppenole tratava de casar, o respeitaria menos como cardeal do que como mercador; porque, n ã o era um cardeal quem sublevaria os habitantes de Gand contra os favoritos da filha de Carlos, o Temer á rio; n ã o era um cardeal quem daria for ç a à multid ã o, com uma palavra s ó , para a fazer resistir à s l á grimas e aos rogos, quando a donzela de Flandres fora implorar para eles o perd ã o do seu povo, at é junto do cadafalso.
Entretanto, novos dissabores esperavam esse pobre cardeal, destinado a pagar bem caro a circunst â ncia de se encontrar em t ã o m á companhia.
É prov á vel que o leitor ainda se lembre do desalmado mendigo que, logo ao principiar do pr ó logo, se alcandorara nas franjas do estrado cardinal í cio. A chegada dos ilustres convidados n ã o o fez retirar do posto que escolhera e, enquanto prelados e embaixadores se empilhavam como sardinhas em vontade e cruzava conscienciosamente as pernas na arquicanastra, como bons arenques flamengos, ele punha-se à trave. A insol ê ncia era inaudita, mas como as aten çõ es estavam voltadas para outro lado, ningu é m deu pela coisa. Pela sua parte, n ã o ligava import â ncia alguma à sala; balou ç ava a cabe ç a com uma despreocupa çã o de napolitano, repetindo de vez em quando, por entre o rumor, e como que cedendo a um h á bito maquinal: « Uma esmolinha, pelo amor de Deus! » Foi talvez o ú nico, de toda a sala, que n ã o se dignou voltar a cabe ç a para presenciar a alterca çã o entre Coppenole e o porteiro. Mas, quis o acaso que o mestre fabricante de Gand, com quem o povo j á simpatizava muit í ssimo, sobre quem dardejavam todos os olhares, fosse precisamente sentar-se na primeira fila de lugares do estrado, por cima do mendigo; e, n ã o foi pequeno o espanto de ver o embaixador flamengo, ap ó s uma r á pida inspe çã o do malandrim, tocar-lhe amigavelmente no ombro andrajoso. O mendigo voltou-se; houve entre ambos uma surpresa, reconhecimento, expans ã o nos dois semblantes, etc.; depois, sem se preocuparem absolutamente nada com os espectadores, o fabricante de meias e o mendigo entraram a conversar em voz baixa, de m ã os dadas. Os andrajos de Clopin Trouillefou, sobre o panejamento de ouro do estrado, produziam o efeito de uma lagarta pousada numa laranja.
A originalidade desta cena singular excitou um tal burburinho de contentamento e jovialidade na sala, que o cardeal n ã o tardou em fazer reparo: debru ç ou-se um pouco e n ã o podendo distinguir bem do lugar em que estava o casac ã o ignominioso de Trouillefou, figurou-se muito naturalmente que o mendigo pedia esmola, e, revoltado pela aud á cia, bradou:
— Senhor bailio do Pal á cio, atire-me aquele mariola ao rio!
— Croix Dieu! Senhor cardeal — disse Coppenole sem deixar a m ã o de Clopin. — É um amigo.
— Bravo! Bravo! — ululou a turba. A partir de ent ã o, mestre Coppenole teve em Paris, como em Gand, grande cr é dito no povo.
O cardeal mordiscou os l á bios. Inclinou-se para o abade de Sainte-Genevi è ve, que estava ao lado, e disse-lhe em voz baixa:
— S ã o divertidos os embaixadores que o senhor arquiduque nos envia para nos anunciar madame Margarida!
O abade respondeu:
— Vossa Emin ê ncia est á a dar p é rolas a porcos. Margaritas ante porcos.
— Diga antes — respondeu o cardeal, sorrindo: — Porcos ante Margaritam.
A pequenita corte de sotaina achou o trocadilho ador á vel. O cardeal sentiu-se um pouco mais satisfeito: estava quite com Coppenole: tamb é m fizera um bom dito.
E agora, que os nossos leitores que disp õ em da faculdade de generalizar uma imagem ou uma ideia como se diz no estilo de hoje, nos permitam saber se t ê m a compreens ã o bem n í tida do espet á culo que oferecia, no momento em que lhe tom á mos a aten çã o, o vasto paralelogramo da grande sala do Pal á cio. Ao meio do recinto, apoiado à parede ocidental, um espa ç oso e magn í fico estrado de brocado de ouro, no qual entram processionalmente, por uma pequenina porta ogival, graves personagens, sucessivamente anunciadas pela voz penetrante de um porteiro. Nas primeiras bancadas, grande n ú mero de figuras vener á veis coifadas de arminho, de veludo e de escarlate. Em volta do estrado silencioso e digno, em baixo, em frente, por toda a parte enorme multid ã o e burburinho enorme. Sobre cada fisionomia do estrado mil olhares do povo, sobre cada nome mil coment á rios surdos. Inquestionavelmente o espet á culo era curioso e merecia bem a aten çã o dos espectadores. Mas al é m, l á ao fundo, o que é essa esp é cie de barraca com quatro t í teres pintados a duas cores? E ao lado da barraca, quem é esse homem p á lido, de blusa preta? Ah! Meu caro leitor, é Pierre Gringoire e o seu pr ó logo.
Todos n ó s o hav í amos profundamente esquecido.
E aqui est á precisamente o que ele receava.
Desde que o cardeal entrara, Gringoire n ã o descansara um s ó momento, trabalhando infatigavelmente para salvar o seu pr ó logo. Come ç ara por incitar os atores que se haviam calado, a prosseguir e a levantar a voz; depois, vendo que ningu é m lhes prestava aten çã o, mandou-os calar; e a interrup çã o durava, h á mais de um quarto de hora j á , o que o n ã o impedira de bater o p é , agitad í ssimo, interpelando Gisquette e Li é narde e instigando o p ú blico que o rodeava a ouvir a continua çã o do pr ó logo; debalde, se esfor ç ou. Ningu é m tirava a vista de cima do cardeal, da embaixada e do estrado, ú nico centro dessa vasta circunfer ê ncia de raios visuais. Concorria para isto, com pesar o dizemos, a circunst â ncia de o pr ó logo come ç ar a aborrecer ligeiramente o audit ó rio, na ocasi ã o em que Sua Emin ê ncia interveio, por uma forma t ã o terr í vel. No fim de contas, o espet á culo era o mesmo tanto no estrado como na mesa de m á rmore; o conflito do Trabalho e do Clero, da Nobreza e da Mercancia. E muita gente preferia v ê -los assim, bem vivos, bem aut ó nomos, acotovelando-se em carne e osso, nessa embaixada flamenga, nessa corte episcopal, sob a t ú nica de cardeal, sob a v é stia de Coppenole, do que caiados, pintados, ataviados, falando em verso, e por assim dizer, empalhados nas t ú nicas brancas e amarelas em que Gringoire os envolvera.
Contudo, mal o poeta viu que a ordem se ia restabelecendo, concebeu um estratagema para salvar a situa çã o.
— Cavalheiro — disse para um sujeito gordo, de ar pacato, que lhe estava pr ó ximo — e se torn á ssemos a principiar?
— O qu ê ? — disse o homem.
— O que h á de ser! O mist é rio! — tornou Gringoire.
— Como quiser — replicou o sujeito.
Gringoire n ã o quis ouvir mais, e, como quem faz a festa e atira os foguetes, entrou de gritar confundindo-se o mais poss í vel com a multid ã o:
— O mist é rio! Toca a recome ç ar o mist é rio!
— Diabo! — disse Joannes de Molendino. — Que est ã o eles para ali a berrar? — Com efeito, Gringoire fazia grande algazarra. — Ó rapazes! Ent ã o o mist é rio ainda n ã o acabou? Voltar ao princ í pio é que n ã o vale.
— N ã o, n ã o! — bradaram todos os estudantes. — Fora o mist é rio! Fora!
Gringoire, por é m, cada vez gritava mais:
— Ao princ í pio! Ao princ í pio!
A berraria chamou a aten çã o do cardeal.
— Senhor bailio do pal á cio — disse dirigindo-se a um homem muito alto, todo de preto, postado a dist â ncia. — Onde imaginam eles que est ã o, estes mariolas, para fazerem uma inferneira desta ordem?
O bailio do Pal á cio era uma esp é cie de magistrado anf í bio, como que um morcego de ordem judici á ria, participando a um tempo do rato e da ave, do juiz e do soldado.
Aproximou-se de Sua Emin ê ncia, n ã o pouco receoso do seu desagrado, e explicou-lhe, balbuciando, a inconveni ê ncia popular: que o meio-dia chegara antes de Sua Emin ê ncia e que os comediantes se tinham visto obrigados a principiar sem esperar Sua Emin ê ncia.
O cardeal deu uma gargalhada.
— Era o que o senhor Reitor da Universidade deveria ter feito. Que lhe parece, mestre Guilherme Rym?
— Monsenhor — respondeu Guilherme Rym — , demonos por muito felizes em ter escapado a metade da com é dia. J á n ã o é mau.
— Vossa Emin ê ncia d á licen ç a que esses bilhostres continuem? — inquiriu o bailio.
— Continuem, continuem — disse o cardeal. — Que me importa a mim com isso. Enquanto continuam, vou ler o meu brevi á rio.
O bailio aproximou-se do parapeito do estrado e, tendo imposto sil ê ncio com um gesto clamou:
— Burgueses, r ú sticos e habitantes: para contentar toda a gente, os que querem que se recomece e os que querem que se acabe, Sua Emin ê ncia ordena que se continue.
Foi portanto mister que de ambos os campos se resignassem. Mas, tanto o autor como o p ú blico nunca o puderam perdoar ao cardeal.
No tablado, as personagens voltaram pois, ao recitativo, e Gringoire confiava que, pelo menos, lhe ouviriam o resto da obra. Ilus ã o, que, como as outras n ã o tardaria a ser desvanecida; efetivamente, restabeleceu-se o m á ximo sil ê ncio que se poderia exigir do audit ó rio; Gringoire, por é m, n ã o reparara que o estrado n ã o estava ainda cheio, quando o cardeal dera ordem para prosseguir; e, ap ó s os enviados flamengos, outras personagens do cortejo foram aparecendo, e os seus nomes e dignidades lan ç ados de permeio com o di á logo da pe ç a, pelo grito intermitente do porteiro, prejudicando consideravelmente o efeito. Imaginem, durante a representa çã o de uma pe ç a, o guincho de um porteiro abrindo entre duas rimas, e por vezes entre dois hemist í quios, par ê ntesis como estes:
— Mestre Jacques Charmoloue, procurador eclesi á stico do rei!
— Jehan de Harly, escudeiro, guarda do of í cio de cavaleiro da ronda da cidade de Paris!
— Messire Galiot de Genoilhac, cavaleiro, senhor de Brussac, mestre de artilharia do rei!
— Mestre Dreux-Raguier, fiscal das á guas e florestas do rei nosso senhor, em terras de Fran ç a, Champagne e Brie!
— Messire Lu í s de Graville, cavaleiro, conselheiro e camareiro do rei, almirante de Fran ç a, guarda do bosque de Vincennes!
— Mestre Denis Le Mercier, guarda do hosp í cio de cegos de Paris! Etc., etc., etc.
Por fim tornava-se insustent á vel.
E Gringoire estava tanto mais indignado com o acompanhamento absurdo que assim lhe dificultava o andamento da pe ç a, quanto é certo que se convencera j á de que o interesse pela obra aumentava e que lhe faltava apenas ser ouvida. Era, com efeito, dif í cil de imaginar uma contextura mais engenhosa e mais dram á tica. As quatro personagens do pr ó logo carpiam o embara ç o mortal em que se encontravam quando V é nus em pessoa se lhes apresentava revestindo uma bela cota de malha, armoriada com a nau do munic í pio de Paris. Vinha pessoalmente reclamar o golfinho prometido à mais bela entre as belas. J ú piter, que se ouvia trovejar entre bastidores, patrocinava-lhe a pretens ã o, e a deusa tinha segura a vit ó ria, isto é , em sentido menos figurado, a m ã o do senhor Delfim, quando uma crian ç a vestida de damasco branco, entre os dedos uma margarida (personifica çã o transparente da donzela de Flandres) vinha lutar com V é nus. Lance teatral e perip é cia. Controv é rsia. V é nus, Margarida e os restantes acordavam por fim em reportar-se ao bom julgamento da Virgem. Ainda havia um bom papel, o de D. Pierre, rei da Mesopot â mia: mas, entre tantas interrup çõ es, era dif í cil perceber-lhe a significa çã o. Tudo isto subira pela escada.
Mas, era irremedi á vel; nenhuma dessas belezas fora sentida, nenhuma compreendida. À entrada do cardeal, dir-se-ia que um fio invis í vel e m á gico desviara todos os olhares da mesa de m á rmore para o estrado, da extremidade meridional da sala para o lado ocidental. N ã o havia meio de arrancar o audit ó rio a esse encanto; os olhos n ã o se tiravam dali, e os que iam chegando, os malditos nomes de toda essa gente, a express ã o das suas fisionomias, a pompa dos seus trajes constitu í am uma divers ã o constante. Era desolador. Com exce çã o de Gisquette e Li é narde, que se voltavam de vez em quando, sempre que Gringoire as puxava pelo bra ç o; com exce çã o do sujeito pacato, ningu é m prestava aten çã o, ningu é m fazia caso do pobre auto abandonado. Gringoire apenas via perfis.
Com que amargura assistiu ao lento desmoronar de todo o seu edif í cio de gl ó ria e de poesia! E lembrar-se ele de que esse povo, impaciente por lhe ouvir a obra, estivera a ponto de rebelar-se contra o senhor bailio! E agora que a podia ouvir, nem dela se lembrava j á . Esse mesmo espet á culo que come ç ara entre aclama çõ es t ã o un â nimes! Eterno fluxo e refluxo da simpatia popular. E lembrar-se de que, por pouco, essa gente n ã o enforcava os sargentos do bailio! O que ele daria por poder voltar a esse delicioso momento de ventura!
Entretanto, cessou o mon ó logo brutal do porteiro; j á ningu é m mais havia para anunciar, e Gringoire respirou; os atores prosseguiam corajosamente. Mas n ã o se lembra de repente mestre Coppenole de se levantar e de impingir, em meio de um recolhimento profundo, esta abomin á vel arenga:
— Senhores burgueses e fidalgotes de Paris n ã o sei, croix Dieu !, o que estamos aqui a fazer. É verdade que vejo l á adiante, nessa barraca, umas criaturas que me parecem dispostas à luta! Ignoro se é a isto que os senhores chamam um mist é rio, mas n ã o acho que seja coisa muito divertida: aquela gente d á à l í ngua mas n ã o passa disso. H á um quarto de hora que estou daqui a ver qual deles é que bate primeiro, e nada; s ã o uns poltr õ es, e o que sabem é descompor-se. Contratem lutadores de Londres ou de Roterd ã o e ent ã o ver ã o! Davam para a í soco de se ouvir na pra ç a; mas aqueles, causam d ó ! Ao menos que apresentassem uma dan ç a mourisca ou outra pantomima qualquer! N ã o foi isto que me disseram; falaram-me de uma festa dos loucos e da elei çã o de um papa. N ó s tamb é m temos o nosso papa dos loucos em Gand, e l á nisso n ã o somos pecos, croix de Dieu ! Re ú ne-se a gente, como aqui; depois, à vez, cada um mete a cabe ç a por um buraco e faz um esgar aos outros; o que fizer a careta mais feia é eleito papa por aclama çã o; ora a í est á . É muito divertido. Querem os senhores eleger o seu papa à moda da minha terra? Sempre ser á menos ma ç ador do que ouvir estes tagarelas. Se quiserem tamb é m podem vir fazer a sua careta. Que lhes parece, senhores burgueses? H á aqui um bom n ú mero de exemplares dos dois sexos, razoavelmente grotescos, que nos far ã o rir à flamenga; e com os nossos car õ es, podemos ter a certeza de que n ã o faltar ã o caretas.
Gringoire responderia, se a sua estupefa çã o, a c ó lera, a indigna çã o n ã o lhe embargassem a voz. Demais, a mo çã o do fabricante popular fora acolhida com um tal entusiasmo por esses burgueses, lisonjeados por lhes chamarem fidalgotes, que era in ú til resistir. Havia uma ú nica coisa a fazer; deixar-se levar pela torrente. N ã o tendo, como o Agam é mnon de Timante a ventura de possuir um manto para cobrir a cabe ç a, Gringoire cobriu o rosto com as duas m ã os.
 
Capítulo 5 — Quasímodo
 
 
 
Num abrir e fechar de olhos, preparou-se tudo para p ô r em execu çã o o projeto de Coppenole. Burgueses, estudantes e beleguins lan ç aram m ã os à obra.
Foi escolhida para teatro dos esgares a pequenina capela situada em frente da mesa de m á rmore. Partido um vidro da bela ros á cea de cima da porta, ficou aberto na pedra um ó culo, por onde se combinou que os concorrentes metessem a cabe ç a.
Para chegar à abertura, bastava saltar para cima de dois ton é is, que foram buscar n ã o sei onde e que equilibraram como puderam. Decidiu-se que, para que a impress ã o do esgar fosse completa e imprevista, os candidatos, homens ou mulheres (porque tamb é m se podia eleger um papa feminino) cobrissem o rosto e se ocultassem na capela, at é que tivessem de aparecer. Num segundo, a capela encheu-se de concorrentes, fechando-se a porta.
Do seu posto, Coppenole ordenava tudo, tudo dispunha. Durante o rebuli ç o, o cardeal, n ã o menos at ó nito que Gringoire, pretextando ocupa çõ es e v é speras, retirou-se com todo o s é quito sem que a multid ã o, que ao v ê -lo chegar se agitara, sentisse o menor abalo ao v ê -lo sair. Guilherme Rym foi o ú nico a compreender que Sua Emin ê ncia tinha sido vencida. A aten çã o popular, como o sol, prosseguira na sua derrota; tendo partido de um extremo da sala, depois de se deter por algum tempo ao centro, estava agora no outro extremo. A mesa de m á rmore, o estrado de brocado tiveram-na presa; cabia a vez à capela de Lu í s XI. Livre o campo para todos os excessos, restavam apenas os flamengos e a vilanagem.
Deu-se princ í pio à fun çã o. A primeira figura que apareceu na abertura irregular da ros á cea, os olhos orlados de sangue por efeito das p á lpebras reviradas, a boca hiante como uma goela, a testa enrugada como um canh ã o de bota à hussardo, das do imp é rio, produziu um desencadeamento de uma claridade t ã o nova, t ã o inextingu í vel, que Homero tomaria toda essa malandragem por um bando de deuses. No entanto, a grande sala era nada menos que um Olimpo, e o J ú piter de Gringoire sabia-o melhor que ningu é m. Sucederam-se no ó culo da ros á cea uma segunda, uma terceira careta, veio outra, outra em seguida; e continuamente cresciam as risadas e alegria tripudiante. Havia nesse espet á culo n ã o sei que vertigem especial, n ã o sei que for ç a de embriaguez e de fascina çã o, de que seria dif í cil dar uma ideia ao leitor dos nossos dias e dos nossos sal õ es. Imaginem uma s é rie de rostos afetando sucessivamente todas as formas geom é tricas, desde o tri â ngulo, at é ao trap é zio, desde o cone at é ao poliedro: todas as express õ es humanas, desde a c ó lera at é à lux ú ria; todas as idades, desde as rugas do rec é m-nascido at é à s rugas da velha moribunda; todas as fantasmagorias irreligiosas, desde Fauno at é Belzebu; todos os aspetos animais, desde a goela at é ao bico, desde a cachola at é ao focinho. Imaginem todas as carrancas da ponte Nova, esses pesadelos petrificados entre os dedos de Germano Pilano, vivendo e respirando, e vindo alternativamente encarar-nos de frente, com os olhos em fogo; todas as m á scaras do carnaval de Veneza passando pelos vidros de um bin ó culo; em uma palavra, um caleidosc ó pio humano.
A orgia tomava cada vez mais um car á ter flamengo. J á n ã o havia estudantes, nem embaixadores, nem burgueses, nem homens, nem mulheres; j á n ã o havia Clopin Trouillefou, Giles Lecornu, Marie Quatrelivres ou Robin Poussepain. Tudo se confundia, tudo se nivelava na licen ç a comum. A grande sala passava a ser uma vasta fornalha de desbragamento e jovialidade, onde cada boca era um grito, cada face um esgar, cada indiv í duo uma atitude; tudo clamava e ululava. As caras novas que vinham a seu turno arreganhando os dentes, na abertura da ros á cea, eram como outros tantos ti çõ es lan ç ados ao braseiro; e toda essa turba efervescente partia, como o vapor da fornalha, um rumor desagrad á vel, agudo, penetrante, sibilante como o das asas de um moscardo.
— Ho h é ! Maldi çã o!
— Olha-me para aquela cara!
— N ã o vale nada.
— Vamos a outra!
— Ó Guilhemette Maugerepuis, repara naquelas ventas de touro, s ó lhe faltam os cornos. N ã o é o teu marido?
— Outra!
— Ventre du pape ! Que dem ó nio de careta é aquela?
— Ol á ! Isto é batota. S ó se deve mostrar a cara.
— Aquele raio da Perrete Callebotte! É capaz disso.
— Aleluia! Aleluia!
— Abafo!
— Aquele que n ã o pode fazer passar as orelhas!
Etc., etc.
Em meio de tudo isto, fa ç amos justi ç a ao nosso amigo Jehan. No desencadear da orgia, distinguiam-no ainda no pilar, como um grumete na g á vea. Agitava-se com um furor inacredit á vel. A boca desmesuradamente aberta, dava gritos que ningu é m ouvia, o que por certo n ã o era devido ao clamor da turba, que por mais ruidoso que fosse n ã o vingaria abaf á -los, mas sem d ú vida porque atingiam o limite dos sons agudos percet í veis.
Gringoire, esse, dominara-se passado o primeiro instante de abatimento. Fizera-se forte contra a adversidade.
— Continuem! — dissera pela terceira vez aos comediantes, m á quinas de falar; depois, passeando a largos passos por diante da mesa de m á rmore, sentia í mpetos de ir tamb é m, como os outros, meter a cabe ç a na ros á cea da capela, ainda que n ã o fosse pelo prazer de mostrar a l í ngua a esse povo ingrato. « Mas n ã o, seria indigno de n ó s; nada de vingan ç as! Lutemos at é ao cabo » , pensava, «é grande a ascend ê ncia da poesia sobre o povo; hei de cham á -los a bom caminho. Veremos quem leva a melhor, se as caretas se as belas letras. »
Pobre Gringoire! Era o ú nico espectador da pe ç a.
E agora, ainda era pior do que h á pouco. S ó via costas.
Pe ç o perd ã o. O sujeito pacato, a quem o poeta j á tinha consultado num momento cr í tico, conservava-se voltado para o teatro. Gisquette e a Li é narde, essas, tinham desertado h á muito tempo.
Esta prova de fidelidade do seu ú nico espectador, impressionou profundamente Gringoire, que se lhe acercou, e lhe dirigiu a palavra tocando-lhe ligeiramente no bra ç o; o homem encostara-se à balaustrada e dormitava um pouso.
— Muito agradecido, cavalheiro! — disse Gringoire.
— Agradecido, porqu ê ? — respondeu o homem bocejando.
— Naturalmente o que o incomoda — tornou o poeta — é todo este barulho que n ã o lhe permite ouvir à sua vontade. Mas fique certo de que o seu nome passar á à posteridade. A sua gra ç a?
— Renauld Ch â nteau, guarda-selos do Ch â telet de Paris, um seu criado.
— Cavalheiro, o senhor é aqui o ú nico representante das musas — disse Gringoire.
— S ã o favores — respondeu o guarda-selos do Ch â telet.
— O Cavalheiro — tornou Gringoire — é a ú nica pessoa que ouviu a pe ç a decentemente. Que tal a acha?
— H é ? H é ? — respondeu o magistrado, meio a dormir meio acordado.
— N ã o é m á .
Gringoire teve de se contentar com este elogio; um estrondear de aplausos, de envolta com uma aclama çã o prodigiosa, veio interromper a conversa çã o. Fora eleito o papa dos loucos.
— Aleluia! Aleluia! Aleluia! — gritava o povo de todos os lados.
Era, com efeito, uma carantonha maravilhosa a que, neste momento, resplandecia pela abertura da ros á cea. Depois de todas as faces pentagonais, hex á gonas e heter ó clitas, que se haviam sucedido nesse ó culo sem realizar o ideal grotesco constru í do nas imagina çõ es exaltadas pela orgia, faltava esse esgar sublime que enchia a assembleia de um deslumbramento, para alcan ç ar de pronto todos os sufr á gios.
O pr ó prio mestre Coppenole aplaudiu; e Clopin Trouillefou, que concorrera (e Deus sabe a que grau da fealdade poderia chegar), confessou-se vencido. Faremos como ele. N ã o tentaremos dar ao leitor uma ideia desse nariz anguloso, dessa boca recurva como uma ferradura, desse pequenino olho esquerdo obstru í do por uma pequenina sobrancelha ruiva e á spera como tojo, enquanto o olho direito desaparecia completamente sob uma enorme verruga; dessa dentadura desordenada, aqui e al é m brechada, como as ameias de um forte; desse l á bio caloso, por sobre o qual avan ç ava um desses dentes como uma presa de elefante; desse queixo fendido; e, principalmente, da fisionomia dilu í da sobre tudo isto; desse misto de mal í cia, de estranheza e de m á goa. Sonhem isto, se lhes é poss í vel.
A aclama çã o foi un â nime; correram todos para a capela e trouxeram para fora, em triunfo, o bem-aventurado papa dos loucos. Mas, foi ent ã o que a surpresa e a admira çã o subiram de ponto: o esgar era o seu pr ó prio rosto.
Ou antes, todo ele era um esgar. Uma cabe ç a formid á vel, eri ç ada de uma cabeleira ruiva; entre os dois ombros uma bossa enorme que, com o movimento, fazia vulto por diante; um sistema de coxas e de pernas t ã o singularmente descambadas que apenas se podiam aproximar pelos joelhos e que, vistas de frente, pareciam duas l â minas recurvas de foices, unidas pelo cabo; p é s largos, m ã os monstruosas; e, com toda esta deformidade, n ã o sei que ar de forte, todo ele vigor, agilidade e coragem; estranha ace çã o à eterna regra que pretende que a for ç a, do mesmo modo que a beleza, resulte da harmonia. Tal era o papa que os loucos acabavam de eleger.
Dir-se-ia um gigante despeda ç ado e inabilmente recomposto.
Quando essa esp é cie de ciclope apareceu à porta da capela, im ó vel, quase t ã o largo como alto; quadrado pela base, como diz um grande homem; ao v ê -lo com a sua v é stia, metade vermelha, metade roxa, semeada de campainhas de prata, ao v ê -lo, em toda a perfei çã o da sua fealdade, a popula ç a reconheceu-o imediatamente e exclamou a uma voz:
— É Quas í modo, o sineiro! É Quas í modo, o corcunda de Nossa Senhora! Quas í modo, o zanaga! Quas í modo, o cambaio! Aleluia! Aleluia!
Como se v ê , com respeito a apelidos, o pobre-diabo tinha muito por onde escolher.
— Acautelem-se as gr á vidas! — berravam os estudantes.
— Ou as outras! — replicava Joannes.
De feito, as mulheres cobriram o rosto.
— Feio bicho! — dizia uma.
— Feio e mau! — tornara outra.
— É o Diabo! — ajuntava uma terceira.
— Por infelicidade, moro perto da igreja de Nossa Senhora e de noite ou ç o-o a andar pelas goteiras.
— Como os gatos.
— Est á sempre nos telhados.
— Atira-nos sortes pelas chamin é s.
— Uma noite destas foi à janela da minha trapeira fazer uma careta. Imaginei que era um homem. Tive um medo!
— Ia jurar que ele vai ao s abbat. Uma vez deixou ficar uma vassoura no telhado da minha casa.
— Oh! Que estafermo de corcunda!
— Te arrenego!
— Que nojo!
Os homens, ao contr á rio, estavam encantados e aplaudiam.
Quas í modo, objeto do tumulto, continuava de p é , à porta da capela, sombrio e grave, deixando-se admirar.
Um estudante (Robin Poussepain, creio eu) chegou-se muito para ele a escarnec ê -lo. Quas í modo limitou-se a levant á -lo pelo cintur ã o e a atir á -lo a dez passos de dist â ncia, por entre a turba; isto, sem abrir a boca.
Maravilhado, mestre Coppenole aproximou-se dele.
— Croix Dieu! Santo Padre! É s a criatura mais soberbamente feia que at é hoje tenho visto. Merecias o papado de Roma como mereceste o de Paris.
Dizendo isto, pousou-lhe a m ã o no ombro familiarmente. Quas í modo n ã o se mexeu. Coppenole prosseguiu:
— É s um mariola com quem n ã o se me dava de fazer uma patuscada, ainda que isso me custasse um douzain novo de doze tornezes. Que te parece?
— Croix Dieu ! — disse o fabricante de meias. — É s surdo?
Era, com efeito, surdo.
Entretanto come ç ava a impacientar-se com as maneiras de Coppenole e, s ú bito, voltou-se para ele com um ranger de dentes t ã o formid á vel que o gigante flamengo recuou, como um buldogue em frente de um gato.
Fez-se ent ã o, em volta da estranha personagem um c í rculo de terror e de respeito, que pelo menos, tinha quinze passos geom é tricos de raio. Uma velhota explicou a mestre Coppenole que Quas í modo era surdo.
— Surdo! — disse o fabricante, rindo no seu bom rir flamengo. — Croix Dieu! É um papa consumado.
— Ol á ! Aquele conhe ç o eu — exclamou Johan, que descera por fim do capitel para ver Quas í modo de perto. — É sineiro de meu irm ã o o arcediago. Bons dias, Quas í modo.
— Diabo do homem! — disse Robin Poussepain, ainda aturdido em resultado da queda. — Aparece: é corcunda. Anda: é cambaio. Olha: é vesgo. Falam-lhe: é surdo. Mas, com os diabos, que faz ele da l í ngua, esse Polifermo?
— Fala quando quer — disse a velhota — ; ensurdeceu a tocar os sinos. N ã o é mudo.
— É o que lhe falta — observou Jehan.
— Tem um olho a mais — acrescentou Robin Poussepain.
— Puro engano — disse judiciosamente Jehan. — Um zanaga é muito mais incompleto do que um cego. Ele bem sabe o que lhe falta.
Entretanto, mendigos, lacaios, ratoneiros, estudantes, foi tudo processionalmente, buscar ao arm á rio do tribunal a tiara de papel ã o e a samarra irris ó ria do papa dos loucos. Quas í modo deixou-se vestir sem pestanejar e com uma esp é cie de docilidade orgulhosa. Doze oficiais da confraria dos loucos levantaram-no à s costas; e uma esp é cie de j ú bilo amargo e desdenhoso passou por sobre a face melanc ó lica do ciclope quando viu aos seus p é s disformes todas essas cabe ç as de homens gentis, aprumados, perfeitos. Em seguida, a prociss ã o ululante e andrajosa, p ô s-se a caminho para percorrer, segundo a usan ç a, o interior das galerias do Pal á cio, antes de come ç ar o passeio pelas ruas e encruzilhadas.
 
Capítulo 6 — Esmeralda
 
 
 
Entretanto, a pe ç a prosseguira e Gringoire, por seu turno, n ã o desanimava, com verdadeiro j ú bilo o dizemos. Os atores, incitados por ele ia-os ouvindo. Estava resolvido a esgotar todos os meios, e n ã o perdera completamente a esperan ç a de que o p ú blico voltasse, e com ele a aten çã o. Vendo Quas í modo, Coppenole e o cortejo ensurdecedor do papa dos loucos sair da sala, esse raio de esperan ç a rutilou fulgurantemente. A multid ã o correu sofregamente ap ó s o cortejo.
— Bem — disse consigo — , destes rufi õ es estou eu livre.
Infelizmente, esses rufi õ es eram o p ú blico. Num abrir e fechar de olhos, a sala esvaziou-se.
Restavam ainda, é certo, alguns espectadores, uns dispersos, outros agrupados em volta dos pilares, mulheres, velhos, crian ç as, em n ú mero suficiente para que n ã o deixasse de haver ru í do e tumulto na sala. Alguns estudantes, encavalitados nas janelas, olhavam para a pra ç a.
— P ú blico de sobra para ouvir o resto — pensou Gringoire. — S ã o poucos mas bons, gente fina, gente letrada.
Ao aparecer em cena a Virgem Santa, devia escutar-se uma sinfonia de um efeito magn í fico. N ã o se executou. Os m ú sicos tinham ido com a prociss ã o do papa dos loucos.
— Adiante — disse Gringoire estoicamente.
Acercou-se de um grupo de burgueses, que lhe pareceu estarem a falar da pe ç a. Eis o trecho de conversa çã o que p ô de ouvir:
— Conhece o pal á cio de Navarra, propriedade que foi do senhor de Nemours, mestre Cheneteau?
— Conhe ç o. Em frente da capela de Braque.
— Pois o fisco acaba de o alugar por seis libras e oito soldos parisis, ao ano, ao historiador Guilherme Alexandre.
— Como as rendas est ã o caras!
— Paci ê ncia! — pensou Gringoire suspirando. — Os outros ouvem.
— Rapazes — gritou de s ú bito um dos foli õ es das janelas. — A Esmeralda! A Esmeralda! Na pra ç a!
Ao mesmo tempo ouvia-se, fora, um estrondear de aplausos.
— A Esmeralda, que é isto? — disse Gringoire aflit í ssimo, de m ã os postas. — Ah! Agora s ã o os das janelas!
Voltou-se para a mesa de m á rmore; interrompera-se o espet á culo. Nesse mesmo instante, J ú piter devia aparecer em cena brandindo o raio. Ora, J ú piter estava em baixo, im ó vel.
— Miguel Giborne! — disse o poeta, irritado. — Que fazes a í ? Faltas à entrada, sobe!
— Que queres! — disse J ú piter. — Um estudante levou-me a escada.
— Patife! — murmurou Gringoire — E para que levou ele a escada?
— Para ver a Esmeralda — respondeu J ú piter aflitivamente. — Disse « Magn í fico! Uma escada que n ã o serve! » , e levou-a.
Foi o ú ltimo golpe. Gringoire recebeu-o resignado.
— V ã o para o diabo! — disse aos comediantes. — Se me pagarem contem com a paga.
Bateu ent ã o em retirada, de cabe ç a baixa, mas em ú ltimo lugar, como o general que se bateu at é à ú ltima.
E resmungava descendo as tortuosas escadas do Pal á cio:
— Uma corja de bestas e de est ú pidos estes parisienses! V ê m ouvir um mist é rio e n ã o prestam aten çã o a uma palavra! Passaram o tempo a olhar de boca aberta para toda a gente, Clopin Trouillefou, o cardeal, Coppenole, Quas í modo, o diabo que os leve! E a mim, a mim, voltam-me as costas! Um poeta recebido como qualquer botic á rio! Mas diabos me levem se sei o que eles querem dizer com a tal Esmeralda! Que nome!
 
Livro 2
 
Capítulo 1 — De Cila para Caribdes
 
 
 
Em janeiro anoitece muito cedo. Escurecia quando Gringoire saiu do Pal á cio. O cair da tarde foi-lhe prop í cio; tinha pressa em se embrenhar por qualquer viela obscura e deserta, onde pudesse meditar em paz, para que o fil ó sofo colocasse o primeiro b á lsamo sobre a ferida do poeta. De resto, a filosofia era o seu ú nico albergue, porque n ã o sabia aonde ir dormir.
Depois do malogro ruidoso da sua tentativa teatral, n ã o tinha coragem de entrar na casa que habitava na rua Grenier-sur-l ’ Eau, em frente do Porto do Feno, porque, contando com o que o senhor Preboste lhe daria pelo seu epital â mio, prometera pagar a Guilherme Doulx-Sire, os seis meses de renda que lhe devia, isto é , doze soldos parisis, doze vezes o valor de tudo o que possu í a, compreendendo os cal çõ es, a gorra e a camisa do corpo. Momentaneamente abrigado sob o postigo da pris ã o do tesoureiro da Sainte-Chapelle, a refletir no lugar em que passaria a noite, com todas as ruas de Paris à sua disposi çã o, lembrou-se de que, na semana anterior, descobrira na rua da Savaterie, à porta da habita çã o de um conselheiro do Parlamento, um banco de pedra que servia para montar nas mulas, e que naquela oportunidade, n ã o deixaria de constituir um excelente travesseiro para um mendigo ou para um poeta. Agradeceu à Provid ê ncia o ter-lhe inspirado esta boa ideia e, dispunha-se a atravessar a pra ç a do Pal á cio a fim de penetrar no d é dalo tortuoso da Cidade, por onde serpeiam essas velhas irm ã s, as ruas de Barillerie, da Vieille-Draperie, da Savaterie, da Juiverie, etc., ainda hoje de p é com as suas constru çõ es de nove andares, quando viu a prociss ã o do papa dos loucos, que tamb é m sa í a do Pal á cio e irrompia no p á tio, com grandes clamores, grande luz de archotes, e a sua m ú sica, a m ú sica dele, Gringoire.
Este espet á culo irritou-lhe o amor-pr ó prio ferido; fugiu. Azedava-o, fazia-lhe sangrar a ferida tudo o que viesse recordar a festa do dia, na amarga situa çã o em que o lan ç ara o seu infort ú nio de ator dram á tico.
Quis seguir pela ponte de S. Miguel; corriam crian ç as aqui e al é m, brandindo archotes e foguetes.
— Diabos levam o fogo de artif í cio! — disse Gringoire. Resolveu ir pela Ponte do Change.
Sobre as casas que entestavam com a ponte, flutuavam tr ê s bandeiras representando o rei, o delfim e Margarida de Flandres, e seis pequenas bandeirolas, em que eram retratados o duque de Á ustria, o cardeal de Bourbon e o senhor de Beaujeu, e Madame Joana de Fran ç a e o bastardo de Bourbon e nem eu sei que mais, tudo isto iluminado ao clar ã o das tochas. A turba admirava.
— Um felizardo, o pintor Jehan Fourbault! — disse Gringoire com um profundo suspiro; e voltou costas à s bandeiras e à s bandeirolas.
Viu na sua frente uma rua; achou-a t ã o escura e t ã o abandonada, que tomou por ela, esperando refugiar-se ali contra o rumor e a irradia çã o da festa. Tinha dado alguns passos, quando trope ç ou num obst á culo: cambaleou e caiu. Era um molho de maio que os escreventes do tribunal haviam colocado pela manh ã à porta de um presidente do Parlamento, para comemorar a solenidade do dia. Gringoire suportou heroicamente este novo encontro; ergueu-se e entrou em caminhar em dire çã o à margem do rio. Passando pela torre civil e pelo torre ã o criminal, tendo caminhado ao longo dos altos muros dos jardins do rei, nessa praia em que por n ã o haver pavimento, a lama era tanta que lhe dava pelos joelhos, chegou ao extremo ocidental da Cidade e entreteve-se a olhar por algum tempo para a ilhota do Barqueiro das Vacas, que depois desapareceu sobre o cavalo de bronze da ponte Nova. A ilhota emergia das sombras como uma massa negra, para al é m da estreita corrente de á gua que a separava. Adivinhava-se pelo bruxulear de uma luz d ú bia, a esp é cie de cabana em forma de corti ç o onde à noite se recolhia o barqueiro que passava as vacas de uma para a outra margem.
— Feliz barqueiro! — pensou Gringoire. — N ã o pensas na gl ó ria e n ã o fazes epital â mios! Que te importam os reis que se casam com as duquesas de Borgonha! Margaridas conheces apenas as que as tuas vacas pastam nas pradarias em abril! e eu, poeta, sou apupado, tirito ao frio, devo doze soldos e as minhas solas est ã o de tal modo transparentes que poderiam servir de vidro à tua candeia. Agrade ç o-te, barqueiro das vacas! A tua cabana acalma-me e faz-me esquecer Paris!
Despertou-o do seu ê xtase quase l í rico, uma enorme bomba dupla do S. Jo ã o, que partiu bruscamente da felic í ssima cabana. Era o barqueiro das vacas que tomava a sua parte no regozijo do dia, queimando tamb é m fogo de artif í cio.
A bomba irritou a epiderme de Gringoire.
— Maldita festa! — bradou. — Est á ent ã o escrito que me h á s de perseguir por toda a parte? Oh! Meu Deus! At é o barqueiro das vacas!
Depois, entrou a olhar para o Sena que lhe corria aos p é s e sentiu-se possu í do de uma tenta çã o terr í vel.
— Oh! — disse. — Com que prazer me deitaria a afogar, se a á gua n ã o estivesse t ã o fria!
Tomou ent ã o uma resolu çã o desesperada. Como n ã o lhe era poss í vel fugir ao papa dos loucos, nem à s bandeirolas de Jehan Fourbault, nem aos molhos de maio, nem aos foguetes, nem à s bombas, decidiu-se a penetrar audaciosamente no centro da festa; decidiu dirigir-se à pra ç a de Gr è ve.
« Ao menos » , pensou, « sempre ali terei à minha disposi çã o uma brasa das fogueiras para me aquecer e talvez me n ã o seja dif í cil cear alguma migalha dos tr ê s grandes bras õ es de a çú car real, que devem ter armado no bufete p ú blico da cidade. »
 
Capítulo 2 — A Praça de Grève
 
 
 
Da pra ç a de Gr è ve, tal como ent ã o existia, resta apenas hoje um pequen í ssimo vest í gio; é a encantadora torrinha que ocupa o â ngulo norte da pra ç a, e que, j á oculta pelo ign ó bil caleamento que lhe embota as vivas arestas das esculturas, ter á talvez em breve de desaparecer, subvertida pela nova casaria, que t ã o rapidamente devora todas as velhas fachadas de Paris.
Quem, como n ó s, nunca passa pela pra ç a de Gr è ve sem lan ç ar um olhar de comisera çã o e simpatia para esta pobre torrinha estrangulada entre dois pardieiros do tempo de Lu í s XV, pode mentalmente reconstruir sem custo o conjunto de edif í cios de que ele fazia parte e ali encontrar, completa, a velha pra ç a g ó tica do s é culo quinze.
Constitu í a, como hoje, um trap é zio irregular, fechado por um lado pelo cais e dos tr ê s outros por uma s é rie de casas altas, estreitas e sombrias. De dia, avultava a diversidade de constru çõ es esculpidas em pedra ou em madeira, e apresentando j á exemplares completos das diversas arquiteturas dom é sticas da Idade M é dia, remontando do s é culo quinze ao s é culo doze, desde a janela quadrada que come ç ava a desprestigiar a ogiva, at é ao pleno arco romano, suplantado pela ogiva. De noite, dessa massa de edif í cios apenas se distinguia o recorte negro dos telhados projetando em derredor da pra ç a a sua cadeia de â ngulos agudos. Porque uma das diferen ç as radicais entre as cidades de ent ã o e as de hoje consiste em que hoje s ã o as fachadas que deitam para as ruas e dantes eram as empenas. Em dois s é culos, as casas voltaram-se.
No centro, do lado oriental da pra ç a, elevava-se uma pesada e h í brida constru çã o, formada de tr ê s corpos justapostos. Era conhecida por estes tr ê s nomes, que explicam a sua hist ó ria, o seu destino e a sua arquitetura: a Casa do Delfim , porque Carlos V, quando Delfim, a habitara; a Fazenda , porque servia de C â mara; a Casa dos Pilares por causa de uma s é rie de grossos pilares que sustentavam tr ê s andares. Nesta, havia tudo o que uma boa cidade como Paris podia exigir: uma capela, para orar a Deus; um tribunal para audi ê ncias e para conter em respeito, quando preciso, os s ú bditos do rei; e nos subterr â neos um arsenal atulhado de m á quinas de guerra. Deve dizer-se que uma forca e um pelourinho permanentes, uma justi ç a e uma escada, como ent ã o se dizia, erguidos lado a lado, ao meio da rua, n ã o contribu í am pouco para fazer desviar os olhos desta pra ç a fatal, onde agonizaram tantas criaturas, espl ê ndidas de sa ú de e de vida.
É uma ideia consoladora pensar que a pena de morte que, h á trezentos anos obstru í a ainda com as suas rodas de ferro, as suas forcas de pedra, com todo o seu cortejo de instrumentos de supl í cio, permanentes e chumbados ao ch ã o, a Gr è ve, os Halles, a Pra ç a Dauphine, a Cruz do Trahoir, o Mercado dos Porcos, o hediondo Montfaucon, a barreira dos Sargentos, a Pra ç a dos Gatos, a Pori de Saint-Denis, Champeaux, a Porta Baudets, a Porta Saint-Jacques, sem contar as in ú meras escadas dos prebostes, do bispo, dos cap í tulos, dos abades, dos priores ju í zes; é consolador que hoje, depois de ter perdido sucessivamente todas as pe ç as da sua armadura, a sua pompa de supl í cios, a sua penalidade toda a imagina çã o e fantasia, a sua tortura para a qual renovava de cinco em cinco anos um leito de couro no Grand Ch â telet, essa velha suserana da sociedade feudal, corrida de c ó digo em c ó digo, expulsa de pra ç a em pra ç a, s ó tenha no nosso imenso Paris, num canto vil da Gr è ve, uma miser á vel guilhotina, furtiva, inquieta, t í mida, que, dir-se-ia, alimenta o receio constante de ser surpreendida em flagrante delito, t ã o depressa foge mal perpetra o crime.
 
Capítulo 3 — Beijos por Golpes
 
 
 
Quando Pierre Gringoire chegou à pra ç a de Gr è ve, estava transido. Deu-se portanto pressa em se abeirar da fogueira que ardia magnificamente ao meio da pra ç a. Cercava-a, por é m, enorme multid ã o.
— Parisienses de um dardo! — disse consigo (porque Gringoire, como um verdadeiro poeta dram á tico, era atreito aos mon ó logos) — Agora n ã o me deixam aquecer! E eu ent ã o que tanto preciso de lume! Tenho os sapatos encharcados! Vejam l á se os basbaques se d ã o ao trabalho de se incomodar por minha causa! O que eu queria saber é o que eles fazem ali! Est ã o a aquecer-se; bonito gosto! Veem queimar cem molhos de lenha; belo espet á culo!
Observando mais de perto, reparou que o c í rculo era muito maior do que se fazia mister para se aquecer ao fogo do rei e que a aflu ê ncia de espectadores n ã o era exclusivamente atra í da pelo espet á culo da queima dos cem feixes de lenha.
Num vasto espa ç o, que ficava livre entre o povo e a fogueira, dan ç ava uma rapariga. Se essa rapariga era um ser humano, uma fada, um anjo, eis o que Gringoire fil ó sofo c é tico, poeta ir ó nico, n ã o p ô de decidir no primeiro momento, por tal forma o fascinou a vis ã o deslumbrante.
N ã o era alta mas parecia-o, tanto o seu talhe esbelto se aprumava altivo. A tez trigueira; adivinhava-se, por é m, que a luz do dia lhe imprimiria o belo reflexo dourado das andaluzas e das romenas. O p é , pequeno, tamb é m era andaluz, pois estando apertado n ã o se constrangia no gracioso sapato. Dan ç ava, volteava, redemoinhava sobre um velho tapete da P é rsia, lan ç ado negligentemente aos seus p é s; e, sempre que volteando passava pelos circunstantes, os seus grandes olhos negros despendiam rel â mpagos.
Em redor, todos os olhares estavam fixos, todas as bocas abertas; e efetivamente dan ç ando assim, ao som do pandeiro que os bra ç os torneados e puros levantavam da cabe ç a, delgada, fr á gil e viva como uma vespa, com o corpete de ouro sem uma ruga, a saia pintalgada que se enfunava, as esp á duas nuas, as pernas delicadas que por momentos se entreviam, os cabelos negros, os olhos a luzirem, era uma criatura sobrenatural.
— Na verdade — pensou Gringoire — é uma salamandra, uma ninfa, uma deusa!
Neste momento, uma das tran ç as do penteado da salamandra soltou-se e uma moeda de cobre amarelo presa aos cabelos caiu ao ch ã o.
— Ora! — tornou ele. — E uma cigana.
Dissipara-se-lhe a ilus ã o.
Ela continuou a dan ç ar. Tomou do ch ã o duas espadas, cuja ponta apoiou na testa e à s quais fez girar num sentido enquanto ela volteava noutro; era, efetivamente uma cigana. Mas, a despeito da desilus ã o de Gringoire, o aspeto do quadro n ã o deixava de ter o que quer que fosse de prestigioso e m á gico; a fogueira iluminava-o com uma luz crua e vermelha que tremia viva sobre o c í rculo de fisionomias da multid ã o, sobre a tez morena da rapariga, e no fundo da pra ç a projetava um reflexo p á lido de mistura com as vacila çõ es das sombras, de um lado sobre a velha fachada negra e rugosa da Casa dos Pilares, do outro sobre o bra ç o de pedra do cadafalso.
Entre os mil rostos que o clar ã o tingia de escarlate, um havia que, mais que os outros, parecia absorto na contempla çã o da bailarina. Era uma fisionomia de homem austero, calmo, sombrio. Esse homem, envolto pela turba, que o rodeava, n ã o aparentava mais de trinta e oito anos; no entanto, era calvo; tinha nas fontes raras mechas de cabelos j á grisalhos. A fronte larga e espalmada fincava-se de rugosidades; tinha, por é m, nos olhos cavos, um extraordin á rio fulgor de mocidade, uma vida ardente, uma paix ã o profunda. Fitava-os obstinadamente na cigana, e ao passo que, est ú rdia, essa crian ç a de dezasseis anos dan ç ava e volteava a divertir a turba, o seu cismar crescia, de mais em mais sombrio. De quando em quando um sorriso e um suspiro vinham encontrar-se-lhe nos l á bios; o sorriso, por é m, era mais doloroso do que o suspiro.
A rapariga, ofegante, parou por fim e o povo aplaudiu-a com amor.
— Djali! — disse a cigana.
Ent ã o Gringoire viu aparecer uma pequena cabra branca, alegre, viva, toda lustrosa, com as pontas e as patas douradas, a coleira igualmente dourada, e que at é ali o poeta n ã o lobrigara, pois que at é ent ã o o animal estivera deitado numa ponta do tapete a ver dan ç ar a dona.
— Djali — disse a bailarina. — Agora tu.
E sentando-se, apresentou graciosamente à cabra o pandeiro.
— Djali — continuou — , em que m ê s estamos n ó s?
A cabra levantou a pata de diante e bateu uma pancada no pandeiro. Estava-se efetivamente no primeiro m ê s. A multid ã o aplaudiu.
— Djali — prosseguiu a rapariga voltando o pandeiro para outro lado — , em que dia do m ê s estamos n ó s?
Djali, levantou a patita dourada e bateu seis pancadas.
— Djali — volveu a cigana brandindo sempre o pandeiro — , em que hora do dia estamos?
Djali bateu sete pancadas. Nesse momento, o rel ó gio da Casa dos Pilares deu sete horas.
O povo estava maravilhado.
— A í h á feiti ç aria — disse de entre a multid ã o uma voz sinistra. Era a do homem calvo que n ã o tirava os olhos da cigana.
Ela estremeceu e voltou-se; mas os aplausos explodiram e cobriram a exclama çã o do homem.
Desvaneceram-no at é t ã o completamente no seu esp í rito, que a cigana continuou a interrogar a cabra.
— Djali, como faz mestre Guichard Grand-Remy, capit ã o dos pistoleiros da cidade, na prociss ã o da Candel á ria?
Djali levantou-se sobre as patas traseiras e p ô s-se a balir, marchando com t ã o gentil vaidade, que os espectadores romperam à s gargalhadas por esta par ó dia da devo çã o interesseira do capit ã o dos pistoleiros.
— Djali — continuou a rapariga, animada pelo crescente ê xito — , como prega mestre Tiago Charmolue, procurador do rei no estrado da igreja?
A cabra sentou-se sobre as patas traseiras e p ô s-se a balir, movendo as patas de diante por forma t ã o extravagante que, excetuando o mau franc ê s e o mau latim, gesto, tom, atitude, tudo era de Tiago Charmolue.
E o povo cada vez aplaudia mais.
— Sacril é gio! Profana çã o! — continuou a voz do homem calvo.
A cigana voltou-se novamente.
— Ah! — disse ela. — É esse homem feio! — Depois estendendo o l á bio inferior al é m do l á bio superior, fez um trejeito que parecia ser-lhe peculiar, deu uma pirueta sobre os calcanhares e entrou a recolher no pandeiro os ó bolos da assist ê ncia.
Choviam os brancos grandes, os brancos pequenos, os targes, os liardes de á guia. De repente, passou por diante de Gringoire. Gringoire levou t ã o estouvadamente a m ã o à s algibeiras que ela parou.
— Diabo — disse o poeta encontrando no fundo da algibeira a realidade, isto é , o nada. No entanto a rapariga n ã o se desviava, a mir á -lo com os seus grandes olhos, a estender-lhe o pandeiro, à espera. Gringoire estava sobre brasas.
Se tivesse o Peru na algibeira, decerto o daria à dan ç arina, mas Gringoire n ã o tinha o Peru e al é m disso a Am é rica ainda estava por descobrir.
Felizmente, um incidente inesperado veio em seu socorro.
— Tu n ã o te ir á s embora, gafanhoto do Egito? — gritou uma voz desabrida partindo do canto mais sombrio da pra ç a.
A rapariga voltou-se assustada. J á n ã o era a voz do homem calvo, era uma voz de mulher, uma voz untuosa e m á .
Ora, este grito, que tanto assustou a cigana, encheu de alegria um bando de crian ç as que por ali vagueava.
— É a presa da Torre Roland — bradaram em descompostas gargalhadas. — É a velha que est á a rabujar. Talvez que ainda n ã o ceasse! Levemos-lhe alguns restos das mesas.
Largaram todos em precipitada corrida para a Casa dos Pilares.
Neste tempo, Gringoire valendo-se do ensejo que lhe proporcionara o susto da dan ç arina, eclipsara-se. A gritaria das crian ç as fez lembrar-lhe que tamb é m ele n ã o ceara. Correu à sala do bufete. Mas a gaiatada tinha melhores pernas do que ele, de forma que quando l á chegou, a limpeza fora geral e nem sequer havia um triste camichon de cinco soldos a libra. Na parede avultavam apenas as esbeltas flores-de-lis, entremeadas de roseiras, pintadas em 1434 por Mathieu Biterne. Fraca ceia, em verdade!
N ã o h á coisa pior do que deitar-se a gente sem ceia, mas h á uma coisa pior ainda, que é n ã o ter que cear nem saber onde dormir. Gringoire estava nesse caso. Sem p ã o e sem abrigo, via-se compelido de todos os lados pela necessidade e achava-a extremamente desabrida. De h á muito descobrira a seguinte verdade: que J ú piter criou os homens num acesso de misantropia, e que, durante toda a exist ê ncia do s á bio, o destino tem em estado de s í tio a sua filosofia. Pela parte que lhe cabia, nunca assistira a um bloqueio t ã o completo: ouvia o est ô mago tocar e achava muito fora de prop ó sito que o mau destino vencesse pela fome a sua filosofia.
Este melanc ó lico cismar cada vez mais o absorvia quando uma can çã o estranha, e todavia doce, o veio bruscamente despertar. Era a cigana que cantava.
Dava-se na sua voz o mesmo que na sua dan ç a, que na sua beleza. Era indefin í vel e encantador; o que quer que fosse de puro e de sonoro, de a é reo, por assim dizer, de alado.
Cantava numa l í ngua desconhecida para Gringoire e que para ela mesmo parecia desconhecida tamb é m, t ã o pouco a express ã o que dava ao canto condizia com o sentido da letra. Assim, estes quatro versos tinham nos seus l á bios a express ã o de uma alegria louca.
 
Un cofre de gran riqueza
Hallaron dentro un pilar;
Dentro del, nuevas banderas
Con figuras de espantar.
 
E um instante depois, com o tom que a cigana dava a esta quadra:
 
Alarabes de cavallo
Sin poderse menear,
Con espadas a los cuellos,
Ballestas de bien tirar.
 
Gringoire sentia assomarem-lhe as l á grimas aos olhos. No entanto, o canto respirava sobretudo alegria e ela cantava como uma ave, serena e descuidada.
A can çã o da cigana turvara o cismar de Gringoire, como o cisne turva a á gua. Ouvia-a como que arrebatado, esquecendo tudo. Era esse o primeiro momento em que se n ã o sentia sofrer.
Mas pouco durou.
A mesma voz de mulher que interrompera a dan ç a da cigana, veio tamb é m interromper-lhe o canto.
— N ã o te calar á s, cigarra do inferno? — bradou ela, sempre no mesmo recanto escuro da pra ç a.
A pobre cigarra calou-se imediatamente, Gringoire tapou os ouvidos.
— Oh, exclamou. — Maldita serrazina do inferno que vens quebrar a lira!
No entanto, os outros espectadores murmuravam como ele: — Leve o Diabo a bruxa — dizia-se. E a velha desordeira invis í vel n ã o teria pouco a arrepender-se das suas agress õ es contra a cigana, se as alterca çõ es da turba n ã o fossem naquele momento distra í das pela prociss ã o do papa dos loucos, que, depois de ter andado por travessas e ruas, desembocava rumorejante na pra ç a de Gr è ve, com todo o seu cortejo de archotes.
Essa prociss ã o que os leitores viram sair do Pal á cio, organizara-se pelo caminho e recrutara tudo o que havia de malandrins, ladr õ es ociosos e vagabundos dispon í veis; assim, apresentavam um respeit á vel aspeto quando chegou à pra ç a de Gr è ve.
Vinha na frente o Egito. O duque do Egito, à testa do cortejo, a cavalo, com os seus condes a p é segurando a r é dea e o estribo; na retaguarda, os ciganos e as ciganas à mistura, com os filhos a gritar, à s cavaleiras nos ombros das m ã es; todos, duques, condes, arraia mi ú da, esfarrapados e ouropelados.
Seguia o reino do cal ã o, quer dizer, todos os ladr õ es da Fran ç a, escalonados por ordem de dignidade; os menores à frente dos primeiros. Assim desfilavam quatro a quatro, com as diversas ins í gnias dos seus graus dessa estranha faculdade, a maior parte estropiados, uns coxos, outros manetas, pseudo-desempregados, peregrinos fingidos, pseudo-raivosos, falsos epil é ticos, tinhosos curados, falsos convalescentes, b ê bedos, coxos, batoteiros, falsos hidr ó picos, falsos queimados, arruinados, mutilados, ó rf ã os, falsos leprosos, etc.; uma nomenclatura capaz de fatigar Homero. No centro do conclave a custo se podia distinguir o rei do cal ã o, o grande Co è sre, acocorado numa pequena carrinhola puxada por dois canzarr õ es.
Depois do reino do cal ã o, vinha o imp é rio da Galileia. Guilherme Rousseau, imperador do imp é rio da Galileia, caminhava majestosamente na sua t ú nica de p ú rpura manchada de vinha, precedido de bailarinos simulando combates e dan ç ando p í rricas, cercado dos seus maceiros, dos seus ajudantes e dos membros do tribunal de contas. No coice vinham os r á bulas com os seus doceis coroados de flores, as suas sotainas negras, a sua m ú sica de sabbat e os grossos brand õ es da confraria dos loucos conduzindo aos ombros um andor mais carregado de c í

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